a interface sexual do homem é analógica; a da mulher digital

(grande mistério de como funcionam os mecanismos modernos de interação, sistemas caixa-preta de inputs e outputs em oposição às velhas relações analógicas tipo engrenagem e alavanca)

serei honesto: a comparação é com relógios, digital, analógico
no sentido: o homem parece mais simples, mais explícito o mecanismo da excitação; ao passo que a mulher não tem nenhum dispositivo específico, sua excitação provém de movimentos de superfície

será que em outro sistema simbólico-cultural a relação seria a inversa? (grande problema das mulheres alienígenas de darem o orgasmo aos seus machos)
como: se não consigo escrever, se não sai (está travado, entupido)
- o problema não está em mim, mas na literatura
quem precisa mudar é ela
(em vez da resposta ressentida de culpar a si
e não conseguir descarregar (unload)
não - culpo o mundo, e portanto
mudo o mundo, muito mais fácil
vou moldá-lo e encaixar ele em mim

como criar uma forma, uma arte, uma métrica dos versos
(como barthes dizia que os haicais eram esporte popular)
que pegue as pessoas de surpresa,
que ali elas possam ser-se sem travas

ideal de arte
que liberte (das veias entupidas, dos suicídios como enfartes psíquicos)
espécie de teoria torta das forças psicológicas
série de impulsos entendidos como fluxo
(acho que vi algo assim em guattari)
temos do corpo saindo fluxo de urina, de esperma, de sangue, de ódio e
como nossa carne é usina gerando líquido
e tudo que fazemos é brincar cos tubos
conectando o pênis à privada ou à vagina, a veia à seringa a boca ao cigarro
[ como olhar uma figura um diagrama científico de um corpo parado e olhar
tudo que entra e tudo que sair e ficar olhando como se fosse um mapa e as trocas de sexo por deixar a boca falar o que quiser nas orelhas conectar bocas e orelhas ]
[ a pessoa é um país e os fluxos de habitantes e dinheiros e produtos e ideias migrando ]
e conectamos ouvidos em headfones e
o fluxo de lágrimas a um filme ou a uma pessoa, o fluxo de segredos desabafados a uma orelha, a um ombro, é uma conexão de um plug, um encaixe, uma ponte, um misturar-se os dois (molhado de lágrimas e de palavras, ele não sai ileso)
desejos de macho em situações, em cenas, em
adoro fazer teatro porque lá dou ordens, adoro escrever porque

e se não conecta, se um tubo impede o outro, como naquele joguinho de encanadores das crianças,
um vazamento, uma repressão, uma represa inundando
como uma goteira surtos de loucura de humor doido
às vezes até rompe uma veia e jorra fluxo forte de sexo reprimido de palavrões e ódio e muita muita força
fluxo de raiva finalmente conectado à briga com outro qualquer, por onde saem juntos boiando tantos outros humores coagulados, cracas e roupa suja morta de anteontem flutuando nas águas etéreas dos socos (os hematomas e adrenalina hormônios finalmente saindo para a existência, ex-istindo, sendo cuspidos para fora)

quão incrível não é ordenhar as pessoas fortes, entupidas, todas desreguladas como uma máquina com engrenagens presas forçando até que vai
chegar e saber destapar os potes certos e
dali sai tanta força que nos eletrifica
fluxos de força
usina de força da cabeça

mas não, não é bem isso.
um dizia
fulano não se dava bem com as pessoas porque era gay (e escondia)

outro dizia
fulano é gay porque não se dava bem com as pessoas

natureza x cultura