(seguindo a onda barthes)

o discurso amoroso precisa sempre ser reafirmado
ininterruptamente
olhar cartas passadas não diz nada
como se o amor tivesse uma relação com o tempo diferente
relação ávida de não ter memória
o término do amor envolve uma descarga de discurso contido
(ponto de vista de quem termina, claro)

I. são chamados à tona mil pequenos detalhes súbito 'irritantes' do amante - para chocá-lo com a descoberta, fazê-lo olhar o amor passado surpreso. como o outro agora olha seu passado amoroso desencantado, virando-o de cabeça para baixo com a informação nova: ele nunca me amou - pois ora não me ama mais - tenta criar um choque tão grande quanto: desenganar
detalhes que nunca importaram e sempre serviram como gostinho especial, tão insignificantes que marcam o outro como único
- é como apontar e dizer: olhe aqui, num lugar qualquer,
te acuso de ser você único aí, te recuso
- te recuso os pequenos detalhes; te recuso completo!
(como antes eram eles os mais amados,
como depois são eles que farão a maior falta:
lembrá-los é o que causará a maior dor)

II. uma verborragia:
- necessidade de forrar (com declarações, afirmações) a nova posição a ser ocupada
hora de dizer 'verdades': dizer as verdades da perspectiva nova
devido ao shift estrutural que ocorreu na relação
e agora ambos cumprem papéis diferentes no jogo
sem os mesmos direitos e deveres,
necessidade então de performar uma 'revelação'
como para treinar as novas pessoas do discurso a serem utilizadas
(fim do 'nós', separados)


X. a amada e esta aproximação do fim
marcada pelo discurso
- quando acabar conto a história
não há discurso amoroso durante: só há depois
(porque o amor mesmo já é um discurso vivo
discurso corpóreo. quando cessa, a vida impõe continuá-lo
por outro meio: a fala - 'o sexo é a linguagem instintiva do amor')
'o que é arte' 'o que é liberdade' 'o que é talento'
questão de tradução
cada um está falando de seu pequeno trauma, familiar e edipiano talvez
falando de um problema muito muito concreto e prático
disfarçado com este ar abstrato
e é claro que a discussão é calorosa e vazia ao mesmo tempo
porque tanto toca fundo em cada um quanto não comunica nada
teatro de segredos. é um problema de segredos.

o campo

há uma crueza, uma proximidade da morte e da dor; passamos nos cortando, nos ferindo; suor de cavalo; calos nos pés, espinhos.. e uma relação com a natureza infindável: cortar mato, matar pássaros, gastar água, leite e ovos; maldade (mas dizer maldade é tão inadequado; que é só cru e bruto, animal neste sentido ingênuo..)
o campo: e o olhar numa biblioteca
ganas de largar tudos e vir isolar,
o olhar perdido nesta tranqüilidade rasa do horizonte: e ao lado um olhar folhado pleno de livros e letras - sair no campo e sou só presente - e estes sonhos fora do tempo, estas li-teraturas. e como o corte no dedão que inflamou, ou a ave nova que me cruzou o caminho à tarde: as maneiras como este cotidiano tão puro conseguirá espelhar as músicas lindas que ecoam nos meus olhos, após as noites inteiras de nariz enfiado nas páginas - sim, talvez bem como ao ouvir música em fones de ouvido o mundo vire um labirinto de espelhos deformantes, paredes e cores tão já primas do som que nos invade a alma, e tudo ganhando aires tão esbeltos: talvez aqui, no aquém cidade, neste campo dito neutro - talvez nesta velocidade lenta do viver possa-se finalmente lavar as vistas com os livros: talvez o que a música nos faz na cidade, como vinho em água, tingindo tudos com cores de tempo e gosto; aqui as letras que tenham lugar, em sua não-velocidade

(arroubo estruturalista - cidade::campo = música::literatura)

mas nada neutro! tão nada de zero, de página branca; tão tendencioso em sua universalidade rígida e pouco visível, tanto que nem é exprimível, tanto que nem nos excita, mas nos borra, nos calma e flui: como largar-se num barco bêbedo em águas calmas e fáceis, sentar-se seguro para dormitar e fazer planos: sem perceber a umidade embolorando-lhe os papéis; sem ver o limo grosso acumulando, ou a dieta de peixe transfigurando-lhe os humores, ou a paisagem lenta recortando seu próprio lar no fundo dos olhos, impregnando seus tons nas retinas; até quando ergue os olhos e sonha o céu, bebe as nuvens e esculpe-as formas, "imaginando-lhes" tão primas do que se toca e come - até que mesmo as nuvens já são lentidão e peixe, e limo e bolor irrefreável e invisível; afundar neste abismo de não-civilização, de não-não: menos que um nada, porque o nada é palavra e palavras só existem nos homens: aqui nem se é mais homem, é como voltar eras e somos um peixe ousado que acaba de pousar suas nadadeiras fora d'água, mas tudo lhe é marinho e aquático: e aqui ele passeia na orla da praia, e algumas ondas quase o engolem com satisfação: porque ele é tão peixe (porque somos tão feitos de carne, e fácil vagueamos sem destino por esse mar tentador de crueza e lentidão, de simples)