dizem que as letras são os números de uma matemática maior
e daí brigam com os que dizem
que os números são as letras de uma literatura maior



eu jogo o jogo recortando palavras, as vezes duas ou tres juntas
aí nao pode incluir palavras isoladas no jogo, isso é pensar palavra como conceito, como ideia;
e não como concreta, visual
quando você já inclui palavras de um texto original, recortadas, elas já vêm flexionadas em posições que na verdade soam muito mais, têm muito mais força de trazer imagens e estimular conexões, que por exemplo usar o infinitivo dos verbos.
porque na linguagem corrente não usamos o infinitivo né. e o objetivo do jogo das palavras é bolar frases não como iluminação, mas como procurando as peças do quebra-cabeça




é estranho como sempre tocamos tão perto da mina de ouro que é esse jogo
e nem percebemos, por não termos um respeito à palavra em si, só respeitamos o conceito
daí colocam o verbo no infinitivo, como se o infinitivo fosse o verbo inteiro, como se cada flexão não fosse toda uma palavra inteira com um gosto
uma virada de língua, uma lembrança
uma expressão específica
uma dúzia de relógios
"o roubo como primitivo"
"... ele designa o ato de comer a alma"
"26. A palavra hau designa, como o latim spiritus, ao mesmo tempo o vento e a alma.
[27. A palavra utu refere-se à satisfação dos vingadores de sangue.]"
"A tribo que consegue fazer rir a outra pode pedir-lhe tudo o que quiser.

espírito ciumento que, quando ri, solta a coisa que ele guarda"

comprar

moedas lançadas pelo cortejo de casamento na China, o preço de compra da noiva

É dos deuses que se deve comprar. Conjura-se um espírito maléfico, um tauvau do qual foi encontrado um cadáver (serpente ou caranguejo de terra)

fertilidade garantida pelos presentes dados aos cônjuges

[ensaio sobre a dádiva]

presentear

Civilização do Pacífico

["o avarento sempre teme os presentes", dito.]



Os presentes selam o casamento, formam um parentesco entre os dois casais de pais.


Tabu:

os dois grupos de parentes não se veem mais, não se dirigem mais a palavra, mas trocam perpétuos presentes.

[da mesma forma que] jovens que passavam ao mesmo tempo pelas cerimônias de comer tartaruga e comer porco




"Os ritos do encontro após as longas separações, os abraços, a saudação pelas lágrimas,
[...]
e como as trocas de presentes [alimentos, mulheres, filhos, bens, talismãs, solo, trabalho, serviços, ofícios sacerdotais e funções] são os equivalentes disso."


marcel mauss
"Quem não preferiria perder a audição, o olfato e o tato em lugar da vista? Mas, por quê? Porque quem perdeu a visão é como aquele que arrancado do mundo não pode vê-lo mais, nem a nenhuma de suas coisas, tornando, assim, a vida irmã da morte."

- Leonardo da Vinci, Transando sem tirar os óculos
etimologia penúltima de céu:
Leito divino, onde deus dorme, na eternidade.
Pela hóstia então chamou o céu da boca, 
e com as línguas do mar o firmamento copiou da boca o nome Céu, 
onde reside a hóstia desrepresentada, azul.


a última seria:
e pela hóstia religiou-se,
o culto ao céu já era antes um culto à boca.

sangue e sal

eu fazia a festa com os amigos
ela sangrava com as amigas

hoje eu recebo dia 1°
e ela toma pílula

mas as marés
não seguem relógio
semana é medir dia numa escala de sete astros

aritmética sem geometria
aritmética do céu
astronomia


sol lua marte mercúrio júpiter vênus saturno sol
lá si dó ré mi fá sol

eu queria um gps das horas

O que é
o que é

uma agulha
apontando
em círculo

a) o Tempo
b) o Espaço
c) Outra, especifique ___________
- En los mismos ríos entramos y no entramos, [pues] somos y no somos [los mismos], o también: Ningún hombre puede bañarse dos veces en el mismo río.

filosofia fluvial
canalizando os pântanos do imaginário


veja bem,
o rio desaguou
as ondas do tempo se quebram contra a areia
as correntes levam para o fundo
- não vá ser levado
pelo mar


olhando bem,
é só ar
o vento desmanchando
as nuvens de tempo
- acho que vi uma girafa
um chapéu, um rosto


mas chove...
o tempo não tá firme


mas nada disso:
o tempo
é uma pedra
é a rocha quente
sob o sol
ai, ui, a globalização isso, globalização aquilo
o alto de seus telescópios hubble e tantas torres babel, arranha-céus

se enchem de si, uma encheção
construtores de pássaro
o povo do vôo de aço
queria pregar os olhos no céu

ah...

gráficos pizza e de curvinha
um cado de gente enchendo o mundo, até não caber mais
não tem espaço, socorro! a casa vai lotar
um ônibus pequeno: se chama terra! com T alto

globalização isso, aquilo
tiramos a roupa do mundo
e vemos nu, onde acaba
o mundo não é disco mas tem fim, tem abismo:
a gente ria de cair da beira da terra, as cascatas de mar no vazio, bonito;
mas o navio não parou,
motorista, socorro, precisamos descer!

o fim não é mais lugar, não é o fim do chão
o fim é amanhã, o tempo, a invenção

bla, bla, blá
fechasse os olhos
povinho dos óculos girafalindos

- a luz não é dos olhos
o sol é quente
o tempo não é uma linha, um fio
e o fim é só um número
num papel
o futuro ameaça
troveja
e o tempo fecha.

vou comprar um guarda-chuva

não dá pra tocar na
manhã
no amanhã azul
Julie traiu Paulo justamente com um dos seus empregados, um negro

nas varandas,
nas janelas do primeiro andar
na cozinha, na área de serviço,
no quarto de empregada

"ela me pôs pra fora de casa!"

- eu vou morar na rua,
vou sambar em cima
da sua cama
"Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade."
brincando de mitologia:
lembrei dos cromossomos, a mulher XX que só contém ela mesma
enquanto o homem contém ambos XY
(e ainda fica essa ideia de homem² YY lobisomem ao contrário)
não fosse a natureza (por enquanto) o casal gay geraria tudo: meninas, meninos e ainda uns anjinhos
enquanto as lésbicas estagnariam, quase reprodução assexuada
ou - quem sabe no princípio só havia XX e YY? e aí veio o homem

"e onde buscas o anjo, sou mulher"


(o esperma é um vírus interrompendo a menstruação)