Hélio está muito gostosinho mesmo. Ontem adotei uma postura mais "com tempo", "sem objetividade" na sua refeição, em que ele não queria comer. Fazendo palhaçada quando ele pediu algo, lhe dei um copo, e daí botei água e ele virou tudo tomou um susto e olhou pra mim e eu olhei pra ele cúmplice e kákáká caiu tudo e aí pronto, enchi o copo e ele ficou de palhaçada pra fazer rir e rir. Bons esses momentos de comunicação, de troca.
Leis catafísicas (esboço)
Lei da ascensão (a força normal contra a gravidade)
- o impulso para cima que sobe as árvores muito retas
- a força de erguer-se do chão (o esforço de levantar um peso)
- o poder das alturas e seu olhar distante
- a proximidade do sol, e do ar livre (antena pararraio no topo do prédio)
(há a altura e há o erguer-se? dito assim claro que são um só. misturar nessa lei de um lado a montanha e o vale, e do outro a retidão da palmeira?)
- para onde as bolhas de ar sobem, de onde a água escorre formando poços de não-ascensão (não se cai, se perde ascensão - como um avião que diz estar perdendo altura)
- a criança que fica mais alta e alcança o olhar dos outros
Lei da conexão (o contorno)
- o que está contido num saco, sem furo
- o que faz parte de um só (e o que são dois)
- o ponto onde se corta a corda
Lei do ciclo
- o dia, a respiração, a fome
- a repetição das passadas em um caminhar
- nascer morrer por entre umbigos
nascer-nascer
nascer-nascer
morrer-morrer (são ciclos cruzados, são bifurcações dentro de um contorno e não varetas isoladas num feixe de spaghetti)
Lei do crescimento
- a plantinha, a ferida que cicatriza
- o tempo que expande e resseca
- o amadurecimento (na gaveta) das frutas verdes (a digestão, lenta)
Lei da massa crítica (a quantidade suficiente)
- o acúmulo reunido (conectado) cria um ponto de crescimento, ergue a cabeça acima das ondas
(e o gargalo?)
Minhas metafísicas concretas (catafísicas)
Sempre volto a essas abstrações metafísicas com base numa concretude total (eu realmente deveria ler Hume)
Como criar uma filosofia tão simples que seja autoevidente mas impossível de desver: uma organização útil
Quando procuro imagens, além de tentar dar sabor, leveza, beleza, busco ao mesmo tempo uma preocupação de aprofundar a própria pesquisa: não tanto uma questão de forma (a comunicabilidade, manter-me vivo no texto) mas também de conteúdo (a comparação é o fio de Ariadne, entrar na mina trazendo uma linha de luz e de telégrafo com a superfície) que por si só descobre novas conclusões, as quais por si só prescindem das comparações e invocam a necessidade de recomeçar o texto
Vontade de listar as coisas mais óbvias que existem: o sol, meu corpo, o vento, a fome e o sono, meu umbigo, a ascensão e o ciclo. E tentar reduzi-las a um punhado de princípios: uma forma de exposição, um fio analítico não como verdade subjacente que prescinde da superfície, mas como mapa mnemônico, atalho, regra de bolso ou do dedão (alavanca, dobradiça)
Impera a falta de um objetivo claro nesse projeto, e sua constante mas episódica, fragmentária, acumulação: chegará ainda a amadurecer para se difundir? ser lembrada, útil, ou parasita, grudada na mente dos outras?
Será eu com muita idade terei enfim versões filhas desse projeto que iniciei crendo que produziria frutos doces em curto tempo e que até hoje me intriga e fascina e talvez ainda por muitas décadas e eu inda esteja no início desta pesquisa, deste encontro? é o que parece mais provável, e então torço para eu ter vida, e tempo, e a mor para levar isto a termo, digo, a frutificações (filhos, bifurcações mensageiras.
Delegar, por uma divisão do trabalho (anotação)
Se a simples "delegação" parece impossível - PRECISO assinar tal coisa, receber por ISSO, é a função mais prestigiosa de que não quero abdicar - então quebrar essa função em várias; delegar uma parte apenas, mantendo a tal assinatura.
Em vez da hierarquia sim ou não, propor outras constelações: divisão das funções do trabalho, com diferentes prerrogativas.
Democracia ou federalismo (anotação)
Essa concepção quantitativista da democracia então só deveria se importar com China, Índia, sem ver muita relevância nas minorias ínfimas de países latinoamericanos isolados.
Contra isso, mais do que a variedade cultural (de que é difícil defender sua especialidade frente às massas asiáticas), temos a variedade de autodeterminação, a diversificação de Estados como um valor.
É preciso a PJ da terra, gerida coletivamente, a governança global - uma federação de países. Mas essa federação deve respeitar a autonomia dos países, irrespectiva da quantidade populacional.
Serres e as imagens
Serres insere as imagens em seu texto não apenas como comparação, ilustração para dar leveza, prender atenção, divertir, auxiliar a digerir - mas principalmente e sobretudo como aberturas que ele faz a uma outra interpretação, isto é: como momentos em que ele abdica de estar no controle.
E toda a questão é que o restante do texto, onde ele é preciso e esclarecedor (nos aspectos de precisão e clareza que percorrem seu texto e formulam regras úteis) tem de conviver com esse limite: estar em diálogo com a não-razão, o obscuro; sol em diálogo com a noite - e que não exclui a luz das estrelas (e o fogo).
Enquanto isso, na parte em que traz as imagens, elas também não são surdas ao logos - digo elas SÃO surdas sim, como estátuas, simplesmente existem de maneira independente - e não como a sombra, o exato oposto, a projeção que teria uma razão solar como sua inversão total, um sol negro, um buraco de breu.
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