Relendo aqui as coisas antigas, abrindo a geladeira para retomar o restante do meu corpo, meu imenso corpo de sonhos. Quisera estar num projeto sem sentido, mais um delírio de publicar genialidades rompantes, jogar na cara das pessoas. Algo radical: quisera encontrar alguém que tivesse fogo, estupidez, ingenuidade, fraqueza para nos perdermos do que realmente constrói, fazendo essas travessuras. Quisera diversões, provocar a mente não pelo excesso repetido do dado, mas ao contrário, pelo inesperado 
lendo a mais recôndita memória dos homens, me imaginei escrevendo então algo um romance que revelasse às pessoas o dilema político cognitivo social que atravessamos. mais do que resolver o sistema, do que criar o vetor que fura o lençol, passaria a vida colhendo esse vocabulário, esse mapa, que então revelaria numa bela obra (e ela sim seria meu legado). de novo, voltar a mim indivíduo (e quero voltar) agora como cientista social mas mais, agora como escritor numa escrita que transcende todas essas fronteiras. num livro que narrasse a intelligentsia e os impasses (os metafísicos e os banais) da macroeconomia e da política e da derrocada do mundo por si mesmo, e que ainda pregasse com filosofia profunda, e com poesia tórrida. Que fosse uma vida bonita (que nem existiu) mas que virasse verdade na leitura dos outros.
aqui, escrever correndo umas linhas 
queria maconha, e transcender. abro um livro lindo, romântico, histórias biográficas aventuras. 
é tudo bem longe desse cotidiano inchando por dentro, as crianças crescendo, o trabalho amadurecendo.
vivo sob um Sol, meus filhos se chamam Sol e Paz, é uma clareza de superfície, em que não penetro em masmorras em calabouços em cavernas grotas profundas. Não optei por esse caminho, me pergunto se ainda vou decair para tanto, ou ascender tanto que chegue na escuridão além do Sol. 
Por hora tenho apenas isto: uma banalidade. Milionário, nem sou acossado pelo trabalho por sobrevivência, mas um trabalho uma armadilha, de tentar criar algo além de mim, algo maior. O coletivo é lento e cheio de atoleiros, posso gastar uma vida que seria um fósforo furioso na noite escura, tentando acender essa fogueira sem sucesso algum. Se acendo, se não acendo, enquanto isso me inquieto querendo fumar e sonhar muito, e querendo me encher de mistérios, trazer uma mítica metafísica, inflar simbolismo nessas equações tão cinzas. Por que a luta do mundo, a revolução maoísta, enfrentar o imperialismo, a enxurrada das redes, o simplismo: será que a resposta de fato, terminal, teria também o milagre e o ocultismo? Haveria uma conexão entre o Princípio Materialista, a poesia concreta, e a macroeconomia operacional em que tento adentrar, influir, compreender?