há uma crueza, uma proximidade da morte e da dor; passamos nos cortando, nos ferindo; suor de cavalo; calos nos pés, espinhos.. e uma relação com a natureza infindável: cortar mato, matar pássaros, gastar água, leite e ovos; maldade (mas dizer maldade é tão inadequado; que é só cru e bruto, animal neste sentido ingênuo..)
o campo: e o olhar numa biblioteca
ganas de largar tudos e vir isolar,
o olhar perdido nesta tranqüilidade rasa do horizonte: e ao lado um olhar folhado pleno de livros e letras - sair no campo e sou só presente - e estes sonhos fora do tempo, estas li-teraturas. e como o corte no dedão que inflamou, ou a ave nova que me cruzou o caminho à tarde: as maneiras como este cotidiano tão puro conseguirá espelhar as músicas lindas que ecoam nos meus olhos, após as noites inteiras de nariz enfiado nas páginas - sim, talvez bem como ao ouvir música em fones de ouvido o mundo vire um labirinto de espelhos deformantes, paredes e cores tão já primas do som que nos invade a alma, e tudo ganhando aires tão esbeltos: talvez aqui, no aquém cidade, neste campo dito neutro - talvez nesta velocidade lenta do viver possa-se finalmente lavar as vistas com os livros: talvez o que a música nos faz na cidade, como vinho em água, tingindo tudos com cores de tempo e gosto; aqui as letras que tenham lugar, em sua não-velocidade
(arroubo estruturalista - cidade::campo = música::literatura)
mas nada neutro! tão nada de zero, de página branca; tão tendencioso em sua universalidade rígida e pouco visível, tanto que nem é exprimível, tanto que nem nos excita, mas nos borra, nos calma e flui: como largar-se num barco bêbedo em águas calmas e fáceis, sentar-se seguro para dormitar e fazer planos: sem perceber a umidade embolorando-lhe os papéis; sem ver o limo grosso acumulando, ou a dieta de peixe transfigurando-lhe os humores, ou a paisagem lenta recortando seu próprio lar no fundo dos olhos, impregnando seus tons nas retinas; até quando ergue os olhos e sonha o céu, bebe as nuvens e esculpe-as formas, "imaginando-lhes" tão primas do que se toca e come - até que mesmo as nuvens já são lentidão e peixe, e limo e bolor irrefreável e invisível; afundar neste abismo de não-civilização, de não-não: menos que um nada, porque o nada é palavra e palavras só existem nos homens: aqui nem se é mais homem, é como voltar eras e somos um peixe ousado que acaba de pousar suas nadadeiras fora d'água, mas tudo lhe é marinho e aquático: e aqui ele passeia na orla da praia, e algumas ondas quase o engolem com satisfação: porque ele é tão peixe (porque somos tão feitos de carne, e fácil vagueamos sem destino por esse mar tentador de crueza e lentidão, de simples)