Fichamento de le ver, démon et la vierge (maaike van der lugt)

Intro

Em primeiro lugar, tenho que me lembrar que são demônios, vermes, geração espontânea de podridão; demônios representados, que se incrustram nas mentes como erros repetidos ad infinitum

Tenho que tentar escrever sobre isso, sem essa escrita se tornar um ritual ininterrompível, um milagre ocorrendo: a criação

De fato, tentar escrever sobre isto invoca o mundo: escrever invoca o mundo, e um mosquito pousa na nossa mão, o celular toca: o mundo convida à dispersão

Mas sei bem do que estou falando (tenho a coragem para enfrentar, não tenho medo)

 

Início

A viagem é circular. A busca do início aqui se torna uma investigação sobre as “teorias do início” e a descoberta de um animado debate no século XI (no tempo das pestes e da fundação das universidades-ateliês desunificados, quando se faziam guerras longuíssimas (a dispersão de poder que caracterizou o feudalismo) e se inventou a imprensa... coisa que praticamente continuou até napoleão e a ascendência britânica no capitalismo industrializado e imperializado do globo, vivemos o fim dessa era posterior – dizemos que não vivemos um “renascimento”, vivemos uma morte, fim do mundo. Eis nossa teoria do tempo – como falar então da “idade média”? nós que ainda somos fascinados com a roma e a ascenção do cristianismo na Europa – mas enfim, assumamos a “verdade histórica”)

O livro então é um estudo sobre as relações entre teologia, filosofia natural e medicina; ajudando-nos a percorrer esse cenário, tão frequentado nos textos antigos.

1487 “um vapor negro da longura de um homem se levantava detrás da feiticeira” - era o demônio copulando. Isto está no “martelo das feiticeiras”, espécie de best-seller entre inquisidores e aficcionados. Como que essas páginas tão “barrocas” foram aceitas pelos seus contemporâneos? Como que, aqueles que hoje, olhando para trás, vemos como os antecessores dos cientistas – os que tentavam a medicina, e a biologia – se ligavam profundamente a debates metafísicos, lógicos, gramáticos; e a debates teólogicos...; e a debates demonológicos?

A ideia da “incubação demoníaca” na verdade foi gestada (se é que se pode falar assim) alguns séculos antes da inquisição, sem constituir o “ataque frontal à feitiçaria, ao sabá das bruxas e à igreja satânica” que a Inquisição promoveria depois. Era uma hipótese afeita às teorias do surgimento dos vermes, e da má-formação dos filhos: da sorte e do azar com os nascimentos. Não havia, então, a Biologia Teórica separada da Moral Familiar; devemos lembrar que as aristocracias soíam ter filhos degenerados, algo que colocamos na conta dos casamentos interprimos (e certa concessão ao incesto) que hoje são abismos para nossa moral canônica. Não entendemos a Idade Média, seja lá o que esse nome queira dizer. Dizem que toda hora acabamos de sair da Idade Média, que o progresso impera, que vivemos o terceiro tempo à beira do futurismo – onde antes reinara esse lento “amadurecimento” da humanidade, despertada nos confins da Antiguidade. Pilares básicos da concepção que envolve a ideia de Ocidente, a ideia de laicicismo no meio cristão do Poente.

Nossa separação Ciência e Igreja é uma construção histórica, na passagem das gerações de intelectuais em seus meios, escolas, academias, indústrias, sermões, discursos políticos, espaços de poder. Virilio: essa separação é um processo contemporâneo à emergência da Grande Mídia (cheia de poderes teocráticos sobre o que é a verdade), e da emergência da Grande Administração (seja “empresarial” seja “pública” seja o que for, a difusão das máquinas burocráticas como grandes rituais de obediência, a papelada...); contemporâneo à inauguração dessa autoconsciência moderna, ocidental, racionalista e vitoriosa no planeta; contemporâneo de revolução francesa e universalismo ao lado da industrialização de massas; do metro, da arqueologia...

Alguns “problemas” que vemos na Ciência de hoje e suas limitações, têm sua raiz nessas grandes separações antigas entre o Real e o Sagrado. (Latour)

“O problema da geração é, por natureza, um problema pluridisciplinar que concerne tanto os médicos, os filósofos e os teólogos; assim o foi na Idade Média”. Concerne os economistas também, fascinados com os bancos e o ‘dinheiro impresso’; há também a genealogia dos contadores e financistas por toda essa época, e suas usuras estéreis, a proibição do juro...

“A medicina se ocupa da gravidez e do parto, da esterilidade, das doenças reprodutivas e venéreas; ela tenta também explicar o mecanismo físico e fisiológico da concepção e o desenvolvimento embrionário.

Os filósofos “da natureza” (espécie de biólogos da época) se concentram, por sua vez, sobre essas últimas questões (os mecanismos da concepção, o desenvolvimento desde embrião até corpo) e as estudam na geração humana sobretudo no horizonte da zoologia; todos os seres vivos incluem-se na competência da Zoologia, definida por Aristóteles ao chamar de vida a alma.

A teologia, por último, se interessa pela geração em relação com problemas como origem da alma, transmissão do “pecado original”, encarnação ou concepção imaculada (veremos muitas outras).

Ainda que não as estudem pelas mesmas razões, não se concentrem sobre os mesmos aspectos e não chegam sempre às mesmas conclusões, suas discussões têm muitos traços em comum: se dedicam às mesmas questões clássicas, citam as mesmas autoridades, textos e opiniões; e aplicam o método de argumentação e apresentação.”

Devemos lembrar que este debate se dava através do método de ensino e produção e difusão de saber da escolástica, no qual a reencenação do debate é muito repetida (como se os bárbaros se agarrassem aos ínfimos grãos de lógica que se haviam reproduzido naquelas palavras, e os repetissem para que a Razão, acima deles, se visse lentamente estendendo seus braços (abrindo-se em dedos) pelo mundo: o conhecimento (conascimento) como a forma descendo à matéria, racionalizar, enformar o mundo). A questão é que as raízes estão crescendo, raízes ou veias? Estradas da alimentação mineração agricultivo urbanizado; É uma imensa placenta o mundo moderno, a fecundação da mãe-terra pela semente (do mal?): eis o mundo de hoje. Vai haver filiação, é claro. Passaremos do mito idade: a humanidade conceberá a sua concepção, adicionando-se, criança, à sucessão natureza-barbárie, futuro. Da origem longínqua, pela idade média, pela idade adulta agora no novo: passaremos do 3, para o 4. Sim, porque vivemos o império do 3 como inconcebível; o ponto de cruzamento entre os dois traços da cruz. A data zero, o início da contagem dos anos; a autoria; o ato fundante; o livro, o “está escrito”; a palavra profeta; a verdade revelada; o 3 da criação.

(ela me disse: a questão de afastar os demônios é importante, porque muitos se entranham no corpo, e ficam – são as dores. Sobre as “bads” e os medos “de delirar e perder a razão” que me acometem com essas leituras que, sinto, ainda são afins à minha pesquisa em economia – eu, que não vejo separação entre os campos “Arraial! Arraial!” não há cercas: "Vento, deus da paisagem") (na tábua de esmeralda: “o sol é seu pai, a lua é sua mãe; o vento o trouxe em seu ventre; a terra é sua nutriz e receptáculo”)

A evolução dessas categorias “científicas” ou pelo menos “lógicas”, que enraizaram-se no vocabulário daqueles homens durante seus “seminários” (semeamentos) de escolástica (herdada dos árabes e do oriente; sempre partilhada com judeus e todos que iam-e-vinham); a evolução de todo o jogo de palavras e do uso aceito que delas se tinha, utilizadas nos argumentos e debates em torno do “princípio de geração” em seus diversos contextos de discussão – esta evolução apoiava-se na discussão dos “limites” de tais conceitos. Como delimitar analiticamente as bordas, os critérios de diferenciação entre casos, através do estudo de casos limite.

Nesta arquitetura de “existências” (que depois será “empobrecida” na passagem para o mundo dos biólogos&arqueólogos) o milagre é só um caso extremo, mas existente, do acontecimento raro – já de todo modo bastante inexplicável – como o nascimento de fetos mal-formados, os “monstros”. Teoria do monstro. Teoria da grande doença, da grande podridão que nos ameaça. Teoria da morte.

As gravidezes miraculosas de Maria, é claro, mas também de Santa Ana e de Sara; a questão da existência da procriação no Paraíso; ou mesmo a criação de Adão e Eva (que podemos considerar como uma forma de “geração”, assim como toda a Gênesis aparece)

Os anos de 1220 a 1240 são particularmente fundamentais porque veem a tradução (do árabe) das obras zoológicas de Aristóteles; seguem-se nas décadas seguintes os nomes como Tomás de Aquino, e o surgimento de novas escolas de medicina escolástica (na itália)

A “escolástica” engloba a totalidade dos textos teóricos com alto nível de tecnicalidade, escritos para e por especialistas (se distingue das enciclopédias, da literatura didática, das pregações, da historiografia, etc.). Ela reflete suas escolas urbanas, universidades e conventos das ordens monásticas mendicantes; onde os mestres explicam (o verbo é “lêem”)  textos de autoridade (é a “lição”) aos quais adicionam comentários escritos enquanto acontece o debate – que também utiliza formas canônicas quodlibet ver a Suma Teológica de Tomás de Aquino – e daí às tradições de comentários, nas quais os “autores” da época, enquanto passavam a limpo novas versões dos “debates de argumentos”, procuravam dissimular sua contribuição (também para evitar a censura).

Não se trata, nesse livro, de analisar a evolução de ideias populares, entranhadas na sociedade; mas sim a evolução destas concepções do seio de uma pequena elite através dos séculos, no topo de onde seria edificado o edifício científico, e onde até hoje repousam as igrejas.

De há muito se conhece a influência da teologia especulativa na história da lógica e das ciências da linguagem; pouco até aqui foi dito sobre suas influências na biologia e medicina, as ciências da vida.

Para Santo Agostinho,... p16

 

Pois bem, bastando essas notas, o trabalho do livro já parece feito: vemos o parentesco entre as questões, reabrimos a caixa de pandora. Até aqui, tudo bem; espécie de interesse filolófico na origem do pensamento.

Mas o fascinante é que, na teoria dos demônios, estejam tantas respostas. E estamos tão desacostumados a frequentar essas paragens da metafísica, que bordejar o abismo ameaça o delírio (como falar de Merlin profeta? como falar da origem da doença, é vírus? que é a doença? que é o fim do mundo? como falar do oriente, como sair da razão (e talvez voltar))

A história do alfabeto está apenas começando.

Na verdade, o surgimento do digital nos ofusca o que é a função do meio.
O papel é simplesmente o antigo meio, e carecemos de nos lembrar o que é o meio.

A revolução no mundo do surgimento do papel e suas tecnologias, da escrita e o que ela permitia: desde obeliscos informando séculos de peregrinos a versão exata da pedra, aos assinados bilhetes com o sinete ducal para as tropas em guerra, até os vitrais e afrescos que traziam a imagem e a simbologia: meios, como a língua da voz, como o som de um bicho. Meios.

A mensagem – essa cópia, simulação do mundo, só de informes – senhas, caminhos, ordens dum sistema nervoso de pulsos – a comunicação pelo meio.

O homem manda uma mensagem de corpo para a mulher, e ela faz filhos. Daí Hermafrodita, Hermes-Afrodite. O homem é mensageiro mercúrio mentira, a mulher é venérea venal venerada vênus. Sem mensagens, o homem é a verticalidade; a mulher a horizontalidade. Na mensagem – o cruzamento – ele é horizontalizado, e ela verticaliza.

É que nos viciamos na simetria, sem perceber a desigualdade. Cada divisória aponta um dos lados como pólo atrator, o outro, pólo expulsor. A divisória mesma, ela é terceira; perdemos a simetria.
O homem e a mulher não são simétricos: como não são simétricas duas retas que se cruzam.
Horizonte e vertigem: do horizonte os corpos usinas árvores flores, a terra se abrindo em água. No céu a intermitente luz. As estrelas e cinco delas que se movem contra todas já tão quietas.

É preciso construir essa descrição como um rio que deságua no inexplorado. É justamente sobre isto: sobre o infinito. Sobre o infinito que achamos conhecer, mas só porque o julgamos finito. Como se soubéssemos dizer “infinito? É isto” e apontar o infinito.
Apontar a origem da linguagem, a origem do gesto de apontar, a origem dos gestos; fazer um gesto sobre a origem. Sobre a origem e sobre o meio.

O conhecimento e o meio

Se estamos certos, na doutrina matrilinear, no pan-paganismo (a ciência não é atéia, ela é a-pagã: ela oculta a origem) da universalidade do antropomorfismo metafísico; e os limites do patrilinearismo vulgar em abarcar a gênese e o infinito;

Tudo matéria de linguagem, toda a forma em que se comunicam as matérias – que também é de matéria, pois tudo é matéria, até pensamento entre orelhas – o que nela intuímos ou cremos ou acreditamos crer indiretamente no implícito: que não seja material; a alma, o espírito; o tempo; as ideias sonhos o amor, o terror, o vazio.
Felicitamo-nos muito de haver inventado um dia formas de dizer o zero, o vácuo, o vazio.
Confundimo-nos. A patrilinearidade, a deusa mensagem (no francês mensonge é a mentira) as formas do falso.
jamais deixamos o paganismo
aliás
não existem senão paganismos.

doutrinas teólogas
da filosofia do deus
só jogam espelhos

só existem paganismos
a alma inteira nas almas
o céu é dentro da terra

só existe o paganismo
multi panteatralidade teísta
a divindade pluriviva

de símbolos a diábolos
as luzes estão vivas
têm corpo, olhos

olhos nos olhos
o dia e a noite
o pai e a mãe

o pão e a mão
amor e a morte
o nu e o que viola

dioniso reencontrado
era apolo desde o início
o sol é feito de sangue

a terra dentro da terra
o sal alimenta
pelo paganismo
não como culto (ou sim)
mas como filosofia

martin

Solo cuando nos volvemos con el pensar
hacia lo ya pensado,
estamos al servicio de lo por pensar.

- martin

arqueologia pre colombiana

está bem (BEM!) o jogo cênico dos primitivos, mas e os medievos, os feudais ou mesmo os modernos, que impressionante eram seus líderes? seus... brujos.

90% das legendas do museu é: os monarcas da época abusavam de esoterismo para controlar os povos.

Queria ver discutindo o pressuposto. Ok há tumbas arqueológicas com um john e riquezas; e há relatos de caciques (?) nos tempos da Conquista mas... não há outras geometrias políticas que podem gerar tais túmulos pessoalizados e tais relatos escritos aliás por psicopatas do século XVI?
a linguagem poliniza
palavras são como abelhas

contra a economia

Pelo fim da economia.
Voltemos ao par autonomia e ecumenismo.

autoNOMIA
ECOnomia
ecuMENISMO

Já chega do ouro e seus matemáticos,
Façamos o império da mil-burocracia:
democrática-plutocrática-tecnocrática
mas sobretudo
AUTOcrática
autônoma de atores autores autoridades auto-economias

economia: é uma ideia ruim
nomia do oikos: é literalmente a "lei do patrimônioprivado"
a economia é o mando do lar  - essa usina-base da acumulação - em sua raiz agrícola, as estruturas fundiárias, as dinastias: a escravatura

pela AUTOnomia
a auto-LEI: a lei apropriada, a lei conforme,

e sobre esta, para não virar de novo autoritária
"Livre curso dos apetites também é uma escravidão
Somente a lei escrita, o acordo, permite
sermos realmente livres.
Liberdade será obedecer à lei que se escreveu para si mesmo
(Rousseau)

-

Economia?
Escolho outra Nomia
O Contrato Social.
Acho melhor do que estes seus papéizinhos numerados, me confundo se são ações ou votos, os vale-ouros-reais (parece uma carta de baralho, paremos com os jogos, fechem os cassinos, balbúrdia da loteria babel ).
Livremo-nos destas ideias e de outras paralisias!

retorno à Idade Média

a "Nova Idade Média"
- tese de que estamos retornando ao feudalismo bélico, bárbaro, brutal que sempre proliferou na história -
é alardeada como corajosa síntese conceitual,
e é somada cotidianamente a acusações/revelações de que:
- jamais saímos da Idade Média, nunca deixamos de ser feudos brutos e beligerantes da barbárie -

Mas o que foi? A Idade Média?
Senão uma profusão esquecida sob uma caricatura

*

e se a Idade Mídia já passou
e desde então perdemos contato, por milênios
mas ora estamos na reglobalização
remidiatização
aforismas:

a economia não é matemática: ela é matematizada.

a economia tem uma mecânica, uma física

fluxos mais ou menos operados através do Número,

- mas em toda parte vazando, escapando.

Poder de compra e de atração de riqueza,

- que se infla em papéis-cópias, e desalinha da própria distribuição de Número numerário feito de lastro-metal.

Numismática, a ciência das moedas. Numerificação do mundo, industrialização.

Errática circulação da moeda, em suas acelerações e ralentos, empoçamentos.

Contadores, contabilidade e os centros de cálculo e redistribuição jurídica
pois sim: limitados pela política-violência, ao sabor das modas-cultura, condicionados pela tecnologia-ciência:

o quê calculam?

direito de sangue materno

de uma corrente de mulheres transando com mulheres
e uma corrente de homens transando com homens

o cruzamento destas correntes faz bebê: é o sexo terceiro

*

umbigos são vaginas ao avesso.
se o cu é oposto da boca
umbigo é oposto do útero materno.

*

a vagina só liga
com aquele fiapinho de dentro das bolas, que jorra pelo pau

XX, XY
é o fiapinho que faz o umbigo vindouro ser
XX outra porta, outra vagina de onde saem umbigos; ou
XY um novo par de ovos de fiapinho (que é um beco sem saída na desumbigação vaginal dos corpos, mas, de novo, é o seu gatilho, o botão de ligar a usina)

*

matrilinear: a desumbigação para cima, linhagem do sangue
patrilinear: da faísca

A Carta Furtada

Nessa convivência com a violência, surgem esses hábitos curiosos, tímidos. Frequentemente, ao me imaginar assaltável, repasso mentalmente os meus pertences, esquadrinhando a bolsa, os bolsos, à pergunta se há algo de valor inestimável comigo.
E então vou elegendo - como criança a um melhor amigo, uma cor favorita - vem esta lista, a colocação: qual é o mais valioso que tenho comigo? Se o computador, ou celular, pelo óbvio? Ou um casaco muito bom e querido, um estojo; pra não falar numa gaita, um quebra-cabeça de madeira que eu mesmo fiz; um livro! documentos, sim, dinheiro cartão chave mas eis que me toma e os olhos arregalam da imensidão, da inestimação estimável: um caderninho!!! Precioso, meu precioso, cada vez mais prenhe dos meus rabiscos (a memória) tão querido em que amo me esfregar os olhos de novo e de novo e de novo... Que me dá alívio terminá-lo para parar de carregar tamanho patrimônio... Que mesmo então eu o tiro da mochila, do bolso e levo apertado na mão, exclamando: "Este, não levarão!"
havia uma imantação natural dada pelas roupas arrancáveis / pela nudez

dragões urinárias e cu-bundas sob cuecas-sungas-calças sob calcinhas-biquínis-saias

Aquilo, no corpo, sempre escondido dos outros e outras. E nosso acesso regular a banhos-urinóis-torneiras de conectar nossas corpos aos fluxos da água do água (cascatas-rios de chuvas de nuvens de mares: do vapor-orvalho, da humidade mofante, da invasão do seco; da fonte-chafariz de vida diante da sêde (o rompimento do silêncio, o oásis no branco

*

O mundo ao meu redor é um círculo de distâncias que terminam no horizonte. Este círculo, visto de cima, pode aparecer nos mapas (feitos das bússolas que apontam o centro dos ímãs, o pólo norte que é o eixo da rotação da Abóbada Celeste, a intuição primeira do Céu: o domínio dos astros Dia e Noite.)
Os mapas são feitos com lunetas, bússolas, cronômetros e rádios elétricos para se comunicar à distância. As fotos de satélite.
A Radiação-Irradiação elétrica é uma Novidade na história conhecida?
(...)
A fotografia de satélite foi primeiro alcançada subindo em balão, e vendo: medindo os ângulos do que dava para ver, medindo Gaia pela GeoMetria: leis matemáticas desde Pitágoras e as medidas harmônicas da música e os primórdios da Astronomia e da contagem das estações anuais.
(...)

O sistema de coordenadas x = y num espaço: a algebrização da Geometria Euclidiana não estava dada desde o início. Antes eram ramos distintos, independentes, e poder-se-ia até dizer: a geometria era superior à álgebra. Ramos da grande Matemática. A correspondência das equações X = y, com os pontos num plano geométrico, foi implementada por Descartes em meio a uma pesquisa sobre lentes ópticas e questões da física.
O metro foi inventado/implementado na Revolução Francesa (antes eram pés, polegadas) junto com o Litro e o Grama - uma velha demanda do partido universalista-iluminista (estamos falando das origens da tomada de poder do Racionalismo, da expulsão do Ocultismo.)

*

Todas estas questões Fundacionais da nossa compreensão conceitual do nosso corpo, de beber água, de desenhar um mapa e medi-lo pelo céu e pelas contas? tudo isto compreende a história da instituição de uma convenção justa, por vezes rompendo dinastias, heranças e herdeiros pela própria Guerra.
A História da Guerra, que inclui a guerra civil, a repressão, a polícia e o crime - e que deve ser contada, compreendida - é marcada pela contagem de corpos-trabalhadores, corpos-soldados, corpos-reprodutores e pela contagem de propriedades-comida, propriedade-serventes, propriedades-espaço e os Direitos de propriedade.
Dito isto, o funcionamento do mecanismo Patrilinear é digno de nota como Conceito Fundamental da reprodução natural das coisas.
Se, de todos os filhotes, eu castro a maioria dos machos, e o Reprodutor restante reproduz até nas fêmeas do vizinho, criando boa prole
e se nos mecanismos tradicionais de casamento havia uma tendência à concentração de famílias e gerações em poucos lares com condições de gerar e crescer a Prole; havendo muitos ramos estéreis ou apenas pouco enraizados na prolificação humana (padres, celibatários, titias, mães-solteiras, falecidos jovens...) retendo esta nuvem de Satélites-Criança (a próxima Geração) e Velhos/Incapacitados (e demais agregados como petis plantas domésticas carros jardins bem-cuidados)
A linhagem Patrilinear, que estuda as sementes e sua circulação de terra-planta-semente, sua prolificação regrada por oferta de Alimento (o Pão) obtido pelo emprego da Mão e colheita do fruto da Natureza
                 P            n
M mãe     M pai     M nascimento

Guardar as sementes. Roubar a colheita do vizinho. Plantar gravidez na menina virgem de parir.

(não consigo continuar, mas era pra falar da industrialização, a produção em série, o milagre da multiplicação, a superlotação do espaço; mutirão
para entender a etimologia do prefixo RE- é útil substituí-lo / traduzi-lo por SOBRE-
RE- não implica uma cópia mas uma intensificação
(verdade)
vício, hábito de olhar a história do mundo a partir dum quadro do materialismo, da grande acumulação, das cadeias de poder se espraiando cefalizações - sobre a matéria, desde objetos a territórios terras a pessoas corpos a animais a plantas a processos transformações etc.
eis que satura e se torna o automático, o confortável e que na verdade apaga o que está diante de mim.
aquela intuição, que tive do calar o interno o passado futuro a sistematização permanente aquela intuição, outra, de voltar (diferente) a um olhar do mundo como arte, de buscar o belo antes do funcional?
que é reencontrar um espiritual...
Se bem estejamos adentrando tempos nos quais as dualidades vêm sendo cada vez mais deslegitimadas, e haja um esforço constante - dentre as mentes comprometidas com um projeto de pensamento progressista - pelas categorias não-polares, na prática as raízes da organização binária penetram fundo, seja no concebido, seja no percebido. Poderíamos, inclusive, dissecar esta primeira frase em suas oposições antes e agora, nós e eles, comprometidos ou não, etc. até a própria estrutura "se bem..., na prática".
Dito isto, eu gostaria de iniciar esta sequência de palestras sobre o dualismo por uma das dualidades mais presentes no dia a dia da política: a esquerda e a direita. E eu gostaria, como primeiro passo, de assumi-la imediatamente como uma oposição de rumos: para um lado, para o outro.

costumo usar o argumento industrial: policiamento é artesanato, não é assim que se garante segurança pública numa metrópole.
mas quando falam da crise o argumento é genético: não podem todos poupar ao mesmo tempo, são círculos que se movem, é essa a natureza da abundância; não é linearmente que se chega a um fim, mas dando a volta e descobrindo o que está atrás do início
e daí voltamos aos argumentos industriais e vemos que eles são uma aproximação que perde o essencial: que não sabemos como se opera o salto do industrial pro divisível, para a simultaneidade de apostas que é o coletivo

o salto do individual pro divisível
do átomo para a anatomia
plano de uma obra de fenomenologia da economia, descrição e mapeamento simbólico das várias metáforas sobre o dinheiro e seu funcionamento, recolhimento de retalhos culturais, reconstrução de um imaginário trans-histórico
Uma fenomenologia: suspender todo julgamento e acompanhar os objetos e suas nomeações, descrever
jesus não existiu
não somos capazes de compreender "jesus existe" sem "a crucificação existe".
a única maneira de afastar essa crença fundamental de que deus está morto na cruz é compreender que não houve jesus. houve muita, muita coisa. mas jesus não.
no mais, jesus é uma criação editorial dos concílios patrísticos que selecionavam os evangelhos, e que optaram na alta idade média (por volta do século X, do ano mil) por um eixo narrativo, aos poucos se consolidando em oposição às mil genealogias de judaísmos perdidos, em expulsão dos cristãos gnósticos e suas catedrais e evangelhos apócrifos, os cultos marianos com raízes finalmente em eva ou ecos na madalena (vestígios da diana matrilínea). Tanta coisa pré-verbal nos vitrais coloridos daquelas arenas de reunião do povo analfabeto, quando não havia uma Igreja unificada mas proliferavam igrejas-mesquistas-templos e todo tipo de arena para trazer o divino e sacralizar sacerdotes.
daí a cristianismo: a ênfase no gênesis da subordinação da mulher nascida do ventre masculino, este sim feito à imagem do criador é a inversão materno-paterno; a unificação papal da roma que então demoliu todas as catedrais anteriores, séculos XV-XVII (a revolução anti-ocultista), limpando o imaginário - a memória coletiva - daquelas pinturas, das imagens sagradas (tão influentes, no correr dos séculos, quanto o hermético texto havia sido em seus papiros; ainda que duma influência mais perene, mais geral: dioniso-vernacular); a igreja romana como uma entre uma família de cultos da criança masculina.

jesus não existiu. não me interessam fragmentos arqueológicos de qualquer sujeito que existiu há tanto: isso, houve incontáveis, incontáveis messias, incontáveis vindas de divindades, incontáveis lutas.
Não me interessam os dados históricos transmitidos pelos monges. jesus é uma arbitrariedade para discutirmos o homem-deus sem filhos e a mulher subordinada.
Alicerce da cosmogonia patriarcal. Não houve nenhum jesus real, o que há são muitos símbolos, alegorias como todo discurso divino. O erro é achar que a cruz é real

Fermento

A vida é uma fermentação.
Animais são feitos a partir de fermentação de vegetal.
Em última instância, vegetais são fermentações de minerais na água.
Minerais -combustível -alimento -veículo -estrutura -catalisador...

*

Metais são minerais suscetíveis - como a água - à eletricidade.
A água é alvo das marés, chuvas-secas, a teoria do orvalho e a nascente do rio. "O ingrediente da vida". Correntes marítimas e meteorológicas dos gases (e umidade) na atmosfera.
Tudo está sob o Sol que se reflete na lua. As constelações giram no céu ao longo do dia, e também ao longo do ano; têm um eixo no pólo norte, no ártico, que é o centro do magnetismo que atrai todo metal.
Ímãs, eletroímãs e fios carregados de dados; o elétrico compõe o sistema nervoso; há um meridiano magnético no corpo.

*

Humanos são fermentações de animais-fermentando, vegetais-fermentando, minerais-fermentando, água. Mas há um "sopro" de magnetismo, do ímã dos sentidos-olhos (pois afinal estamos falando da luz, que os vegetais guardam para exibir no fogo, a faísca; o que distingue estar vivo, de estar morto

Latim

As línguas vieram de
- não um latim originário que se desmanchou -
mas um vetor P latim em bolsões M ao largo dos séculos (P via ciência-direito-religião+diplomacia) até a imprensa+alfabetização tornar o vetor texto vernacular (surgimento do estado-nação de anderson?)

MORPHÉ
FORMA

E se nossas letras, como no japonês, forem também ideogramas muito elementares? E se a língua tiver um sentido cru?

O Oriente-nascente do pensamento

O que martin quer dizer - quando elogia, no alemão, as raízes gregas - é que elas conectam a planta de línguas metafísico-abstratas de culturas desligadas do solo (o ocidente latinizado) às línguas egípcio-ciganas: o oriente
O ORIENTE DO PENSAMENTO

Em "O que significa 'orientar-se' no pensamento", martin defendia simplesmente o oriente: mover a metafísica ocidental em direção ao Leste, ao Nascente.

(paganismo antigo de chamar o norte de cima, eixo do céu meteorológico das estações, oposto ao ante-polo anti-ártico do perder-se de navio rumo aos mares do sul ou do extremo-oriente...)

Martin nos alerta para a "visão" por detrás das línguas... Que morfologias de raízes o português falado-alfabetizado não carrega?
"O que significa comunicar-se em nossa língua" era um texto-tema que martin sugeria/incentivava seus alunos a escreverem.

O coletivo é a soma das partes

Está certo que não existe o coletivo como algo além das pessoas; que tais padrões de comportamento emergem como arquiteturas relacionais médias, de geometria variável e reiterada; mas fato é que embora todo representante seja meramente um elo numa cadeia que só tem representados, o fato de fazerem referência e, mais importante, simplificarem para si tal cognição projetando todas essas unidades relacionais numa unidade maior, metafísica - o coletivo - não nos passa desapercebido.

Teoria da água

Rio é a água subindo, tanto que ela empurra tudo para baixo do rio.
Gota é: é uma água saindo de você, na verdade.
é que o copo meio cheio, nunca sabemos qual lado é o cheio: beber é na verdade engolir um vácuo, expelir a água que é a verdadeira fonte da sede: é ter água demais aumentando. A água que vemos é um buraco negro da não-água

Luz é líquida
A sede é uma luz líquida

Rios caudalosos com suas caudas
Humanos têm não-rabo, um campo de negatividade neuro-magnética no traseiro. Por isso são seres polarizados, a partir dos olhos e pele que recebem luz e das membranas que vibram som.

"Hoje plantei, isto é, retirei muita não-planta da terra"
Não há o objeto, há um ponto de não-objeto, que se move (só o dinheiro é a coisa mesma).

O que existe são espaços livres do que não está neles.
Meu corpo é onde está livre de não-mim; eu sou o ponto livre dos outros. Eu existo.

Minha pesquisa

No fundo, em última instância, minha pesquisa é aquela pergunta: quem escreve e que funções o papel escrito desempenha na sociedade. Que mecanismos podem ser articulados no espaço de representação do papel; que mecanismos podem ser articulados pela concentração de funções num objeto móvel, impessoal.
Desde a planta arquitetônica, ou uma lista de compras, a cartas, mensagens (o baralho é fascinante)
Cada vez que me vejo fascinado por um papel, seja uma memória, um bilhete, uma indicação, etiqueta, uma partitura, um romance, uma ideia anotada, um lindo desenho, uma nota caríssima, um calendário, uma escritura, ata, cosntituição, a bíblia... quase que exlcamo: voilá! hélas! zut! zut! zut! eis o papel: que fascínio.

Metodologia

Se todo conhecimento está em pessoas, em relações sociais, em trajetórias e discursos e posicionamentos e transmissões: como quadro de conduta (moldura) e transmissão (como estoque, e fluxo).
Sua transmissão, sua exposição, seu uso de material comum, sua abertura portanto a uma retroalimentação e influência na estrutura (moldura) ampla
Se o contato (pessoal) com a realidade, via moldura, é o que garante "verdade"
a moldura só se sustenta se permite as transmissões internas sem se romper. e as externas: bélicas
fiscalização do conhecimento
transformação de moldura.
uso (da moldura) como transmissão assimétrica: defesa ou ataque, blindagem ou tomada.

O estudioso como mensageiro de uma vanguarda


O estudioso como mensageiro: relatos de uma incursão guerreira, a própria Vanguarda: um mergulho – vindo dos humanos – um mergulho na natureza, na fonte, no mistério, não conhecido.

É esta a função da língua: a comunicação, a posição de símbolos como quinas, cantos, de um traçado caminho; a orientação de um mapa didático.

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Que é a didática?
A didática é a condução por um caminho – não como Império, mas como guia.

Uma arquia, não como monarquia única, como hierarquia moral, mas simples vanguarda, condutores do navio

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O estudioso: seria o estudioso um mito masculino?

Em contrapartida às marés do sangue das mulheres, o homem teria, na sua solidão, o contato com o papel.

E voltamos ao patriarcado