A Carta Furtada

Nessa convivência com a violência, surgem esses hábitos curiosos, tímidos. Frequentemente, ao me imaginar assaltável, repasso mentalmente os meus pertences, esquadrinhando a bolsa, os bolsos, à pergunta se há algo de valor inestimável comigo.
E então vou elegendo - como criança a um melhor amigo, uma cor favorita - vem esta lista, a colocação: qual é o mais valioso que tenho comigo? Se o computador, ou celular, pelo óbvio? Ou um casaco muito bom e querido, um estojo; pra não falar numa gaita, um quebra-cabeça de madeira que eu mesmo fiz; um livro! documentos, sim, dinheiro cartão chave mas eis que me toma e os olhos arregalam da imensidão, da inestimação estimável: um caderninho!!! Precioso, meu precioso, cada vez mais prenhe dos meus rabiscos (a memória) tão querido em que amo me esfregar os olhos de novo e de novo e de novo... Que me dá alívio terminá-lo para parar de carregar tamanho patrimônio... Que mesmo então eu o tiro da mochila, do bolso e levo apertado na mão, exclamando: "Este, não levarão!"
havia uma imantação natural dada pelas roupas arrancáveis / pela nudez

dragões urinárias e cu-bundas sob cuecas-sungas-calças sob calcinhas-biquínis-saias

Aquilo, no corpo, sempre escondido dos outros e outras. E nosso acesso regular a banhos-urinóis-torneiras de conectar nossas corpos aos fluxos da água do água (cascatas-rios de chuvas de nuvens de mares: do vapor-orvalho, da humidade mofante, da invasão do seco; da fonte-chafariz de vida diante da sêde (o rompimento do silêncio, o oásis no branco

*

O mundo ao meu redor é um círculo de distâncias que terminam no horizonte. Este círculo, visto de cima, pode aparecer nos mapas (feitos das bússolas que apontam o centro dos ímãs, o pólo norte que é o eixo da rotação da Abóbada Celeste, a intuição primeira do Céu: o domínio dos astros Dia e Noite.)
Os mapas são feitos com lunetas, bússolas, cronômetros e rádios elétricos para se comunicar à distância. As fotos de satélite.
A Radiação-Irradiação elétrica é uma Novidade na história conhecida?
(...)
A fotografia de satélite foi primeiro alcançada subindo em balão, e vendo: medindo os ângulos do que dava para ver, medindo Gaia pela GeoMetria: leis matemáticas desde Pitágoras e as medidas harmônicas da música e os primórdios da Astronomia e da contagem das estações anuais.
(...)

O sistema de coordenadas x = y num espaço: a algebrização da Geometria Euclidiana não estava dada desde o início. Antes eram ramos distintos, independentes, e poder-se-ia até dizer: a geometria era superior à álgebra. Ramos da grande Matemática. A correspondência das equações X = y, com os pontos num plano geométrico, foi implementada por Descartes em meio a uma pesquisa sobre lentes ópticas e questões da física.
O metro foi inventado/implementado na Revolução Francesa (antes eram pés, polegadas) junto com o Litro e o Grama - uma velha demanda do partido universalista-iluminista (estamos falando das origens da tomada de poder do Racionalismo, da expulsão do Ocultismo.)

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Todas estas questões Fundacionais da nossa compreensão conceitual do nosso corpo, de beber água, de desenhar um mapa e medi-lo pelo céu e pelas contas? tudo isto compreende a história da instituição de uma convenção justa, por vezes rompendo dinastias, heranças e herdeiros pela própria Guerra.
A História da Guerra, que inclui a guerra civil, a repressão, a polícia e o crime - e que deve ser contada, compreendida - é marcada pela contagem de corpos-trabalhadores, corpos-soldados, corpos-reprodutores e pela contagem de propriedades-comida, propriedade-serventes, propriedades-espaço e os Direitos de propriedade.
Dito isto, o funcionamento do mecanismo Patrilinear é digno de nota como Conceito Fundamental da reprodução natural das coisas.
Se, de todos os filhotes, eu castro a maioria dos machos, e o Reprodutor restante reproduz até nas fêmeas do vizinho, criando boa prole
e se nos mecanismos tradicionais de casamento havia uma tendência à concentração de famílias e gerações em poucos lares com condições de gerar e crescer a Prole; havendo muitos ramos estéreis ou apenas pouco enraizados na prolificação humana (padres, celibatários, titias, mães-solteiras, falecidos jovens...) retendo esta nuvem de Satélites-Criança (a próxima Geração) e Velhos/Incapacitados (e demais agregados como petis plantas domésticas carros jardins bem-cuidados)
A linhagem Patrilinear, que estuda as sementes e sua circulação de terra-planta-semente, sua prolificação regrada por oferta de Alimento (o Pão) obtido pelo emprego da Mão e colheita do fruto da Natureza
                 P            n
M mãe     M pai     M nascimento

Guardar as sementes. Roubar a colheita do vizinho. Plantar gravidez na menina virgem de parir.

(não consigo continuar, mas era pra falar da industrialização, a produção em série, o milagre da multiplicação, a superlotação do espaço; mutirão
para entender a etimologia do prefixo RE- é útil substituí-lo / traduzi-lo por SOBRE-
RE- não implica uma cópia mas uma intensificação
(verdade)
vício, hábito de olhar a história do mundo a partir dum quadro do materialismo, da grande acumulação, das cadeias de poder se espraiando cefalizações - sobre a matéria, desde objetos a territórios terras a pessoas corpos a animais a plantas a processos transformações etc.
eis que satura e se torna o automático, o confortável e que na verdade apaga o que está diante de mim.
aquela intuição, que tive do calar o interno o passado futuro a sistematização permanente aquela intuição, outra, de voltar (diferente) a um olhar do mundo como arte, de buscar o belo antes do funcional?
que é reencontrar um espiritual...
Se bem estejamos adentrando tempos nos quais as dualidades vêm sendo cada vez mais deslegitimadas, e haja um esforço constante - dentre as mentes comprometidas com um projeto de pensamento progressista - pelas categorias não-polares, na prática as raízes da organização binária penetram fundo, seja no concebido, seja no percebido. Poderíamos, inclusive, dissecar esta primeira frase em suas oposições antes e agora, nós e eles, comprometidos ou não, etc. até a própria estrutura "se bem..., na prática".
Dito isto, eu gostaria de iniciar esta sequência de palestras sobre o dualismo por uma das dualidades mais presentes no dia a dia da política: a esquerda e a direita. E eu gostaria, como primeiro passo, de assumi-la imediatamente como uma oposição de rumos: para um lado, para o outro.

costumo usar o argumento industrial: policiamento é artesanato, não é assim que se garante segurança pública numa metrópole.
mas quando falam da crise o argumento é genético: não podem todos poupar ao mesmo tempo, são círculos que se movem, é essa a natureza da abundância; não é linearmente que se chega a um fim, mas dando a volta e descobrindo o que está atrás do início
e daí voltamos aos argumentos industriais e vemos que eles são uma aproximação que perde o essencial: que não sabemos como se opera o salto do industrial pro divisível, para a simultaneidade de apostas que é o coletivo

o salto do individual pro divisível
do átomo para a anatomia
plano de uma obra de fenomenologia da economia, descrição e mapeamento simbólico das várias metáforas sobre o dinheiro e seu funcionamento, recolhimento de retalhos culturais, reconstrução de um imaginário trans-histórico
Uma fenomenologia: suspender todo julgamento e acompanhar os objetos e suas nomeações, descrever
jesus não existiu
não somos capazes de compreender "jesus existe" sem "a crucificação existe".
a única maneira de afastar essa crença fundamental de que deus está morto na cruz é compreender que não houve jesus. houve muita, muita coisa. mas jesus não.
no mais, jesus é uma criação editorial dos concílios patrísticos que selecionavam os evangelhos, e que optaram na alta idade média (por volta do século X, do ano mil) por um eixo narrativo, aos poucos se consolidando em oposição às mil genealogias de judaísmos perdidos, em expulsão dos cristãos gnósticos e suas catedrais e evangelhos apócrifos, os cultos marianos com raízes finalmente em eva ou ecos na madalena (vestígios da diana matrilínea). Tanta coisa pré-verbal nos vitrais coloridos daquelas arenas de reunião do povo analfabeto, quando não havia uma Igreja unificada mas proliferavam igrejas-mesquistas-templos e todo tipo de arena para trazer o divino e sacralizar sacerdotes.
daí a cristianismo: a ênfase no gênesis da subordinação da mulher nascida do ventre masculino, este sim feito à imagem do criador é a inversão materno-paterno; a unificação papal da roma que então demoliu todas as catedrais anteriores, séculos XV-XVII (a revolução anti-ocultista), limpando o imaginário - a memória coletiva - daquelas pinturas, das imagens sagradas (tão influentes, no correr dos séculos, quanto o hermético texto havia sido em seus papiros; ainda que duma influência mais perene, mais geral: dioniso-vernacular); a igreja romana como uma entre uma família de cultos da criança masculina.

jesus não existiu. não me interessam fragmentos arqueológicos de qualquer sujeito que existiu há tanto: isso, houve incontáveis, incontáveis messias, incontáveis vindas de divindades, incontáveis lutas.
Não me interessam os dados históricos transmitidos pelos monges. jesus é uma arbitrariedade para discutirmos o homem-deus sem filhos e a mulher subordinada.
Alicerce da cosmogonia patriarcal. Não houve nenhum jesus real, o que há são muitos símbolos, alegorias como todo discurso divino. O erro é achar que a cruz é real

Fermento

A vida é uma fermentação.
Animais são feitos a partir de fermentação de vegetal.
Em última instância, vegetais são fermentações de minerais na água.
Minerais -combustível -alimento -veículo -estrutura -catalisador...

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Metais são minerais suscetíveis - como a água - à eletricidade.
A água é alvo das marés, chuvas-secas, a teoria do orvalho e a nascente do rio. "O ingrediente da vida". Correntes marítimas e meteorológicas dos gases (e umidade) na atmosfera.
Tudo está sob o Sol que se reflete na lua. As constelações giram no céu ao longo do dia, e também ao longo do ano; têm um eixo no pólo norte, no ártico, que é o centro do magnetismo que atrai todo metal.
Ímãs, eletroímãs e fios carregados de dados; o elétrico compõe o sistema nervoso; há um meridiano magnético no corpo.

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Humanos são fermentações de animais-fermentando, vegetais-fermentando, minerais-fermentando, água. Mas há um "sopro" de magnetismo, do ímã dos sentidos-olhos (pois afinal estamos falando da luz, que os vegetais guardam para exibir no fogo, a faísca; o que distingue estar vivo, de estar morto

Latim

As línguas vieram de
- não um latim originário que se desmanchou -
mas um vetor P latim em bolsões M ao largo dos séculos (P via ciência-direito-religião+diplomacia) até a imprensa+alfabetização tornar o vetor texto vernacular (surgimento do estado-nação de anderson?)

MORPHÉ
FORMA

E se nossas letras, como no japonês, forem também ideogramas muito elementares? E se a língua tiver um sentido cru?

O Oriente-nascente do pensamento

O que martin quer dizer - quando elogia, no alemão, as raízes gregas - é que elas conectam a planta de línguas metafísico-abstratas de culturas desligadas do solo (o ocidente latinizado) às línguas egípcio-ciganas: o oriente
O ORIENTE DO PENSAMENTO

Em "O que significa 'orientar-se' no pensamento", martin defendia simplesmente o oriente: mover a metafísica ocidental em direção ao Leste, ao Nascente.

(paganismo antigo de chamar o norte de cima, eixo do céu meteorológico das estações, oposto ao ante-polo anti-ártico do perder-se de navio rumo aos mares do sul ou do extremo-oriente...)

Martin nos alerta para a "visão" por detrás das línguas... Que morfologias de raízes o português falado-alfabetizado não carrega?
"O que significa comunicar-se em nossa língua" era um texto-tema que martin sugeria/incentivava seus alunos a escreverem.

O coletivo é a soma das partes

Está certo que não existe o coletivo como algo além das pessoas; que tais padrões de comportamento emergem como arquiteturas relacionais médias, de geometria variável e reiterada; mas fato é que embora todo representante seja meramente um elo numa cadeia que só tem representados, o fato de fazerem referência e, mais importante, simplificarem para si tal cognição projetando todas essas unidades relacionais numa unidade maior, metafísica - o coletivo - não nos passa desapercebido.

Teoria da água

Rio é a água subindo, tanto que ela empurra tudo para baixo do rio.
Gota é: é uma água saindo de você, na verdade.
é que o copo meio cheio, nunca sabemos qual lado é o cheio: beber é na verdade engolir um vácuo, expelir a água que é a verdadeira fonte da sede: é ter água demais aumentando. A água que vemos é um buraco negro da não-água

Luz é líquida
A sede é uma luz líquida

Rios caudalosos com suas caudas
Humanos têm não-rabo, um campo de negatividade neuro-magnética no traseiro. Por isso são seres polarizados, a partir dos olhos e pele que recebem luz e das membranas que vibram som.

"Hoje plantei, isto é, retirei muita não-planta da terra"
Não há o objeto, há um ponto de não-objeto, que se move (só o dinheiro é a coisa mesma).

O que existe são espaços livres do que não está neles.
Meu corpo é onde está livre de não-mim; eu sou o ponto livre dos outros. Eu existo.

Minha pesquisa

No fundo, em última instância, minha pesquisa é aquela pergunta: quem escreve e que funções o papel escrito desempenha na sociedade. Que mecanismos podem ser articulados no espaço de representação do papel; que mecanismos podem ser articulados pela concentração de funções num objeto móvel, impessoal.
Desde a planta arquitetônica, ou uma lista de compras, a cartas, mensagens (o baralho é fascinante)
Cada vez que me vejo fascinado por um papel, seja uma memória, um bilhete, uma indicação, etiqueta, uma partitura, um romance, uma ideia anotada, um lindo desenho, uma nota caríssima, um calendário, uma escritura, ata, cosntituição, a bíblia... quase que exlcamo: voilá! hélas! zut! zut! zut! eis o papel: que fascínio.

Metodologia

Se todo conhecimento está em pessoas, em relações sociais, em trajetórias e discursos e posicionamentos e transmissões: como quadro de conduta (moldura) e transmissão (como estoque, e fluxo).
Sua transmissão, sua exposição, seu uso de material comum, sua abertura portanto a uma retroalimentação e influência na estrutura (moldura) ampla
Se o contato (pessoal) com a realidade, via moldura, é o que garante "verdade"
a moldura só se sustenta se permite as transmissões internas sem se romper. e as externas: bélicas
fiscalização do conhecimento
transformação de moldura.
uso (da moldura) como transmissão assimétrica: defesa ou ataque, blindagem ou tomada.

O estudioso como mensageiro de uma vanguarda


O estudioso como mensageiro: relatos de uma incursão guerreira, a própria Vanguarda: um mergulho – vindo dos humanos – um mergulho na natureza, na fonte, no mistério, não conhecido.

É esta a função da língua: a comunicação, a posição de símbolos como quinas, cantos, de um traçado caminho; a orientação de um mapa didático.

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Que é a didática?
A didática é a condução por um caminho – não como Império, mas como guia.

Uma arquia, não como monarquia única, como hierarquia moral, mas simples vanguarda, condutores do navio

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O estudioso: seria o estudioso um mito masculino?

Em contrapartida às marés do sangue das mulheres, o homem teria, na sua solidão, o contato com o papel.

E voltamos ao patriarcado