A BAUHAUS
1919 - por Gropius, 36

O progresso da técnica mostrou como uma forma de trabalho coletivo pode conduzir a uma produção total maior do que um trabalho autocrático de cada indivídua.

O artesãpa tornou-se com o correr do tempo um apagado decalque daquela vigorosa e autônoma representante da cultura medieval, que dominava toda a produção de seu tempo e era técnico, artista e comerciante em uma só pessoa. Sua oficina migrou para a fábrica, deixando-lhe não mais do que uma loja. O processo do trabalho escapou-lhe da mão e elha se converteu unicamente em comerciante sem contato com a matéria, atrofiadua em uma natureza parcial, incompletua. Perdeu a capacidade de formar discípuluas; as jovens aprendizas foram deixados às fábricas onde a mecanização lhes embotou os instintos criativos e tirou-lhes a alegria do trabalho.

A indústria continua a lançar no mercado um sem-número de produtos mal ENFORMADOS, enquanto es artistas (e outras inventores de utopia) lutam em vão para aplicar projetos caros, pouco versáteis, pouco flexíveis. Os artigos produzidos mostram apenas nuanças decorativas de tendências cambiantes de gosto, sem o sentido estrutural que brota do conhecimento dos novos meios de produção.

Propomos arrancar a artista criador do seu distanciamento do mundo e restabelecer sua relação com o mundo real do trabalho. O campo de atuação do artesãpa tornar-se-á parte orgânica da unidade de produção da massa. Propomos insuflar sentido direto e vida no produto de massa e no lar, na maquinaria prática da vida. Desrobotizar o indivídua.

A base dessa formação é um curso preparatório no qual se visa desenvolver a humana inteira que, a partir de seu centro biológico, possa encarar todas as coisas da vida com segurança instintiva e esteja à altura do ímpeto e do caos de nossa Era Técnica. Só quando se desperta cedo uma larga compreensão para as cambiantes relações dos fenômenos da vida se pode oferecer uma contribuição própria ao trabalho criativo do seu tempo.

Após o preparatório, cada estudante trabalha em uma oficina, onde estuda com uma mestre de artesanato e uma de projeto industrial. A meta principal é produzir artigos padronizáveis. Embora os modelos sejam feitos à mão, uas projetistas têm de fiar-se nos métodos de produção em escala industrial e por isso passam por um período de trabalho prático nas fábricas. Inversamente, as fábricas enviam às oficinas trabalhadoruas experientes a fim de discutir as necessidades da indústria.

Todas as produções denotam um certo parentesco: constituem resultado de um espírito coletivo desenvolvido consciente ou inconscientemente, que se cristaliza nas personalidades mais diversas. Esse parentesco se baseia na necessidade de produzir coisas de um modo simples, autêntico, em concordância com suas leis. As formas não são o resultado de modas, mas a combinação artística de inúmeros processos de pensamento e trabalho no domínio técnico, econômico e da criação formal.

A concepção da unidade fundamental de toda criação opõe-se diametralmente à ideia da arte pela arte e à filosofia ainda mais perigosa da qual ela se origina, do negócio como um fim em si. Propomos gerar esse novo tipo de colaborador industrial, que reúna em sua pessoa as peculiaridades dua artista, do técnica e da negociante. Levar as aprendizas a um contato íntimo com os problemas econômicos. Contra a ideia de que a capacidade artística possa sofrer se lhe aguçarmos o senso de praticidade, demora, incerteza e desperdício de materiais.

A criação é um grande gasto livre, mas quando pronta, finalizada, pode ser feita em massa, medida barata a toduas. Descer a escala do dinheiro, desconcentrar para proliferar o bom produto. E assim fundar uma gramática da forma e da plasmação da forma. As figuradores, projetistas, enformadoras (dedicadas a enformar - dar fôrmas - ao mundo), devem aprender uma linguagem da forma: a base que venha guiar a mão plasmadora e permitir que as unidades produtivas trabalhem em conjunção harmoniosa. Como na música, onde o contraponto é um sistema supra-individual de coordenação no mundo tonal. O desenvolvimento dessa teoria pela academia malogrou porque esta perdeu o contato com a realidade.
 O cara estava NU em plena escadaria da Câmara

Entre o Teatro Municipal e o metrô ia Tainá toda pintada
piscava com penas azuis em seus cílios
saía do espetáculo, pelas escadarias

E viu a bermuda arriada,
o cara, deitado na escada
da Câmara! esfregando o rosto dormindo

No chão.... e a polícia lá... e nada de nada
hahahahahhahaha

O rei está nu!
só resta decapitá-lo

já é......na lídermagazine

hoje passei pelo presépio de umas igrejas
natal... natalidade nascimento ignição
natura da cognatura nome numus

bebês não saem do chão. o presépio está errado
ele é sobre um momento depois do parto
a apresentação a todos os animais
o presente dos reis
a estrela no céu

não é sobre a natalidade em si mesma

bonecos de neve?
gorro e luvas vermelhas,
descendo por uma... uma o quê? chaminé?
nesse calor?

isso pra mim só atrapalha entender o sol
o início do verão
recomeço do ano, férias
e o calor, o mar

cultura idiota: não se liberta do gelo de terras imaginadas
colonizados: fazendo de conta que são da Metrópole
a cidade Metro, utopia da medida
que coloniza essa terra

aos que gostam da bíblia, o seu menino de jesus
é um mito da monogamia = saber identificar se é esperma ou se é deus

essa história - de milagres - vem caminhando
 pelos shopping centers, outdoor shows e demais powerpoints
com seu reverso gêmeo, mortal

- se para deus funciona assim, para o mortal funciona assado
aqui na terra, se trata de trepar e fazer filhos, é assim que vêm
família, árvore de natal e presentes, dádivas
13° salário furando o ano, prenúncios de carnaval
grandes encontros familiares, comida e revéillon capricórnio

que se trata do "bom velhinho" trazer presentes pelo furo da família?
ele entra pela fumacinha do corpo-casa
e deixa seus presentes (natal, os espermatozóides chegaram)

R. EMAT, O EUNUCO - "Acho mais razoável supor serem aliens, não deus"



Se essa rua fosse minha - XII


Conheci ontem rapidamente o cara que vai revolucionar as caronas pra UFRJ. Desde que o mundo é mundo, o carro é carro, e que faz tanto sentido colocar todos os estudantes em prédios espalhados numa ilha que não dá pra acessar nem de bicicleta - as pessoas se dão carona pro fundão, inda mais, nesses tempos de zapzap e mídias móveis e redes eletromagnéticas. Daí o cara tá inventando o aplicativo - a empresa - de organizar as caronas. Que interessante! Puxei a cadeira para ouvir mais.

"Pois então Harvard Business School, e fiquei até 6 da manhã preparando a apresentação pros investidores... são 1700 empresas de 250 funcionários no RJ, se cada empregado dá $10 por mês e pegamos umas 50 empresas, são $100 mil - ah, isso que é sonhar!"

Depois dessa fui dar uma volta... sujeito parece gente boa, mas daqui a 5 anos, com o sistema inteiro passando a mão na cabecinha dele, acho difícil não se tornar um babaca. No alto da sua torre, já muito distante dos ônibus lotados dos estudantes... Também não consigo ter tanto tesão em novas tentativas de fazer CARRO funcionar. Carro de propriedade individual - e transporte coletivo? Que foi feito das vans?

Engraçado que ontem logo antes, eu tava no 438 passando pelo centro vazio - e o ônibus ia super devagarinho, então fui como quem não quer nada perguntar ao trocador: "Desculpa, queria perguntar, por que é que às vezes vai devagar? Tô com tempo! não tô com pressa. Queria saber mesmo..."

Achando que eles recebiam por hora, e tavam esticando um serviço fácil - mas não. É a empresa que não deixa adiantar a corrida. Daí tem que ir freiando, na rua vazia... Quando a empresa é pequena, as linhas curtas, o patrão deixa rodar. Mas hoje tão todas se submetendo aos Consórcios - do Sérgio Cabral, que saiu da mídia no sapatinho - e que são um nome bonito pra quem tem muito dinheiro e não entende nada de transporte. Com os consórcios o patrão só ganha metade do lucro, não decide tanto as regras, e aperta muito mais o empregado.

Passando pela Rio Branco, apontei as obras do bonde (desculpa, o nome é VRT, porque eles vão trancar todo mundo no ar condicionado) e ele respondeu: quando isso sair, vão acabar com vários ônibus. Pra dar dinheiro pra ideia deles. E quando encontram os trilhos de cem anos atrás na arqueologia das ruas e avenidas, deixam a nu que esse progresso todo só dá voltas no mesmo lugar. Compram poucos ônibus - mas tem ar-condicionado! que investimento. Vans nem pensar...

Tá bom de lamúrias por hoje. Mas aquele sonho do jovem revolucionário - 100 mil por mês! isso que é otimismo.

C é U

Era um amor como nunca se havia visto. Se preparem que vai dar calafrios. O amor devorante dum casal que nunca mais se quer separar. Afinal quem come quem? Mergulhadas nos olhos um da outro, mãos entrelaçadas, os peitos se completavam numa respiração maravilhosa: quando aqui inspira aí expira, e parecem fundir numa carne só. Numa carne só - que gostoso seria. Para além de qualquer desejo de ser o mesmo. A fusão carnal nunca bastava, desejavam mais. Corpos que se completam numa medida que parecia ultrapassar toda lógica. Nada de almas gêmeas, o caso era mais de duas metades de uma alma só, que sozinhas não são senão a falta e o desejo da outra metade...
E com estes pensamentos elhas trocavam saliva com sede, e beijos sugados. Quando de manhã abriam olhos e não queriam outra imagem a não ser a pupila alheia, cair no espelho-espelho do olhar que entra nos olhos. E de carinha colada levantavam cegas ao resto, ir no banheiro, tropeçar, cair e se ralar no grude. Já falamos do respiro ritmado, diafragma colado. Imitar bocejo, num eco feliz, repetido e repetido só pelo gosto de ser bocejo da outro. Chupar dedos da mão, do pé. Enquanto dorme, brincar no corpo alheio. Dar comida na boca, beber água. Se vestir, engraçado, todas desajeitados, entrar na mesma roupa, siamês. Chupar os gostos de baixo. Líquido que o corpo faz, fosse semente, fosse sangue de mês. Se desse leite tomava. E mordida mesmo. Pra deixar marcado, já viram o Kama Sutra? Só fala de mordida, arranhão. Hematoma de amor. Chupão. Mas na nossa história, elhas num pararam.
Sabe-se que a amizade em graus febris pode levar as companheiros a pactos por meio dos quais fazem-se cortes nos dedos um da outro e os cortes são aproximados, ligando o sangue para sempre. Mas o amor de espíritos se traduz num abismo de assimilação e fusão no corpo amado. E o casal divisou um rito que poderia aplacar sua ambição insaciável. Parecia havê-lo visto nalgum texto antigo, hoje ignorado pela fria cultura do amor virtual, sem a fome táctil que hipnotiza.
Pois bem, era então aniversário de seu amor e véspera de uma despedida prolongada, e durante o sexo, quando os corpos ofegam por tornar-se um, num coito terrível enfiaram-se os dedos mínimos um na boca da outro, e no baque do clímax, gozando corrido os dentes fecharam na carne amada para engolir e serem engolidas uma parte de amor no dentro do ser.
A cicatriz e a falta daquela parte compensavam por haver agora por todo o seu sangue e carne um toco exatamente igual do corpo amado preenchendo-lhe o dentro. Aquele gosto brutal... Nossa história poderia parar por aqui, e se somar ao rol das expressões extremadas de amor, na fronteira entre o delírio e a adoração. Mas isto seria ignorar o fato mais pungente nesse caso, que este sim os tomou de um furor faminto, pois ao se reencontrarem, o casal só tinha um pensamento: prosseguir na mútua devoração, no ser devorado e no devorar do corpo amado. E uma vez que o amor prova o gosto do sangue, mas mais ainda, uma vez que o corpo sente-se acuado ante a avidez amante, e só pode responder-lhe na medida em que vê naquela avidez a sua própria, refletida e multiplicada como espelhos travados de fronte um ao outro, onde não há mais predador nem presa mas um contínuo voraz de fomes sanguinolentas, aí não haveria instituição moral que os impedisse de continuar.
Pois quando tocavam os tocos vazios de um no outro sentiam vertigens amorosas que lhes atravessavam por completo. Pois assim que refeitos, se escolhiam os artelhos do pé, ou pequenos nacos da coxa e da perna, subindo pouco a pouco, na gula dos presentes apaixonados, sem saber se queriam dar-se à comida ou provar mesmo a fome, sem perder-se no sangue de presas afiadas cortando corpo e amor de beijos provados. E passavam noites em núpcias procurando a parte que lhes caberia agora. Devorados os dedos, e essa fome implacável, prosseguiam portanto, e aos poucos tornavam-se deficientes, e as atividades físicas se dificultavam. Mas estavam ali, juntas, um para apoiar a outro e caminharem escoradas, siamesando-se tarados. A partir daqui nosso relato perde o testemunho fiel, pois o que sucede beira o desconhecido na experiência humana. Conta-se que seus corpos tornaram-se aos poucos duas metades amalgamadas num único ser, enlevado pela redenção de duas almas coladas, que se autofecundava e paria, amorosa utopia da devoração.
A Língua é a Força
o dragão
tem carne, músculo
sangue,
mordemos ela - é ruim.
Ela envolve, saliva
chupa gosto do que
comemos, espremida
entre as raízes dos dentes
e a abóbada celeste.
questão de forma...

desinteressa
essa página
não seja ela
- inteira -
um manifesto
a manifesta
ação
direta
inteira ela
texto,

tecido de gentes

si a forma aceita
si lhe deixamos não ser
eterna busca
de ser perfeita
não
a palavra não sai
está travada
só sai ruído...

quem precisa mudar é a arte, não nós

-
andré desinteressado
Talvez o abismo que sinto - nunca mi senti tam perdido, creio, ou agora, a dizer isso, me rapele dum outro andré - aquele mesmo qui foi à frança sete anos atrás. Pois bem talvez o abismo seja justo o momento da grande transição. Terminar esta pequena era e dar início a uma nova.
Metamorfose num novo andré, onde reapareçam sinais que ates eram só pistas agora desenvoltos, cadeias inteiras de faces reveladas. De novo, como na ilha de robinson, passar à carta seguinte. É um novo avatar que se abre, e preciso ter tanto cuidado com o abismo, a tristeza a solidão e mesmo a revolta não é confiável. De volta ao cuidado de si. Abandonar o quarto, o símbolo primeiro. Fim do lar natural, início da era nômade. Encontrar a paz da solidão, a panaceia, o bálsamo que neutraliza os venenos. Purificação. Preciso de força, si quero infrentar mesmo o moloch dos muitos disfarces. Protegei-me.

Zero


Sento para escrever sobre as moedas. Tenho tudo preparado. Desenhei, em meu caderno, maravilhoso óculos de palavras: dois redemoinhos de perguntas sobre o ouro. Basta digitá-los, líneos.
Mas sou sacudido pelo encontro no chão. Estou no quarto de um amigo. Vamos chamar ele de Antônio Albatroz. Encontro um papel, do seu banco, do seu último mês.
São as dívidas ao banco. Ele devia 700. Pagou uns lanches, às vezes sacou 20 reais. O banco chupa 90, cobra 20 pelo serviço, e vamos a 900 devidos. Mês que vem, o juro é maior.

Eu poderia emprestar-lhe a grana. Mas e cobrar? Emprestar mil, dizer: tens um ano. Doze meses... minha poupança renderia 70. Eu podia emprestar muito barato pra ele, e valer a pena. O banco me paga 6 por mês, cobra 20 pelo serviço, empresta a minha grana pra oito pessoas além do Antônio, de quem cobra 20 pelo serviço, mais 70 por mês pela generosidade. Como pode o banco cobrar tanto?

Acabei de ler um livro sobre o bairro financeiro de nova iorque. Aquele porto do império colonial, Manatuouh, Manhatã, Manahachtanienk. Na rua do muro que os separava dos vermelhos, Wall. Onde ergueram, no número 14, uma pirâmide do mundo antigo em cima do arranha-céu de torre. Capital do capital. Mestres da papelada, fundaram a democracia há duzentos anos. E um novo mundo de criações financeiras. Será que um dia vou entender?

Tenho de estar eu mesmo na margem, no beiral da porta de saída, na fenda, abrindo a fenda: só aí, no umbral, forçando a fresta da porta, poderei ver e dizer e entender a alquimia viva destes papéis que se tornaram o nosso ouro. O que nos intermedia, o que está entre a população, as suas margens (somos rios de tempo), its banks. Sua história obscura, difícil de ser contada, em uma palavra, cega.

Vejo bem, nos relatos de cem, duzentos anos atrás, a proliferação de tantas notas com assinaturas as mais variadas. Mil bancos emitindo, e dando falência, ao lado de tantas falsas e roubadas. Patrão paga com cédulas de bancos perdidos, duvidosas, duplicatas, cheques e promessas de desconhecidos que os outros não aceitam em valor cheio. Inundação de papel, lubrificante, por vezes falso, só aumenta a orquestra da competição infernal. Promessas, contratos, ordens carimbadas em papel timbrado; escrituras, cartas com o selo do rei ou da repartição, ordens judiciais, disputando, competindo para afirmar seu poder concentrado e sendo ultrajadas, ignoradas; os canais sendo cavados, os feixes, alinhados; 1870, a Federação (democrática) a República maior, padroniza uma cédula (e um exército) e define por onde corre a palavra de ordem dos prefeitos, simbiose; imbrincados, a competição de poderes e de suas manifestações, chamada indústria dos impressos de segurança, os não copiáveis. E não se fala sobre isso, uma história toda junta, papel-moeda e os selos de autoridade. A papelada.

Nunca entendemos as classes não produtoras, os gerentes, burocratas, capitalistas: a articulação, a trama que põe tantas partes em conexão, as dobradiças. Chamar capitalismo de democracia - mas e a empresa, a corporação, com sua assembleia dos diretores, e o pêso dos votos dos acionistas, já não está construída? Ficamos ofuscados pelo sufrágio universal, sem ver que o voto, esse papel contado, está por toda parte. Dinheiro que sai e que volta, sortimento de papéis contados que recebo (ou que herdo, ou arrisco criar) e que emprego, à escolha livre. História dos papéis contados, não copiáveis.

Não vejo dito, que no ouro, na prata, o metal raro permite é a medida, que se circule - imensa gincana, bazar e ciranda - um número, sempre igual, indo e voltando dos seus donos. Um nível - mais alto, mais baixo - numa escala do raro. Vamos circular a raridade.

Tantas metáforas da água, tão perfeitas, sem nenhuma reflexão? Nível dágua, pois bem, e a liquidez, os bolsões, os fluxos, as cheias e as vazantes, a circulação, as injeções, a canalização...  a sede, a pesca... os tubarões (agiotas, usurários).

E nosso parentesco com rios, drenando, irrigando. Vejam os países do alto, cortados por esses feixes, como que veios de árvores, as veias estradas, ruas, luzes, as bacias hidrográficas até os portos. Correnteza de anéis de metal, elos e correntes reunidas em feixes como um grande planeta de fantoches uns amarrados nas cordas dos outros, e sufocando em acusações de titereiros, sem ver as cordas, a cadeia de cordas... Cá embaixo são os fios dos fiados (do crédito acreditado) e da confiança, de que a aposta na ciranda vá dar certo. Imenso blefe no futuro, loteria, caça-níqueis - e este papel de mão em mão, com que se abrem, todas as portas, contagiando-as, maculando-as com seu desnível - não é outro disfarce, mais disseminado, do coringa dos jogos de baralho? Estranha e valiosa carta, que todos querem, que facilita, mas que tudo suja, degenera em cópia, simulacro da ordem que haveria sem ela ali, e que, para os que só têm coringas na mão, sufoca em ser só o nada, chafurdando na sua sujeira...

Mas me assusta, essas ideias - constatações - tão simples, primárias, passarem cegas, sem história, na guerra do dinheiro que brilha. A sede do ouro, de sua glória forjada, sua falsa luz que a tudo ofusca, é ela mesma cega, cegada, pelo seu próprio fulgor. Capitalismo: esta palavra mágica, que os ianques assumem com orgulho, sinônimo da sua liberdade. A trama suga e concentra na capital - na cabeça - no topo planejador, previsor, confiável, as rédeas para o concerto de membros ser levado ao limite de exaustão; alavanca de arquimedes movendo o mundo, cristalizando ferramentas, aço-muros e atalhos para a afluência - esta sempre sugada, recirculada, alavancada em grandes golfadas tecnológicas enquanto as pontas padecem, ressecadas, e o centro é um pântano do consumo do nada, dormência, simulacro do reinado da abundância. Pletora do coringa, o bobo da côrte, seu alquimista que proliferou o ouro na exata medida de inventar reis falsos, onipotentes mas ainda escravos do seu precioso mundo de preços.

O juro é a renda da terra, o excedente, a afluência (o número brotando) concedida ao coringa. Os medievais acusavam a moeda de ser porra, semente: nada cria tão-só ela mesma, que só com terra que o faz, a fertilidade, as mãos, mães da matéria.


Guerreiro,
é o nome do meu cavalo
Guerreiro
é o nome do meu cavalo

O Marquês de Albatroz fincou a sua bandeira de galinha. Está fundada a Ninharia!

Estatuto Um: Seremos anarco monarquistas.

O Marquês de Albatroz se chicoteava, deliciosamente

Ele cavalgava, centauro,
a sutura de seu corpo de homem
com as patas do cavalo.

Guerra: O estatuto do chicoteamento define as formas de guerra.
A federação de anarquias, como forma maior, consultará os trabalhos dos membros informes.

Alta fronte do centauro, armada da lança e do escudo, centauro em guerra, imperando sobre as patas velozes. O equilíbrio da justiça com o envenenamento, o ferrão.

Dentre a flutuação do raio e do azar, brilhar como um sol negro no segundo centro da nossa rotação.

-
Albatroz André Aracnídeo

Hermetica

Seria possível apreender a ideia que um pagão do mundo helenófono (que falava grego) instruido sem ser particularmente letrado, se fazia de sua relação atual ou potencial com Deus? E se ele não tinha uma ideia precisa sobre isso, como poderia se fazer uma? Onde poderia encontrar um mestre, e em quê sua relação poderia constituir?
Existe um corpo de textos filosóficos, facilmente acessíveis, que, sem provir do meio elitista dos círculos platônicos, não reflete menos modelos análogos de pensamento e experiência. São os texto designados sob o nome de Hermetica - um conjunto de tratados compostos no Egito romano e atribuídos ao deus Hermes Trismegisto assim como a outros membros do seu entorno, como Asclépios. Ao lado desses textos, existe um corpo de Hermetica "técnicos" tratando de magia, alquimia, astrologia e outros ramos do que os eruditos modernos gostavam de chamar "pseudo-ciências".
Graças à tradução latina de 1471, o Corpus Hermeticum se tornou objeto de fascinação para os eruditos da Renascença, que concordavam que Hermes Trismegisto havia sido, senão um deus, ao menos um sábio semi-divino que havia vivido na alta Antiguidade e que havia pessoalmente composto, em egípcio, os diversos tratados que circulavam em grego, latim ou árabe, sob seu nome ou em relação com ele. Um dos marcos da ruptura entre o ocultismo da Renascença e o racionalismo científico da nova era foi justamente que a datação destes textos passasse a situá-los no século I d.C. Hermes veria sua reputação diminuir pouco a pouco até se cair na obscuridade por três séculos até 1904, quando se inicia um debate apaixonado sobre suas origens, influências e contexto geral.
Em 1945, a descoberta de uma biblioteca de textos gnósticos em língua copta nas proximidades de Nag Hammadi...
A história social é indispensável se queremos situar as ideias no húmus da realidade cotidiana onde elas surgem seja como expressão de uma experiência seja como sedimentação de uma tradição. A verdade, para os hermetistas, não era o tema para pesquisas eruditas que poderia ser objeto de uma discussão nas páginas de um tratado filosófico, mas uma visão e uma força desempenhando um papel determinante nas suas vidas pessoas. Não podemos nos reduzir a enumerar as dívidas intelectuais dessas relações.
Chegou enfim o tempo de responder à ruptura com o ocultismo e nos perguntarmos quem eram os homens e mulheres dissimulados sob o nome de Hermes Trismegisto, e como sua busca por Deus se articulava com sua experiência cotidiana.
O hermetismo não era senão uma dentre várias correntes de pensamento não elitistas provindas da filosofia grega
isso é questão pros deuses

estou mais interessado
em magia
nos mitos antigos, nas histórias de imaginar

se vierem
posso acabar lutando
sou um irresponsável
me lancei a uma causa de alegria

estão com medo de serem vencidos
me dizendo herdeiro de vitoriosos
vitória do quê? desse mundo mesquinho que vocês idolatram?
como si estivéramos num banho de alegria
(mas estamos... quem não está é quem me fala isso
prefiro continuar vivendo a alegria
a esperança
a vida num mundo que vai dar certo
mesmo que demore mil anos

hoje só contam histórias de pessimismo
de que é o fim


post scriptum.
mas e a guerra contra a injustiça
a revolta pela alegria


QUEM É DESTRO AINDA PODE SER CANHOTO. Usar a mão esquerda é ótimo é brincar de criança é ficar o dia todo sendo bonzinho com a mão mais nova. Ajuda no equilíbrio nervoso, e até na postura. Você se acalma, se distrai. Fica mais presente no gesto e consciente do espelho e da simetria.

Somos caranguejos, uma mão imensa deformando o corpo inteiro, uma metade gulosa e a outra morta, fria, inconsciente. Armadilha de polarizar o terra-céu no meridiano dos braços. Desde a língua caminhar da esquerda para a direita às roscas de garrafa abrirem no sentido anti-horário, tudo conspira para a maestria dos destros.

Não à ambidestria, sonho de eliminar o canhoto. Quero é frequentar a humilhação de ser uma mão mais fraca. E se com dificuldade ainda assim abro a garrafa, me ensabôo, corto a cenoura, clico o mouse, deixo a nu o vazio do império destro: em toda sua pompa e delicadeza, sua facilidade e rapidez, o direito me ausenta do corpo. A mão esquerda me traz à terra, e melhor, me revela o terra-céu de ambas. 

Este ir e vir da referência entre os lados me alinha ao eixo terceiro, atravesso a encruzilhada de dois passeios: Libra, a balança, a regra da igualdade entre as mãos. Toda canhoto experimenta um pouco disto em nosso mundo direito. Libra, os dois pratos que são as garras do Escorpião: do eixo celeste das mãos ao ferrão envenenado.

Ar

O sonho é uma realidade paralela... é o verso verdadeiro dos lugares. É onde descobrimos coisas, contato com deuses...

O prédio tem seu duplo no sonho, que se impõe a todos. O terraço do meu prédio, aquele chão sobre a nossa morada ao céu livre, nosso aulé - a origem da palavra aula, o terreno aberto ao céu - o aulé das nossas casas empilhadas. Esse aulé tem um duplo no sonho, ao qual voltamos em várias noites e que ressoa nas nossas raras idas àli.

Acordei e havia estado num lugar que já visitara noutras noites. Lugar poderoso, do elemento ar. E este sonho foi regido pelo elemento ar, que rege em mim toda uma cadeia de faces. Não querer ficar em lugar fechado. Amar o aberto. Ventiladores maravilhosos.

Podia voar, e o vôo é sempre difícil, às vezes subo, às vezes mal saio alguns palmos do chão ou só nado na atmosfera, preciso estar com uma confiança precisa no ar, na leveza. Estar regido pelo elemento.

Mas nesse sonho subi até o topo levando amigos subi reto, sem vento, só correntes de gravidade. Correnteza de gravidade. Pegar o elevador com meu amigo gui e dentro dele voar reto para cima, os andares passando aos milhares até de repente inclinar o percurso, e o cubículo do elevador se expandir em uma esfera. Levei o gui lá em cima, arrebentando os tetos até esse terraço imenso, o topo do prédio com vários níveis de terraço. Enormes construções de concreto que se erguem depois das nuvens em arquiteturas gigantescas, e voar ali no meio (voar é tão perigoso,é algo com a respiração, o frio do umbigo).

Acordei saudoso da realidade, da boa nova. Lembro já ter visitado essas arquiteturas sobre o prédio, imensas e desertas, cidade de deuses... enormes galpões da cobertura, vazios enormes gigantescos subindo até o topo do céu e a terra apequenando e ficando um globo lá embaixo e o céu de repente se dobra em abóbada ao nosso redor cheia de furos redondos, colcha furada do fim do universo onírico, e entrar num furo seria sair para outro real - no planeta do sonho universal não existe espaço sideral, é algo mais primevo, elementar, há o céu e fim.

Escolhemos descer dali do mais alto topo e vamos por um efeito de lentes saindo por dentro das cenas do topo da hierarquia dos poderosos / numa festa dos muito ricos o primeiro-ministro cheirando pó. De dentro do elevador esfera, tamos entediados  lançando bolinhas de tênis dentro de trilhões de espelhos que caem na câmara presidencial ora toda esburacada por estes portais, nós zombando deles e a côrte dos dominadores em reunião de emergência, desarmada.

Descendo do topo do céu além-prédio, descobrir um palácio redondo de muitas portas, as sacadas dos andares voltadas para dentro para esse vão cilíndrico que elas contornam em espiral: mesmo palácio que os reis, luís XIV e tal, visitavam em seus sonhos há tanto tempo; ora esquecido, abandonado. As portas dão em galerias de bichos, de insetos, ou estão vazias, abertas... e em alguma delas estão guardados os antigos pactos antigos acessos simbólicos ao elementalismo do mundo (os deuses são a superfície dos elementos acionados em chaves com os livros do mundo).

E nesse lugar do sonho universal, o palácio das portas esquecido, os reis foram e fizeram pactos profundos que ora operam perdidos, alianças, anéis pulsando dentro de certos quartos no verso noturno do mundo. E num repente vejo aquele amigo taroísta apontando o Stromboli elétrico-demoníaco em que se colam caracóis, conchas, os fluxos de energia magnética (e vejo as dobras rosadas de sua pele de porco).

Falta forjar o anel profundo que está rompido, fundir um pacto muito profundo nas entranhas do solo do inconsciente universal e trazer à superfície da consciência o anel, a ligação evidente, a união entre noite e dia. Esta operação profunda, elemental na fusão da união que está rota, li no mago de terramar há 17 anos, sou eu.

Gosto bom de enfrentar o leviatã pelo símbolo: e o sonho não é real? se luto nele a grande batalha da primavera e volto purificado e certo nas energias, trago comigo efeitos reais da jornada onírica para o dia.

Poderosa visita à pirâmide incal branco onde vivo.

Gallo-romanos

Sou Luís XIV adentrando os pórticos imensos e cobertos de estátuas de pobres segurando estátuas de santos e anjos segurando estátuas de cenas bíblicas, caminho sobre o tapete vermelho para minha coroação pelos bispos e cardeais e papas do divino feudal nestas galerias altíssimas. A catedral é oca e ressoa os passos, nossa voz é reduzida aos murmúrios e somos tão pequenos, apequenados nesta dimensão comprida, nessas câmaras acústicas e ar límpido e parado.

E quando vai dar as seis da tarde ouço um lamento, um canto piedoso que preenche o vazio inteiro daquela catedral de reis. E seguindo essa voz, encontro um punhado de fiéis ajoelhados ante a estátua da mulher com a criança, da jovem mãe, e é um senhor ajoelhado, uma pessoa comum, que canta com voz grave e ecoa por toda a igreja. É a fé, e ali aquele lugar é humano e sagrado.

Todos que moram por perto respondem às nossas perguntas dizendo: essa catedral, não é a verdadeira, é uma reconstrução e a cidade é inteira falsa, foi morta e é apenas uma reprodução. O rancor vivo, mas essas pessoas, esses velhos repetem um trauma que não viram, todos nasceram após o cataclisma ancestral. Só conheceram a majestosa reprodução, nunca viram o fogo ou as bombas dos seus avós. Mas por toda parte, há túmulos, marcos, e o mapa diz simplesmente: monumentos aos mortos. Em cada pequeno vilarejo, comuna, pequena vila de casas camponesas - desses camponeses ricos que fazem vinho e queijo e champanhe finíssimo há dezenas de gerações, artesãos do luxo da côrte e da aristocracia - perto de cada igreja ou mesmo nas casas onde viveram as pessoas há placas registrando, algo que faz 70 anos: fuzilamentos e bombardeios e assassinatos e perseguições dos seus antepassados. Patriotas - fuzilados por estrangeiros - são os personagens destes marcos onipresentes, rodeados de rosas e bandeiras.

Eu lia um livro mórbido, da estátua rocha imortal, da necrópole que jaz nas entranhas da metrópole: e um conto das catacumbas e ossuários dos pobres, removidos de cemitérios em grandes obras e empilhados em prateleiras e prateleiras nas galerias subterrâneas sob a Paris de monumentos; a cidade morta-viva, edifícios da memória petrificada, colunas e pedra e pedra e pedra lapidada pelos pobres sem nome e erigida em ídolos eternos. E seu fascínio pelo Egito, Napoleão saqueando faraós daquelas civilizações milenares dedicadas à construção de túmulos, povos inteiros escravizados no deserto ácido para erguer as maiores homenagens à morte que já se viu. E o conto do cemitério de criptas e mausoléus nalguma cidade egípcia que foi reinvadido por pobres e favelizado, os nomes dos mortos riscados e substituídos pelos vivos que agora ali moram, e a polícia adentrando a necrópole para correr sangue por cima das lápides esquecidas. Cidade morta-viva petrificada na sua realeza inumana.

E nas beiradas da cidade vemos surgirem edifícios mil mais altos que a catedral ou o arranha-céu dos bancos: monumentais contêineres, majestosos galpões em série, um atrás do outro iguais: caixas quadradas altíssimas sem nenhuma pista do que contêm; às vezes um cilindro imenso, uma torre cilíndrica ou cinco torres cilíndricas e um tubo colossal dando em mais galpões. Festa da geometria pura, da forma sem conteúdo, metálica, paredes finas e vazias, concreto até o céu ao lado de montes de areia derramada, dunas de brita, de grãos ou algo minúsculo a granel, matéria amorfa; ao lado de pilhas infinitas de grossos canos de concreto, de material de construção e o vazio, ninguém habitando, imensos castelos de formas vazias.

Seguir e de repente cruzar com outro daqueles campings, parkings, não sei que nome dão, longo gramado coberto de trailers e trailers e trailers brancos todos brancos ou cinzas, trailers brancos e toldos cinzas e carros brancos e caminhonetes cinzas a perder de vista, cenário impressionante do quê? duma favela nômade? mas não são ciganos, são pequeno-burgueses sem grana para a terra cara para as construções aristocratas de pedra lapidada para os monumentos à arquitetura dos reis. É isso o camping deles, imenso estacionamento de carros e os carros ocupam a cidade inteira, tantos tantos carros bonitos novos de última geração por toda parte. E os prédios baixos e a população pouca e as ruas largas dos aristocratas e por isso os carros em enxame povoam cada quadrado aberto e são enxames de metal agressivo. A população de carros e carros e carros, e eu tenho sonhos dos carros guinchados copulando e procriando e tomando as ruas em um fluxo sem objetivo que não circular o aço polido e a fumaça. Por quê não têm os carros uns bancos de praça em seus capôs? e aí teríamos bancos por toda parte e a cidade seria alegre, e não um estacionamento gigante. Só vi barracas de acampamento foi sob os viadutos, os sem-teto e sem-carro e sem-barco vivendo acampados sob a ponte.

Eu fiquei tão triste de descobrir que eles vivem sob ditadura, que o meu rancor colonizado não tinha tanto alvo, que é uma mentira que eles se contam, de que são reis, a côrte linda do rei sol aristocrata em seu gosto pelas altas artes. E se as colunas imperiais dão abrigo a mais uma agência de seguros e sob os arcos centenários há a moda americana e as butiques padronizadas iguais às da minha terra natal, nada exibiu tanto o contraste do que ver num restaurante metido uma tela passando jogo de futebol emoldurada por um arabesco de ouro ricamente trabalhado, a fôrma da aristocracia para mais consumo padrão, em série, de um mesmo sistema que atravessa todo o globo.

anarquia, rascunho

Ditos "liberais" que passam a debochar da planificação e dos desejos cegos de controle que os "socialistas" exibem, fechando os olhos para a natureza internamente planificada de toda firma. A firma contrata trabalhadores e deixa-os submetidas a salários, remunerações padronizadas, enquanto os detentoras de seu capital se expõem à sorte ou ao azar do mercado. << Seria um modo de produção autogestionário se todas os trabalhadoras. ..


>> 1.  eu produzo
2. eu  compro de gente que vende; sem saber como produzem
2b.(eu produzo e vendo)
3. pago alguem pra produzir (e vendo)

>>qdo  alguém aceita ser contratado e deixar outrem vender, se diz q é uma relacao capitalista: há uma separacao da cabeça (que vende) das maos

"A relação não planificada é a relação de comprar um produto no mercado: aceitar pagar um preço sem se preocupar nem se arriscar. Se o preço ou o risco é alto demais, faço estoque, tento produzir, me aliar a outros para formarmos uma sociedade de produção, enfim, domesticar, internalizar na firma a atividade externa. Contratar trabalho assalariado para produzir para outrem é uma relação de direção e não de livre venda do que se produz quando, para produzir, se requer o capital para dar forma à mão de obra bruta, desprovida do acesso à produção de valor."

Uma empresa capitalista surge quando a mão de obra bruta pode ser submetida à mão de obra detentora de capital (diretores) para produzir valor sem que possa por si mesma acessar o capital e produzir o valor em outra relação hierárquica. << Por exemplo autogestionária, e daí a falta de uma tradição administrativa de autogestão, tecnologias sociais, pensamento político sobre a organização de formas detentoras de capital que promovam a sua dissolução.
<< a Empresa capitalista tem incentivos a promover a reiteração da sua formação capitalista

O anarcoliberalismo é contra o colamento entre planificação e desigualdade de acesso a capital, onde apenas o capital planeja e todo planejamento se torna capitalista. Deve haver a dissolução do capital (desigualdade) por haver planejamento distribuído. Uma instância centralizada de planejamento deteria poder privativo sobre as outros e não seria uma relação anárquica e por isso deveria caminhar no sentido de sua dissolução. 
>> O anarcoliberalismo institui que todo capital deve ser orientado para sua dissolução, para que haja abundância e acesso livre à escassez que ele (capital) representa.

A ação direta do anarcoliberalismo é atacar o capitalismo incentivando os trabalhadoras que se sentem submetidos ao poder de mercado dos capitalistas a assumirem o controle da atividade produtiva de formas que integrem(...)

A mão de obra é sempre bom externalizar, pois os trabalhadoras, desprovidos de todos os poderes de mercado, podem ter seu preço depreciado: quereriam eles internalizar esse seu comprador de serviços, mas não conseguem, submetidos que estão à falta de capital: falta de acesso à criação de estruturas sociais de domínio do mercado: sindicatos, sociedades de controle de preço, internalização, planificação social, domínio de mercado.
(ou estes só surgem nos lugares ruins? pode haver ultrainchaço dos sindicatos? (a resposta iugoslava: que há capitalismo de sindicatos, não estatal)

Pela anarquia como princípio! Anarquistas são as pessoas que seguem tal princípio, não simplesmente as que se declaram anarquistas. Por isso contra anarcoliberais sem crítica do capitalismo a ponto de aceitar também o nome anarcocapitalistas. Respeitando o capital, acabam traindo seu liberalismo econômico aceitando o direito autoral, a patente, e, no limite, a sustentar a propriedade coerciva como estado econômico ideal,
- e não a anarcoiniciativa do roubo e da produção livres. Uma economia da dádiva onde se dá de graça tudo em abundância e por isso se ganha tudo gratuitamente: uma anarquia liberal. Anarquia como vitória sem coerção, sem figura coercitiva remanescente.

Uma estratégia de luta: materialismo da anarquia. Em cada questão, atentar primeira e sobretudo à situação material de coerções atuantes e se orientar pelo movimento de dissolução igualitária do poder (anarquia). O poder remanescente, o centralismo do movimento, como um foco em revezamento, onde há uma pulverização de centramentos que mutuamente cancelam seus desníveis formando apenas um relevo, uma textura de fluxos de poder e produção se harmonizando.

"Daí terceirizarem, tornar franquias as partes subalternas das lojas, não se arriscar junto mas ao contrário, extrair o máximo sem se expôr ao risco e garantir os pagamentos e a submissão às greves e aos sindicatos (que no limite parecem poder ser ditatoriais também,
- lembrar na iugoslávia, comunistas não alinhados aos soviéticos, fruto de uma guerrilha bandoleira que resistia aos alemães e tomou o poder, instituía um estatismo de funcionalismo público pesado, assalariados absorvendo os lucros"



Na mesquita

Ao sair da mesquita, daremos a volta no quarteirão para voltar ao mesmo edifício, agora pelo lado profano do café. E eu desabarei na cadeirinha de ferro trabalhado, sem olhos ou pensamento. Um cansaço imenso me afligirá. Não ter o caminho. Porque lá dentro, a beleza fulgurante da verdade revelada. O uno. Neste mundo de sombras e correrias, horários organizados, plástico, papel de embrulho, ruídos e defeitos, soluços. Encontrar a paz silenciosa. Entrar na mesquita como num banho de silêncio. A alma em paz. Caminhar sobre ladrilhos finamente pintados em grandes mosaicos maravilhosos que sobem as paredes até culminar em abóbadas fantásticas. Roçar as roupas pelas colunas esculpidas nos detalhes mais sutis, e perder os olhos descobrindo a cada vez mais uma peça perfeita talhada na pedra com a precisão de mãos infinitamente mergulhadas neste gesto. O gesto de desenhar a palavra Allah de novo e de novo, em cada palmo visível da construção, em cada canto do espaço. Allah. A luz que desce do céu límpido sobre o deserto branco. As letras em traços fluidos na caligrafia das espadas e dos tecidos. Caligrafia de mil anos, para a qual nossa tipografia quadrada é brincadeira de crianças. Entrar na mesquita como um bárbaro bruto de uma civilização perdida em mentiras. Tirar os sapatos e adentrar o recinto das preces. Executar as muitas orações secretas. Partilhar do silêncio mútuo entre desconhecidos na louvação ao deus maior. Ao caminho puro, claro. O que eu não esperei é que fosse tão lindo. E o fardo depois me afogará ao tomar o chá de menta para os estrangeiros brutos. O peso imenso de não ter a verdade revelada, de seguir errando pela falta de rumo da civilização empoeirada, de carros bebidas e tanta violência. A mesquita convida, está viva, viva num convite que o catolicismo decadente nunca pôde me dar. Então sair de lá será um abismo, o olhar no abismo e a vertigem imensa. A contemplação da forma bela da unidade de deus puro em um desenho belíssimo. E o vento que nos arrasta sem cessar pelo mundo que se desmancha, que nos tropeça e esbarra e nos faz pender inclinados; este vento cessado. Ali finalmente erguido reto, o silêncio da alma e o ar imóvel. E a voz dele chamando para a prece do pôr-do-sol, o canto gemido dos árabes, quando me apoiei numa coluna e senti o coração fraco. O abismo de olhar a mesma palavra mil vezes repetida, o mesmo gesto mil vezes executado, com a perfeição absoluta, com a paz que tanto procuramos. A verdade revelada pelo deus uno. E quando antes eu passara em frente à sinagoga e vira soldados com fuzis prontos para reagir aos terroristas da Jihad que ali vêm se matar, eu lembrei que a guerra santa tem em si o conforto da única verdade. O abismo do colamento entre o divino e o revelado, o que já está, o que é. Não é uma verdade passada, posto que é aqui, é a contemplação da palavra bela. Allah. E após ver esta nudez da alma esvaziada ante o uno perfeito, vestir a alma guerreira da invenção dia após dia da divindade entre nós parecerá um fardo insuportável. No pátio das preces, bastará voltar ali, ajoelhar-me que a fé virá, e eu sentirei a comunhão muda com Allah, a verdade una, que ultrapassará todas estas palavras. Eu posso ser um deles, neste momento, eu posso estar em Allah. Um homem devoto. À verdade una, à divindade que simplesmente é, não se cria, que a criação é o uno, não o dois, o múltiplo. Que o mundo está feito, não por fazer. E o mundo das sombras é o erro. Eu vivo no erro. No plural borbulhante. E por isso tomo tanto cuidado com esse abismo de cessar as muitas faces da criação. Quero a luz criada que saiu de dentro de cada um. As verdades que despertaram de nosso seio e alimentaram o mundo. Não é uma recusa una. Não afirmo um Allah de muitas roupas que derrotará a palavra una do silêncio. Mas eu descobri o um a partir do dois, se havia luz e trevas, houve a certeza do caminhar dos cegos que transcendeu os pólos num caminho terceiro, que é o um reencontrado. A unidade a partir do caos, e não antes dele. O divino encontrado através do dois. É esse o caminho do rio que atravessa a cidade profana e ajuda as almas a se afinarem entre si, buscando a harmonia das suas orações. E visto daí, é muito claro que na mesquita única o dois dos sexos seja negado, profano, e deva ser coberto de véus. Petrificado em uma unidade rígida para cada um. Petrificado. O divino, petrificado. E ao sair de lá, não quero erguer uma cidade de pedras. Há pedras demais, não é uma pedra maior que faz falta. Falta a verdade fluida do rio. Da unidade a partir do caos. A ordem cósmica que emergirá do caos profano, que será sua alma pelo caos afirmada. Caosmos. Gaia projetando o céu como seu espírito, e não o vazio transcendente vestindo roupas de carne impura. Mas senti falta dos cantos.

Notas do corpo móvel

Precisava aprender a viver encaixotado. No mínimo, a dormir encaixotado e acordar revigorado. Tornar-me um monge em tal harmonia com o corpo que pudesse redescobrir em mim o feto. Volta a um útero quadrado, por vezes torto, desigual, mas eu transcenderia os desajustes adaptando meu formato. Bastariam algumas respirações para abandonar meu eixo e entregar-me ao novo desenho do humano: com encaixes retos, assimétricos, inspirados na elegância das gavetas, das pernas das cadeiras, e na lisura (utopia) das rodas.

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A viagem de trem é um tanto rápida demais. Até certa velocidade sinto-me correndo, passando por paisagens velozes; mas a esta aceleração onde as margens do trilho são pouco mais do que um borrão, sinto-me num canal recortado do espaço, e o vidro da janela se aproxima a vídeo ilusório, a um reflexo de espelho (eu não poderia abri-lo como janela sem receber na cara um turbilhão violento e praguejar, cego e ensurdecido pelo ruído). Como no carro poderoso o automóvel dos sonhos no asfalto liso a cento e quarenta números da autoestrada do futuro que anula a distância e estamos viajando no vazio apenas os insetos de repente explodem no vidro e não adianta pára-brisas ou chuveirinhos que eles precisam ser esfregados com força para fora da transparência nua do maravilhoso mundo da razão instrumental.

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Escolha andar sem a sola grossa do sapato nivelando teus dedos, o arco do peito do pé na trilha de terra e grama sem lisura de asfalto e pedra polida feitos para as rodas que você não tem.
Ah, o Laranjinha. Onde nos reunimos em assembleia, sim! Lugar do encontro, das muitas mesas de conversa:

- lembra aquele dia que a gente jogou um jogo e decidia quem era punido com base no fórum romano?
ah, o fórum romano, não há maneira mais justa
se você escavar aqui no laranjinha, vai encontrar as colunas!
Ninguém sabe realmente onde começou o Império Romano. Há ruínas imensas aqui debaixo.
LUISA - Na verdade deve haver esgoto.
- Ah Luísa você não entende...
deve ter mármore, e pra construir as igrejas eles pegavam mármore
- tem um palacio antigo pra caralho cheio de marmore
- porra bora pegar
é isso, o laranjinha devia ser feito de mármore! onde tem mármore?
bora pegar partes da cidade que a gente gosta e trazer pra cá
po a praca quinze é foda, bora trazer ela pra ca
a gente faz as barcas chegarem aqui
pelos canais! elas entram pelos canais de mangue
menos ruas, mais rios! sempre acreditei no transporte fluvial
bora desaterrar o flamengo (po mas o aterro é legal) não não, bora montar o morro do castelo de novo
dois irmãos, pra quê dois? tanta gente passando fome
morros imensos todos iguais e nada pra saúde!!
- não, bora desmanchar todos os morros ate onde der pra entrar no mar,
- votem em mim, no meu governo
- vamos construir um aquário! de que servem estes prédios
- menos aquários, mais sagitários!
bora demolir tudo e fazer um corcovado imenso
ah se o cristo atrai turistas assim se ele for mais alto vai atrair bem mais!!!
hahaha aí juntam esforços pra empilhar tudo que se tem ao redor do morro
- porra mas do jeito que a gente é vai ser uma montanha toda troncha e mal-feita
alguém vai cagar regra de que montanha normal é do passado, fazer uma montanha contemporanea
e na real é tudo de lixo, gramacho foi prali
- voces viram que na china construíram uma montanha de cimento e pintaram de verde??
- porra montanha não é verde, é roxa!!!

a gravidez (o som grave que nos enchia a alma e que podemos acessar ao ouvir um grande fluxo d'água - abra inteira a torneira do tanque e ouça o tom)
cesariana de césar, o corte do patriarcado
trazer um obstetra, uma mão externa (estátua viva) para realizar o corte na alma
em vez de se deixar rasgar a si no parto natural, entregar-se à dor salutar
saber romper-se da criança, não ver aquilo como a maior dor do mundo, o fim

pela oralidade comum
o escriptor é o pai do texto
o semeador raro, fim do comunismo da boca
da abundância sonora
cornucópia da pletora

pela vizinhança, pelos vizinhos
vizires árabes

druidas





os bancos ganham tanto
o papel dinheiro está sumindo, já não é mais o principal de nossas trocas
(mas foi um dia? creio nestes paladinos contra a inflação, contra os aumentos de preços. o pacto econômico saudável é no bom número, idealismo de um pacto numérico)

todo dinheiro é uma aposta. você deposita 100 reais num banco. enquanto você não saca, enquanto você não passa o cartão - você continua o poder de compra, mas o banco faz uma aposta. ele empresta os seus 100 reais, e na verdade faz isso numa escala imensa, com médias do que foi depositado que ele empresta para ganhar os juros e poder tirar seus lucros. isso se chama alavancar, o banco aposta muito em ter encontrado essa brecha no tempo em que as pessoas não vão gastar e as que vão pagar os empréstimos. a quantidade de dinheiro real, de moeda, é sempre apenas um eixo ao redor do qual se multiplicam essas apostas, esses papéis.
o próprio dinheiro, que diz ele? é um crédito.
ouro ainda é importante. por que ouro? por que ainda ouro? olha, entenda que simplesmente essa trajetória do ouro - nós chegamos no século XIX com muito do sistema alinhado ao redor de ouro. de ter cofres imensos de ouro. muito das apostas, do edifício de papéis emitidos.
e o ouro por quê? junto à prata, claro (nas franças argent, nas espanhas plata) é uma referência metálica rara, um sistema de medidas. quantidades mensuráveis de minério, fácilmente verificáveis por qualquer pessoa em transação (medir o pêso, e se não estão misturados, se guarda o brasão muito pouco falsificável que atesta a composição...). um sistema de medidas que por mais que cada um queria roubar no sistema, não consegue, e por isso instrumentaliza uma coordenação de esforços imensa - o comércio, a feira.
não só o ouro. o petróleo. a maquinaria. sal na roma, salário, nunca entendi por quê o sal seria tão raro. os grãos de café, que por alguma razão dos papéis, nós queimamos.
foi padrão ouro rígido até a primeira guerra, os estados unidos continuou até os anos 70, e ainda tem uma importância. é a âncora histórica que situa a coordenação, a convergência de apostas, um oceano de papéis.

e é crédito, isto é
eu implicitamente devo para quem tem ouro
é uma dívida que aceito
porque planejo pagar dívidas com ele...

O quarto

Adoro fazer bagunça no quarto. Sou praticamente um especialista. No momento em que escrevo, o chão do quarto está nu sem o colchão que me serve de cama, e a pequena varandinha se encontra atulhada de almofadas, duas cadeiras, um banquinho que achei na rua, cacarecos. "Atulhada" - eu acho que esse adjetivo cabe bem no meu quarto. Tenho uma tara por acumular coisas, bonequinhos, enfeites, pedaços de móveis, não sei definir. E livros, muitos livros. E papéis, pilhas de papéis. E cadernos. Sempre quero trazer as pessoas no meu quarto para ver sua reação, se está inóspito, ou se o caos está acolhedor. Vejo logo se espraiarem na cama, e o meu quarto tem essa permanente promiscuidade entre o largado no chão e o íntimo.

Duas leis de sanitarismo (sanidade). Roupas, ou junto ao armário ou, sujas, fora. E lixo na lixeira; comida nem fica aqui. O resto é sem regra mesmo.

Quando eu era pequeno eu tinha tantos tantos bonecos que chamava meu amigo Rafa e montávamos a Legolândia, com as casas, os laboratórios científicos, as selvas. Lembro de fazer censo na população de cento e tantos bonequinhos, e classificar as cabeças que mais gostava, os troncos, os chapéus/capacetes, antes de montar meu personagem-eu. Minha mãe tentava criar rotas pelo quarto, pequenas áreas que eu não ocupasse com as pecinhas para que ela pudesse passar. Mas sem sucesso. Ela também não podia criticar, pois no natal fazíamos presépios imensos por toda a sala, com montanhas de cartolina e lagos de espelho, que são até hoje minha referência. A cozinheira Elcy que me criou diz que desde então não mudei nadinha, chamando amigos para montar cenários pela sala.

De lá pra cá, só começo a lembrar das bagunças uns cinco anos atrás. Cobrir uma parede de cartolinas e fazer pinturas, e dormir com o cheiro da tinta. Tem manchas no rodapé até hoje, mas eu não aguentei o cheiro. Aí encasquetei com fazer o ventilador gerar desenhos ao deixar uma caneta pendurada sob o seu vento, por horas. Isso durou alguns meses, eu entrava de noite e dois ventiladores zumbiam com o vento riscando os papéis e eu ia afobado ver os resultados. O resto do quarto não importava, eram amontoados e som do risca-risca a noite inteira.

Vem daí um prenúncio próximo do meu carinho tanto por certas maquininhas bem mecânicas quanto pelo imprevisível vento e seus sussurros. A janela foi reformada para virar um janelão aberto, e na pequena varandinha, um futom para dormir. E dormir lá fora, voltado para o nascer do sol, minha pequena praia de todas as manhãs. Fui ficando bronzeado só de dormir, e acordar do calor às 8 para ligar o ventilador e me sentir na praia dormindo nu, no sol. Os vizinhos, lá embaixo (moro no 11° andar, em frente a várias vilas), se olhassem para cima veriam um distante atentado ao pudor. Daí no verão o vento fluindo e as muitas duchas frias na minha pequena guerra à cultura do ar condicionado apartado do clima e do mundo.

Dormindo nessa varanda com a porta fechada, com o céu atrás duma rede pra proteger nossa gatinha Amélia, ao lado duma gaiola de passarinho linda que achei um dia e guardei, mais um edredom que solta penas de ganso, e uns barbantes que estiquei pelo teto, onde prendi uma roldana com um gavião que podia nela correr - a ideia do pássaro engaiolado (Todos esses que aí estão /
Atravancando meu caminho...) de asas dobradas, sem espaço, marca bem que ainda moro na casa dos pais.

Em vez de sair, fui adensando minha ocupação. Do lado de dentro, o quarto virou metade uma oficina, uma estante inteira de papéis e materiais para montar dozenas de projetos de textos e revistas, uma coleção de revistas nossas e alheias (livros livros livros) ferramentas, uma impressora espaçosa... Essa oficina que deve ganhar autonomia, que foi encubada aqui por 2 anos e que agora vai ganhar uma filha maior, e comum a todos. Talvez ela saindo, eu possa sair também. Minha impressorinha... o ôlho do ninho, a boca de abundância que jorra do meu quarto, eu me acostumei a dormir ao lado desse seu formigueiro.

Deixei de me recriminar, e assumi minha bagunça, em tantas e tantas tardes e noites que embirutei de mudar toda a ordem de tudo. Uma vez cheguei a pôr a mesa na diagonal, e a cama por debaixo dela, a cadeira pisando em cima. A regra é experimentar. E impedir que surjam, o que meu pai chama de pandemônios: núcleos duros de bagunça intratável, amontoados ou gavetas entulhadas de tanta coisa inclassificável que se torna apenas ruído, ruído sólido tomando o espaço com sua presença. É o espaço morto, negativado e contagioso. Como positivar o ambiente inteiro, articulado, desenvolto?

Daí a me apaixonar num texto antigo, "O Econômico" que é um tratado antigo sobre a arrumação (nomia) da casa (óikos) ou do navio. Saber o quanto cada coisa se faz usada para saber sedimentá-las sem que se embolem em menos de uma semana. As roupas e o lixo são o fluxo mais simples. Mas e o corpo, o habitante do quarto? E os copos d'água que surgem sem razão, os papéis anotados, as meias largadas que encontro, sem explicação? É esse o maior desafio da bagunça do quarto.

Os três porquinhos

Era uma vez três porquinhos. Três suínos rosas, de bunda rechonchuda e rabo de mola, uma tomada no focinho, três irmãozinhos na fina flor da idade, saindo do chiqueiro de dona Porca e querendo cada um montar para si um lar.

O primeiro porquinho desde pequeno assistia muita televisão, comia doritos, fandangos, chiclete, coca-cola, mas isso não tem nada a ver com a história. Foco, isso aqui é um estudo arquitetônico! Esse porquinho era meio mala, caxias, puxa-saco, como que a gente pode sacanear bastante esse porquinho? Ele mui espertamente pegou um crédito na Caixa Econômica, antigo BNH, em novecentas trilhões de parcelas para passar o resto de toda sua porcaria pagando, mas não se abalem! Porque com isso comprou tijolo, madeira de lei, móveis arrojados, pregos, corda de varal, em suma, tudo que porquinho precisa pra se imortalizar. Esse porquinho era arquiteto, fã de arranha-céu e de babel. Fez uma planta magnífica, com fossos e torres com jacarés, observatório astronômico, boate e cinema privê. Agora era só botar a mão na massa... Como? Ora, basta contratar a firma de construção Lupus Lupus S.A. e fazer vista grossa às condições de trabalho, aos porquinhos favelados tomando porrada em barracos de pau.......

O segundo porquinho acordou com uma sede de sangue ferrenha. Esse tinha brincado desde pequeno com arminhas de brinquedo, bodoque, arapuca pra passarinhão, fazia maldade com as suínas e jogava comida fora. Olha aquela mata virgem verdejando ali por todo o país, olha! Ah, o progresso. Madeira de lei pro irmão rico, quanto mais alta a árvore mais bonito o tombo. E ele levantou pirogas e casamatas, castelos verdadeiros, abriu a Mata a Mata Inc. e cortou tudo quanto é folhinha no seu pasto. Gado, destruição, esse é o nosso porquinho do desmatamento. Que família. Passar tacando fogo nas ocas dos porquinhos selvagens, e cantando vitória do lobo mau, quem tem medo, quem tem medo, quem tem medo do lobo mau...

O terceiro é a síntese final, o porquinho que virá. Revoltado com os irmãos e seus imensos totens da devoração feitos de minério arrancado e derrubamento de floresta, ele recusou os símbolos de plástico e foi viver com os restos da civilização material. Foi além das empreiteiras, do asfalto e do crédito consignado. Aprofundou no ôlho do mato. Vestido de cabelos de árvore, um porco de guerrilha. Trilhar o caminho do guerreiro contra a paz de destruição velada. Não é o porco da vitória falsa que ergue torres com trabalho escravo. É o porco que germina deuses do além-máquina, o animismo reencontrado como chave da retirada dos véus. Inda está no embrião, e muito lobo inda reinará em falsos tronos. Mas deixe estar. No passar dos séculos é ele quem desenha pouco a pouco os contornos do lobo, para despertar a cegueira dos seus irmãos.

O Rei está nu!


Tenho estado muito maluco. Procuro brechas para falar do Rei Sol que foi decapitado, a cabeça real guilhotinada junto ao capeta o capitão a capital cortada fora num corpo agora massa acéfala : capitalismo
A aLiança eLo Laço (...capitaLIs..) de uma correnteza metálica, os anéis de minério fundido pactuados de mão em mão desde a aurora da idade dos metais, as correias de aço trançadas entre tudo e que pesam como camisas-de-fôrça, grades de correntes (somos Jonas engolido pela baleia de aço, pequenos lobos encolhidos na barriga do Leviatã da Idade do Ferro)

O Rei está nu! o real corpo da razão que rege os raios, arraial da Luz da correção às lâminas. Cortado, decepado. Corte dessa nudez, decapitação do pescoço. Agora o Sol dos raios sai a viver proibido, longe da carne corpo, e entre os ombros temos apenas as razões raízes do vazamento. O corpo enxertado na abundância da terra, mas pelo pacto capital, anêmico, exangüe. O rei está nu e decapitado, régio corpo vazando um cano de sangue. Na boca do nosso Leviatã marinho.
Não queremos cortar cabeças, queremos reenraizar cabeças cortadas. A cabeça, decapitação dos olhos luz das músicas e da língua. Resta a cabeça repetida, cópia decapitada, e o corpo lobo quer morder o próprio rabo, preso no espelho-espelho da língua luz. 
O texto (textura da teia, tessitura de fala) é um alinhamento de códigos repetidos que forma a senha correta para abrir o cadeado das letras. Estamos num banho de palavra vazia, repetida, que não abre chaves, só ecoa acústica em suas vibrações, reflexos e sombras que nos ocultam o mundo. É o oceano onde nada a baleia mostro, lá fora de suas mandíbulas de guilhotina.
(toda fala é um jorro de luz de um objeto real sendo refletido e refletido e refletido até sair pela boca de um ser real, por isso não podemos nos perder nos espelhos)
Desejo do cobertor sobre o corpo, do engolimento: não ter a nudez, enxertar a cabeça num lençol de pêlos assexuados; vestir-se, estar já o corpo coberto pelas casas erguidas, por proibidos, barreiras e suas violações. A cabeça quer ir viver sem o corpo. 
Vemos os fantasmas dela viva sem ele, de corpos só corpos, cuja cabeça é negada, e as cabeças desincorporadas imperando sobre os corpos acéfalos. Capetalismo de capitães, de capitólos e capitais, da cabeça régia iluminada sem o corpo, e do corpo acéfalo vazando sangue pelo pescoço. 

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minha bandeira é esta: Éden e Regresso! Vamos recriar a nudez se aprofundando num paraíso anterior ao deus expulsor. 

Mergulhar nas partes baixas por inteiro, absorção do ventre no centauro inferior.
Outro dia andei pela rua nu, num evento permitido. Andava na rua tão vivo, presente, o corpo mais aguçado, a postura mais inteira; e colocar as roupas foi um fardo, pelo seu pêso e por onde puxam, nos moldam

Queria falar do corpo aranha, dos pés como pés de macaco que agarram as coisas e do umbigo têso centro dos quatro membros em arco. Um corpo só de carne músculo fibra feito um polvo com seus tentáculos e ventosas mas esticado por um esqueleto dos ramos de que as formigas são feitas, formiga dentro de polvo carnoso é a aranha, quatro membros mãos de macaco se cruzando num umbigo, músculos segurando o saco de vísceras roxas, o Umbigo-Boca e as teias (as mãos se conectam às coisas que enfiamos no buraco boca ou a canetas de teia preta no lençol). E a cabeça, dos olhos-brilhos, da língua, da música, que nós decapitamos
Vamos ao culto do Sol abundante e da Primavera, o céu generoso em fecundação com gaia através de Fauna e Flora, culto aos faunos sátiros e às ninfas da fertilidade
ebulição de vida em abundância de pólen para nascer mel, leite e mel jorrando do chão e borbulhando por toda parte: sopa da abundância, da geração espontânea
O rio de leite e mel por onde querem levantar represas geradoras de energia-luz (seus cortes, classes, côrtes decapitadas, nossos reis sem cabeça, é nesse mundo q vivemos. São reis decapitados que imperam)

da Lua

O sol me acorda me encosta a cara toda, quente, na minha pele e eu nem preciso abrir os olhos. Mas quando eu abro e lhe vejo todo amarelo, vejo também a lua branca, cada dia num lugar, lhe fazendo companhia. Olho para o céu, para a lua, e vejo nela uma praia, de areia branca. A areia lá brilha com o mesmo sol que na minha pele é quente. Se ela nasce com o sol já posto, no breu, adiantando um pouco a claridade do dia que virá, até na manhã eu vê-la, os dois no céu, ela espelho dele, cada dia mais perto - ela é minguante. Cada dia com o brilho menor, dormindo de manhã sob o dia recém-nascido, que ela anunciou na escuridão. Até atrasar tanto, nascer tão tarde, que nasce com ele, vira lua nova, sem reflexo de sol. Que na verdade está todo o seu espelho voltado a ele, e nada sobra para nós. A lua nova é preta, sumida escura junto do astro-rei, mas ainda é lenta em seu encalço, e no dia seguinte atrasa um cadinho suficiente para despontar, sorrisalegre, a curva branca em seu rosto redondo. Crescente réstia do brilho do dia que se põe, e que ela segue, indo dormir agora já no breu, cada vez maior e mais tarde, guardando a luz do dia que se pôs. Até a cheia, quando nasce no sol se pondo, domina a noite, rainha, e dorme no sol nascendo. À meia-noite, ela no topo do céu, quem a ilumina é o sol do dia posto ou já o sol do amanhã? Que dia é aquele que brilha sobre sua face? É o dia eterno.

***

A lua arrasta atrás de si as marés, e quando alinha ao sol, na cheia e na nova, traz a maré maior. Maré dos mares, e também, maré do sangue. Todo mês a mulher fértil menstrua. Nesse céu urbano tão apagado, com luz elétrica muita fumaça e tantos tantos comprimidos, os ciclos físicos se desalinharam. Mas fora daqui o céu impera sobre a noite, e a lua com ele. E a menstruação se alinha à lua, rainha da noite. É naquele grau de brancura que ela sangra, todo mês, e se a lua avança muito sem vir o sangue, ela se aflige do atraso. A lua é o relógio do vermelho.

***

Me contaram que as mulheres próximas menstruam juntas. Que o ciclo menstrual se alinha. Então lembrei daquela casa perdida no campo. Tiveram seis filhas mulheres, uma seguida da outra, até o sétimo filho sair homem, quando então o pai fugiu. Seis irmãs mais velhas, menstruando em uníssono com a mãe, ou ao seu ciclo se opondo. Guerra dos ciclos vermelhos, dos humores mudando, das homenagens à lua à fase da lua e ao marco vermelho. Esse caçula via a força do corpo e as manchas ficarem. E a lua, rainha, imperando sobre esse mês de torvelinhos, os mares agitados, as mulheres lhe brigando. Até a lua cheia, de tantos lobos uivando, o dia eterno sem ontem ou amanhã. Quando os limites se turvam. Maré menstrual de humores e sangue em sua casa, converge agora nele, foco da lua branca sem sol. Os olhos se invertem, o sexo dobra. O corpo desmonta em pêlo, acorda a fera, o lobo. A fúria fora, a casa cai, a roupa rasga, lobo, lobo, ele uiva à noite, o homem lobo da lua masculina.
Dentro dela fica assim: óuóuóuóuóuóuóu...
Aí vem o espermatozóide: vlvlvlvllvllvlvllvlvlv
essas consoantes entram dentro do pulsar das vogais e a palavra sai ÓVULO do feto fato teto tato teta.

Chamam o sexo caverna, a peluda, de aranha, a fenda no baixo delas. Buraco vermelho, onde entra o eixo terra, pináculo eixo, e o vermelho babão chupa e chupa até sair a teia. O outro buraco é preso, é buraco duro, é a contraboca da boca de cima, é a saída entrada de um dentro entre dois foras.

A mulher cresce o corpo, continuidade de corpos na gestação; o homem é teia, plantação de enxertos, fios etéreos entre a semeadura. A única prole dela é aquela que dela sai, enquanto ele prolifera; mas nunca se sabe, se é dele ou de outro, e se for do seu irmão gêmeo? Nunca se sabe.

Da Roma dos lobos, de Rômulo e Remo criados em tetas de loba, guardamos igrejas de latim dourado que vêem no homem uma vacina, que fura o óvulo baixo e insere com sua agulha a alma. A semente da ascensão.

Na linha matriarcal, os filhos machos são servos duma rainha de colméia, e tudo que herdam é dela. Vivam abelhas do mel, seu membro bunda grande balançando, ferroando, transando com flores vulvas e nascendo mel. Néctar. Ambrosia.

Mas nós proclamamos a igualdade, a simetria entre os fios e a carne. Realeza de ambos, ambirreal. Autofagia dos dois sinais em amor guerra. Díade magnética pulsando.

Fim da religião da esterilidade, da dominação da terra pelas sementes. Pela fertilidade universal.

Na República, propunham tirar de toda mulher sua prole, e misturar. Ter os filhas sempre soltos numa massa de crianças sem genealogia. Desatar todos os laços que ligam o sangue. A simetria reta.



 - Cunhados!
Famílias de parente, parentes de família! Irmã e irmão de esposo e esposa. Duas famílias em dois planos de parentes. O eixo é o 3, o Eu dobradiça, a balança do meio. Cunhados!
Vamos chamar Cunhado ao Sol, entre notas de arco íris e astros da semana: Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó Si Lá Sol Família Rua Mão Fome Sol Língua Sim Dois Ré Mi Fá Sol Lua Morta Marco Raio Venéreo Sabão Domínio Lá Si Dó

- Cunhados! Pela genealogia das consoantes. Pela metafísica das vogais. Cunhadas epas cunhados epas, Cunhadepas!

o A nas ruas

E li:
Sou há
ic
ai
cai ic
- Eu!
Eu ouço, e imito - Eu! - e somo, Eu some na soma que somos.
- Xará!
E ouço alguém - Xará!
E nos reconhecemos no uníssono da língua. A língua é una. Recortada entre bocas muros e o corpo em farelos. É um L, ídolo do Um, órgão do totem Um no corpo. A Língua é L, a una, deitada sob o céu da boca. O L sob o céu. 
Ele tem duas línguas, L e ele. O céu é dela, da boca. Ela tem duas bocas, ele, duas línguas. O 2 dos dois. A Língua na Boca. Ele Ela. O L entre o E e o A.
A Letra Ladra, quem morde é a boca.
Uma língua, o seu Um é Sêmen, soma, as sementes da língua semeando brancas. Germinando o um nas bocas de sangue, a cor corada, corpo cru, da comida ao cu, a cria, criatura. Cabou a bocabou cabou cabou cabô ca bo ca boca boca.

Gosto de A.
Sou suspeitopeito, suspensopenso
A É minha inicial de AndrÉ
De nome e sobrenome, e também deste também fim e também meio, o A três vezes de ArAnhA. O A 3 traços, cortados, em pé, duas pernas e uma boca de triângulo. A boca em pé, erguida, viva, não deitada como a língua mas em pé, a boca erguida alta como o som é grande.
Três cortes, três vezes, início-fim e meio na pAlAvrA ArAnhA.
Por isso gosto do A escrito nos muros, como ídolo. Ela. A. O A da língua, no corpo do muro, ídolo. O muro é o corte no corpo do céu. Todo muro é teto sobre horizonte. Cadeia de montanha. Todo muro é morro bem morrido do céu sob o solo, altura do solo e o sol escuro. Nali a boca, o buraco. Todo corpo é muro com bocas, e a casa é caverna. E nos muros pintaram o A por toda a cidade do Rio, e eu rio. Como um novo astro pintado no horizonte muro dos olhos. Ela. Do A eu gosto, sou suspeito sustopeito.
Lhe vejo dentro, no centro, o A atravessa o círculo do O, o O cortado em desordem em nome do A das três fendas sobre pés, e a boca ao alto. O 3. Ela na língua.

A palavra não está funcionando. Quero-a simples, direta ao mundo, me apontando. Eu de leigo, devia entender. Não a torre de marfim do isolamento, sem síntese entre nós, sem a língua verdadeira, que se vê. Quero a que ressôa nas bocas, viva, a linguagem que flutua e age, ligada ao mundo de sangue de suas bocas e das bocas de sangue. As bocas de baixo que falam através do sangue, não só as línguas brancas das torres que se conectam pelo céu vaidoso.
Está certo que subam nas abstrações de luz. Mas é preciso descê-las ao som, cair ao que é real, ruína, rua. A realeza da realidade. Ocupar a ruína do ruído, descer ao solo sob o corpo da língua, buscar o sol sob o céu deitado. Não quero ouvir a distância, o vácuo. Quero uma fala sincera, uma que esteja ali, viva em seu corpo. Dentro de uma boca viva que se diz essa língua duma língua que fala de sua boca. Que vá longe longa mas que volte, que se só for não basta me leva fora do corpo e não me traz, é o nada. E fora a fera fúria. Ou se só volta desce em mim como língua do céu raivosa, e eu cortado. Quero a língua que decola e pousa, sobe ao céu e se deita no solo da noite. Que vive na boca fechada, que ressoa. O avião vivo decola e pousa raízes na terra. O mergulho no ar calado.
Parei de ler jornais. Eles não me traziam o real rido, a rua da língua realizada. São conversas de outros, lá em cima, que me deixaram ouvir. Jargão. A altura das torres brancas. Sem sangue, o sangue está cá embaixo. Em cima cabeças a falar e jorrar sua teia falada. E nós o corpo a terra vendo muros e tudo plano, os pés no liso de rodas, degraus de muros deitados. Larguei o Globo, que me dizia falso a rua, era muito papo entre os narizes oficiais da abstração. Jornais do nada. Quero o papel presente entre os corpos, os corpos presentes entre as línguas.

Alga Atrai André Aranha

Os três porquinhos

Era uma vez, três porquinhos. Vocês conhecem a história. Eles constróem umas casas ruins e se dão mal. Mas vamos do início. Eram três porquinhos, jovens, e cada um escolhe um jeito de construir seu lar.

O primeiro porquinho parece preguiçoso, junta umas palhas e pronto, tem sua casa fresca no meio do mato. Ele deita na rede, dá mergulho no rio, chama curumim pra brincar. Ali do lado faz a horta, de agroecologia, fica amigo dos seringueiros, trabalha bambu, homeopatia. Toma chá e canta, faz curas e entra no profundo da terra. Eis que cai a noite, e vem o lobo rosnar na frente da casa de palha. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" Ele não abre não, que não é bobo. Seriam os grileiros? os garimpeiros, os lenhadores? Essa terra é minha! e dela eu não saio. "Então eu vou soprar e soprar". Ele suga o ar com um ruído horrível, e então sopra, como um tornado. E o tufão dos lobos arrasa tudo que encontra, e a aldeia se desfaz sob o vento da destruição. O porquinho da palha foge atrás do segundo porquinho.

O segundo porquinho já é menos ecológico, derruba umas árvores e monta sua casa com tábuas de madeira, um barracão em cima do morro. Trabalha na fábrica e faz churrasco no fim de semana. Toma cerveja, come carne. Cultua a dança e a música das suas raízes do outro lado do oceano. Joga capoeira. Recebe o primeiro porquinho, porquinho do campo, e eles ouvem funk. Mas o lobo mau aparece, agora dentro de um trator. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" E o porquinho funkeiro não abre. Não passarão! "Então eu vou soprar e soprar" Vem aquele ruído horrível dele sugando o ar, e de novo, o vendaval arrasa tudo que encontra, e das casas não sobra parede em pé após a passagem dos lobos. Os dois porquinhos, um índio, o outro negro, nesse nosso mito de criação, fogem atrás do terceiro porquinho.

O terceiro porquinho, os materiais que ele usa, a gente nem sabe de onde vêm. Será que ele constrói aquilo tudo sozinho? Tijolos, telhas, alvenaria, massa, cimento, caramba. Atrás daqueles muros o lobo mau não pode chegar. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar". Ninguém responde no interfone. "Então eu vou soprar e soprar" e ele até sopra, e sopra, mas o edifício do porquinho resiste, ele é uma fortaleza muito boa contra o furacão dos lobos selvagens. O porquinho da palha, e o porquinho da madeira, exclamam então: "Que maravilha essa casa, onde o lobo não consegue entrar. Não quero mais morar na aldeia distante, feita dos cabelos do mato, nem na favela perigosa, com puxadinhos e tantos e tantos vizinhos. Chega de índios, chega de quilombos! Quero morar no condomínio gradeado, com câmeras e ar-condicionado, isso sim, isso é a segurança que quero para o meu lar!"

O porquinho do tijolo, todo rechonchudo debaixo de sua cartola, sorri satisfeito. Esses porquinhos vão lhe pagar um aluguel bacana, e para consegui-lo, vão trabalhar no seu novo canteiro de obras, ali onde era a favela do segundo porquinho. Vivam as remoções para interesse arbitrário. Nos campos longínquos, a água, a floresta, e a terra do primeiro porquinho agora servem às fábricas do porquinho do dinheiro. Ele sai de casa, e encontra seu amigo lobo, e os dois saem abraçados e rindo, caminhando para o horizonte, em meio à fumaça e ao rastro de destruição.

Assim que a fábula dos três porquinhos traz implícito tanto o mito brasileiro das três raças, índios, negros e brancos, quanto um marxismo, camponeses, proletariado e capitalistas. Que seria o lobo mau senão a colonização num plano, a acumulação primitiva no outro? Mas, não sendo em si nada disto, sendo fábula sobre porquinhos, é ainda algo mais sutil, e que revela uma tríade imaginária de casas, lobos e vendavais. Qual a moral da história?

Feminilidade

Nessas andanças eletrônicas, topei com esse estilo pornográfico, o Femdom, female domination. Fiquei logo interessado, seria uma pornografia anti-machista? A exaltação da feminilidade poderosa em sua dominação sobre o falo? Meu imaginário se acendeu com vulvas vermelhas e oleosas, mas ao fazer a busca, nenhuma novidade. Metade dos vídeos é mulheres com paus de borracha dando pancadas em homem e penetrando seus cus, a dominação feminina através de um proto-falo; nada que viole a lógica do culto do falo onipresente na pornografia.

A outra metade dos vídeos, no entanto, se aproxima daquilo que eu buscava. Face sitting ou alguma palavra chave estranha assim, com a mulher esfregando a vulva contra o rosto alheio, ao seu bel-prazer. Aí sim, a vulva rainha, seus sucos e cheiros invadindo, dominando o homem, me parece a inversão da dominação. E agora revelo porque isso me atrai com uma curiosidade de desconstruir o mito falo. Havia este livro que conheci da boca de uma mexicana tarada que exaltava certos cheiros específicos do suvaco, em detrimento de outros, e ela numa alta noite me contou a seguinte história.

Jodorowsky o poeta chileno do teatro-pánico, dos filmes e quadrinhos como cirurgias simbólicas no inconsciente, era jovem quando uma Reyna D'Assia lhe encontrou e "sua pele, intensamente perfumada, me provocou uma espécie de loucura. Deixei que me tomasse pela mão e me arrastasse até a rua a entrar num táxi." Ela rápido está nua e os dois em coito, mas antes que ele comece seus vai-e-vens ela exclama "Alto!"

- Não te movas. Quero que sejas o eixo de minha paixão.

As suas pernas o envolvem num laço apertado, suas mãos tomando-lhe em domínio de todo o seu corpo, culminando em que "as paredes de sua vagina tremeram cada vez com maior velocidade. Dando vertiginosas contrações, se converteu em uma luva trepidante. Em meio a essa tempestade muscular já não tinha mais como me mover. Dentro em pouco meu sêmen a inundou."

Filha de um grande guru versado nos ocultismos marginais, ela treinara seus músculos a ponto de redescobrir técnicas eróticas há muito tidas como perdidas em nossa ideologia. Após séculos de ascensão patriarcal, história denunciada por Oswald de Andrade e a antropofagia e exaltada pelos psicanalistas idólatras do superego, a mulher é educada desde pequena que o falo é poderoso, ativo, vital, e que elas levam entre as pernas um cesto semelhante a um pântano, sem outra possibilidade de ação que ser preenchido pelo semeador de esperma. Se assume como dado que a vagina é um órgão passivo.

Restam no entanto pistas dessa força venérea oculta. Desde pompoarismo a cenas de filme com lançamento de bolinhas de ping-pong, surgem brechas na simplicidade da dominação fálica. A contração pode bloquear a penetração inteiramente, ou intensificar o gozo. A história daquele livro segue com a maga demonstrando esses sopros e contrações até culminar:

"Por último, sentada como uma rainha, com os joelhos muito separados, após uma longa absorção de ar foi expelindo-o para produzir um ruído musical, entre metálico e orgânico, que me recordou o canto das baleias... Fui atravessado por intensos calafrios: as sereias! o canto das sereias! que atraía os marinheiros para fazê-los naufragar nos mares, era o canto de suas vulvas..."

Creio nessa exaltação da mulher, seus cheiros, ferormônios, perfumes, seus gozos, suas menstruações como vitória sexual contra-machista, desfazedora do falocentrismo; é uma vitória do gozo, da idolatria da mulher (tão perseguida nos evangelhos). Meu corpo é fálico não é venéreo, e aqui sou um homem falando de mulheres ou citando homens falando de mulheres: é que faz falta o anti-machismo masculino amante da vulva, faz falta reinventar este desejo para um mundo de liberdade amorosa. Como dizer isso, sem reificar uma moral heterista, que vê os casais homo como incompletos?

Lembro então o Aristófanes num banquete platônico, e aí vale lembrar que a Grécia via assembleias masculinas elitistas e olimpíadas do corpo apolíneo em amálgama a bacanais de Vênus Artêmis "vinda do Oriente, do Leste, do Nascedouro do sol" em carnaval de poderosos escravos e mulheres como rainhas da colméia e cultos a Diana-Dionísio o vinho os venenos e a batucada feiticeira (vale lembrar que a Grécia não era renascentista, não havia passado um milênio caçando bruxas e era prima do matriarcado egípcio de Cleópatra). Aristófanes fala de humanos anteriores de três tipos, duplos falos, duplas vulvas e um de cada, até que o raio divino os separou - estas metades agora buscam se completar, em memória aos três sexos de outrora.

Lembro também o final de Emanuelle, quadrinho do Crepax: o mandala vitruviano do garoto penetrando o homem penetrando a mulher, em tríade de lótus aberta.


Mais do que contra a razão: contra a Razão, una, universal, atemporal, perfeita em si e para si. Traçar, rastrear uma etimologia, o surgimento terreno desta palavra. Antes dela ser tomada de absolutismo. Descobri-la como ração, racionamento: proporção. Linha, de raciocínio, com conclusões, desenvolvimento. Identificar a Razão, árvore única, em meio a muitas primas; descobrir sua família de plantas, de raízes. Ratio, proporção, medida; radiano, raia, raio do círculo. O caminho parece tomado pelo mato. Como raio, raiz, racimo, ramo, radícula que toma o poder: a régua, regra, regime, régio, rei, reto: o correto, direto, direito. Nuvens de noções se movendo, sem uma única que lhes seja Rainha.