O Rei está nu!


Tenho estado muito maluco. Procuro brechas para falar do Rei Sol que foi decapitado, a cabeça real guilhotinada junto ao capeta o capitão a capital cortada fora num corpo agora massa acéfala : capitalismo
A aLiança eLo Laço (...capitaLIs..) de uma correnteza metálica, os anéis de minério fundido pactuados de mão em mão desde a aurora da idade dos metais, as correias de aço trançadas entre tudo e que pesam como camisas-de-fôrça, grades de correntes (somos Jonas engolido pela baleia de aço, pequenos lobos encolhidos na barriga do Leviatã da Idade do Ferro)

O Rei está nu! o real corpo da razão que rege os raios, arraial da Luz da correção às lâminas. Cortado, decepado. Corte dessa nudez, decapitação do pescoço. Agora o Sol dos raios sai a viver proibido, longe da carne corpo, e entre os ombros temos apenas as razões raízes do vazamento. O corpo enxertado na abundância da terra, mas pelo pacto capital, anêmico, exangüe. O rei está nu e decapitado, régio corpo vazando um cano de sangue. Na boca do nosso Leviatã marinho.
Não queremos cortar cabeças, queremos reenraizar cabeças cortadas. A cabeça, decapitação dos olhos luz das músicas e da língua. Resta a cabeça repetida, cópia decapitada, e o corpo lobo quer morder o próprio rabo, preso no espelho-espelho da língua luz. 
O texto (textura da teia, tessitura de fala) é um alinhamento de códigos repetidos que forma a senha correta para abrir o cadeado das letras. Estamos num banho de palavra vazia, repetida, que não abre chaves, só ecoa acústica em suas vibrações, reflexos e sombras que nos ocultam o mundo. É o oceano onde nada a baleia mostro, lá fora de suas mandíbulas de guilhotina.
(toda fala é um jorro de luz de um objeto real sendo refletido e refletido e refletido até sair pela boca de um ser real, por isso não podemos nos perder nos espelhos)
Desejo do cobertor sobre o corpo, do engolimento: não ter a nudez, enxertar a cabeça num lençol de pêlos assexuados; vestir-se, estar já o corpo coberto pelas casas erguidas, por proibidos, barreiras e suas violações. A cabeça quer ir viver sem o corpo. 
Vemos os fantasmas dela viva sem ele, de corpos só corpos, cuja cabeça é negada, e as cabeças desincorporadas imperando sobre os corpos acéfalos. Capetalismo de capitães, de capitólos e capitais, da cabeça régia iluminada sem o corpo, e do corpo acéfalo vazando sangue pelo pescoço. 

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minha bandeira é esta: Éden e Regresso! Vamos recriar a nudez se aprofundando num paraíso anterior ao deus expulsor. 

Mergulhar nas partes baixas por inteiro, absorção do ventre no centauro inferior.
Outro dia andei pela rua nu, num evento permitido. Andava na rua tão vivo, presente, o corpo mais aguçado, a postura mais inteira; e colocar as roupas foi um fardo, pelo seu pêso e por onde puxam, nos moldam

Queria falar do corpo aranha, dos pés como pés de macaco que agarram as coisas e do umbigo têso centro dos quatro membros em arco. Um corpo só de carne músculo fibra feito um polvo com seus tentáculos e ventosas mas esticado por um esqueleto dos ramos de que as formigas são feitas, formiga dentro de polvo carnoso é a aranha, quatro membros mãos de macaco se cruzando num umbigo, músculos segurando o saco de vísceras roxas, o Umbigo-Boca e as teias (as mãos se conectam às coisas que enfiamos no buraco boca ou a canetas de teia preta no lençol). E a cabeça, dos olhos-brilhos, da língua, da música, que nós decapitamos
Vamos ao culto do Sol abundante e da Primavera, o céu generoso em fecundação com gaia através de Fauna e Flora, culto aos faunos sátiros e às ninfas da fertilidade
ebulição de vida em abundância de pólen para nascer mel, leite e mel jorrando do chão e borbulhando por toda parte: sopa da abundância, da geração espontânea
O rio de leite e mel por onde querem levantar represas geradoras de energia-luz (seus cortes, classes, côrtes decapitadas, nossos reis sem cabeça, é nesse mundo q vivemos. São reis decapitados que imperam)

da Lua

O sol me acorda me encosta a cara toda, quente, na minha pele e eu nem preciso abrir os olhos. Mas quando eu abro e lhe vejo todo amarelo, vejo também a lua branca, cada dia num lugar, lhe fazendo companhia. Olho para o céu, para a lua, e vejo nela uma praia, de areia branca. A areia lá brilha com o mesmo sol que na minha pele é quente. Se ela nasce com o sol já posto, no breu, adiantando um pouco a claridade do dia que virá, até na manhã eu vê-la, os dois no céu, ela espelho dele, cada dia mais perto - ela é minguante. Cada dia com o brilho menor, dormindo de manhã sob o dia recém-nascido, que ela anunciou na escuridão. Até atrasar tanto, nascer tão tarde, que nasce com ele, vira lua nova, sem reflexo de sol. Que na verdade está todo o seu espelho voltado a ele, e nada sobra para nós. A lua nova é preta, sumida escura junto do astro-rei, mas ainda é lenta em seu encalço, e no dia seguinte atrasa um cadinho suficiente para despontar, sorrisalegre, a curva branca em seu rosto redondo. Crescente réstia do brilho do dia que se põe, e que ela segue, indo dormir agora já no breu, cada vez maior e mais tarde, guardando a luz do dia que se pôs. Até a cheia, quando nasce no sol se pondo, domina a noite, rainha, e dorme no sol nascendo. À meia-noite, ela no topo do céu, quem a ilumina é o sol do dia posto ou já o sol do amanhã? Que dia é aquele que brilha sobre sua face? É o dia eterno.

***

A lua arrasta atrás de si as marés, e quando alinha ao sol, na cheia e na nova, traz a maré maior. Maré dos mares, e também, maré do sangue. Todo mês a mulher fértil menstrua. Nesse céu urbano tão apagado, com luz elétrica muita fumaça e tantos tantos comprimidos, os ciclos físicos se desalinharam. Mas fora daqui o céu impera sobre a noite, e a lua com ele. E a menstruação se alinha à lua, rainha da noite. É naquele grau de brancura que ela sangra, todo mês, e se a lua avança muito sem vir o sangue, ela se aflige do atraso. A lua é o relógio do vermelho.

***

Me contaram que as mulheres próximas menstruam juntas. Que o ciclo menstrual se alinha. Então lembrei daquela casa perdida no campo. Tiveram seis filhas mulheres, uma seguida da outra, até o sétimo filho sair homem, quando então o pai fugiu. Seis irmãs mais velhas, menstruando em uníssono com a mãe, ou ao seu ciclo se opondo. Guerra dos ciclos vermelhos, dos humores mudando, das homenagens à lua à fase da lua e ao marco vermelho. Esse caçula via a força do corpo e as manchas ficarem. E a lua, rainha, imperando sobre esse mês de torvelinhos, os mares agitados, as mulheres lhe brigando. Até a lua cheia, de tantos lobos uivando, o dia eterno sem ontem ou amanhã. Quando os limites se turvam. Maré menstrual de humores e sangue em sua casa, converge agora nele, foco da lua branca sem sol. Os olhos se invertem, o sexo dobra. O corpo desmonta em pêlo, acorda a fera, o lobo. A fúria fora, a casa cai, a roupa rasga, lobo, lobo, ele uiva à noite, o homem lobo da lua masculina.
Dentro dela fica assim: óuóuóuóuóuóuóu...
Aí vem o espermatozóide: vlvlvlvllvllvlvllvlvlv
essas consoantes entram dentro do pulsar das vogais e a palavra sai ÓVULO do feto fato teto tato teta.

Chamam o sexo caverna, a peluda, de aranha, a fenda no baixo delas. Buraco vermelho, onde entra o eixo terra, pináculo eixo, e o vermelho babão chupa e chupa até sair a teia. O outro buraco é preso, é buraco duro, é a contraboca da boca de cima, é a saída entrada de um dentro entre dois foras.

A mulher cresce o corpo, continuidade de corpos na gestação; o homem é teia, plantação de enxertos, fios etéreos entre a semeadura. A única prole dela é aquela que dela sai, enquanto ele prolifera; mas nunca se sabe, se é dele ou de outro, e se for do seu irmão gêmeo? Nunca se sabe.

Da Roma dos lobos, de Rômulo e Remo criados em tetas de loba, guardamos igrejas de latim dourado que vêem no homem uma vacina, que fura o óvulo baixo e insere com sua agulha a alma. A semente da ascensão.

Na linha matriarcal, os filhos machos são servos duma rainha de colméia, e tudo que herdam é dela. Vivam abelhas do mel, seu membro bunda grande balançando, ferroando, transando com flores vulvas e nascendo mel. Néctar. Ambrosia.

Mas nós proclamamos a igualdade, a simetria entre os fios e a carne. Realeza de ambos, ambirreal. Autofagia dos dois sinais em amor guerra. Díade magnética pulsando.

Fim da religião da esterilidade, da dominação da terra pelas sementes. Pela fertilidade universal.

Na República, propunham tirar de toda mulher sua prole, e misturar. Ter os filhas sempre soltos numa massa de crianças sem genealogia. Desatar todos os laços que ligam o sangue. A simetria reta.



 - Cunhados!
Famílias de parente, parentes de família! Irmã e irmão de esposo e esposa. Duas famílias em dois planos de parentes. O eixo é o 3, o Eu dobradiça, a balança do meio. Cunhados!
Vamos chamar Cunhado ao Sol, entre notas de arco íris e astros da semana: Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó Si Lá Sol Família Rua Mão Fome Sol Língua Sim Dois Ré Mi Fá Sol Lua Morta Marco Raio Venéreo Sabão Domínio Lá Si Dó

- Cunhados! Pela genealogia das consoantes. Pela metafísica das vogais. Cunhadas epas cunhados epas, Cunhadepas!

o A nas ruas

E li:
Sou há
ic
ai
cai ic
- Eu!
Eu ouço, e imito - Eu! - e somo, Eu some na soma que somos.
- Xará!
E ouço alguém - Xará!
E nos reconhecemos no uníssono da língua. A língua é una. Recortada entre bocas muros e o corpo em farelos. É um L, ídolo do Um, órgão do totem Um no corpo. A Língua é L, a una, deitada sob o céu da boca. O L sob o céu. 
Ele tem duas línguas, L e ele. O céu é dela, da boca. Ela tem duas bocas, ele, duas línguas. O 2 dos dois. A Língua na Boca. Ele Ela. O L entre o E e o A.
A Letra Ladra, quem morde é a boca.
Uma língua, o seu Um é Sêmen, soma, as sementes da língua semeando brancas. Germinando o um nas bocas de sangue, a cor corada, corpo cru, da comida ao cu, a cria, criatura. Cabou a bocabou cabou cabou cabô ca bo ca boca boca.

Gosto de A.
Sou suspeitopeito, suspensopenso
A É minha inicial de AndrÉ
De nome e sobrenome, e também deste também fim e também meio, o A três vezes de ArAnhA. O A 3 traços, cortados, em pé, duas pernas e uma boca de triângulo. A boca em pé, erguida, viva, não deitada como a língua mas em pé, a boca erguida alta como o som é grande.
Três cortes, três vezes, início-fim e meio na pAlAvrA ArAnhA.
Por isso gosto do A escrito nos muros, como ídolo. Ela. A. O A da língua, no corpo do muro, ídolo. O muro é o corte no corpo do céu. Todo muro é teto sobre horizonte. Cadeia de montanha. Todo muro é morro bem morrido do céu sob o solo, altura do solo e o sol escuro. Nali a boca, o buraco. Todo corpo é muro com bocas, e a casa é caverna. E nos muros pintaram o A por toda a cidade do Rio, e eu rio. Como um novo astro pintado no horizonte muro dos olhos. Ela. Do A eu gosto, sou suspeito sustopeito.
Lhe vejo dentro, no centro, o A atravessa o círculo do O, o O cortado em desordem em nome do A das três fendas sobre pés, e a boca ao alto. O 3. Ela na língua.

A palavra não está funcionando. Quero-a simples, direta ao mundo, me apontando. Eu de leigo, devia entender. Não a torre de marfim do isolamento, sem síntese entre nós, sem a língua verdadeira, que se vê. Quero a que ressôa nas bocas, viva, a linguagem que flutua e age, ligada ao mundo de sangue de suas bocas e das bocas de sangue. As bocas de baixo que falam através do sangue, não só as línguas brancas das torres que se conectam pelo céu vaidoso.
Está certo que subam nas abstrações de luz. Mas é preciso descê-las ao som, cair ao que é real, ruína, rua. A realeza da realidade. Ocupar a ruína do ruído, descer ao solo sob o corpo da língua, buscar o sol sob o céu deitado. Não quero ouvir a distância, o vácuo. Quero uma fala sincera, uma que esteja ali, viva em seu corpo. Dentro de uma boca viva que se diz essa língua duma língua que fala de sua boca. Que vá longe longa mas que volte, que se só for não basta me leva fora do corpo e não me traz, é o nada. E fora a fera fúria. Ou se só volta desce em mim como língua do céu raivosa, e eu cortado. Quero a língua que decola e pousa, sobe ao céu e se deita no solo da noite. Que vive na boca fechada, que ressoa. O avião vivo decola e pousa raízes na terra. O mergulho no ar calado.
Parei de ler jornais. Eles não me traziam o real rido, a rua da língua realizada. São conversas de outros, lá em cima, que me deixaram ouvir. Jargão. A altura das torres brancas. Sem sangue, o sangue está cá embaixo. Em cima cabeças a falar e jorrar sua teia falada. E nós o corpo a terra vendo muros e tudo plano, os pés no liso de rodas, degraus de muros deitados. Larguei o Globo, que me dizia falso a rua, era muito papo entre os narizes oficiais da abstração. Jornais do nada. Quero o papel presente entre os corpos, os corpos presentes entre as línguas.

Alga Atrai André Aranha

Os três porquinhos

Era uma vez, três porquinhos. Vocês conhecem a história. Eles constróem umas casas ruins e se dão mal. Mas vamos do início. Eram três porquinhos, jovens, e cada um escolhe um jeito de construir seu lar.

O primeiro porquinho parece preguiçoso, junta umas palhas e pronto, tem sua casa fresca no meio do mato. Ele deita na rede, dá mergulho no rio, chama curumim pra brincar. Ali do lado faz a horta, de agroecologia, fica amigo dos seringueiros, trabalha bambu, homeopatia. Toma chá e canta, faz curas e entra no profundo da terra. Eis que cai a noite, e vem o lobo rosnar na frente da casa de palha. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" Ele não abre não, que não é bobo. Seriam os grileiros? os garimpeiros, os lenhadores? Essa terra é minha! e dela eu não saio. "Então eu vou soprar e soprar". Ele suga o ar com um ruído horrível, e então sopra, como um tornado. E o tufão dos lobos arrasa tudo que encontra, e a aldeia se desfaz sob o vento da destruição. O porquinho da palha foge atrás do segundo porquinho.

O segundo porquinho já é menos ecológico, derruba umas árvores e monta sua casa com tábuas de madeira, um barracão em cima do morro. Trabalha na fábrica e faz churrasco no fim de semana. Toma cerveja, come carne. Cultua a dança e a música das suas raízes do outro lado do oceano. Joga capoeira. Recebe o primeiro porquinho, porquinho do campo, e eles ouvem funk. Mas o lobo mau aparece, agora dentro de um trator. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" E o porquinho funkeiro não abre. Não passarão! "Então eu vou soprar e soprar" Vem aquele ruído horrível dele sugando o ar, e de novo, o vendaval arrasa tudo que encontra, e das casas não sobra parede em pé após a passagem dos lobos. Os dois porquinhos, um índio, o outro negro, nesse nosso mito de criação, fogem atrás do terceiro porquinho.

O terceiro porquinho, os materiais que ele usa, a gente nem sabe de onde vêm. Será que ele constrói aquilo tudo sozinho? Tijolos, telhas, alvenaria, massa, cimento, caramba. Atrás daqueles muros o lobo mau não pode chegar. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar". Ninguém responde no interfone. "Então eu vou soprar e soprar" e ele até sopra, e sopra, mas o edifício do porquinho resiste, ele é uma fortaleza muito boa contra o furacão dos lobos selvagens. O porquinho da palha, e o porquinho da madeira, exclamam então: "Que maravilha essa casa, onde o lobo não consegue entrar. Não quero mais morar na aldeia distante, feita dos cabelos do mato, nem na favela perigosa, com puxadinhos e tantos e tantos vizinhos. Chega de índios, chega de quilombos! Quero morar no condomínio gradeado, com câmeras e ar-condicionado, isso sim, isso é a segurança que quero para o meu lar!"

O porquinho do tijolo, todo rechonchudo debaixo de sua cartola, sorri satisfeito. Esses porquinhos vão lhe pagar um aluguel bacana, e para consegui-lo, vão trabalhar no seu novo canteiro de obras, ali onde era a favela do segundo porquinho. Vivam as remoções para interesse arbitrário. Nos campos longínquos, a água, a floresta, e a terra do primeiro porquinho agora servem às fábricas do porquinho do dinheiro. Ele sai de casa, e encontra seu amigo lobo, e os dois saem abraçados e rindo, caminhando para o horizonte, em meio à fumaça e ao rastro de destruição.

Assim que a fábula dos três porquinhos traz implícito tanto o mito brasileiro das três raças, índios, negros e brancos, quanto um marxismo, camponeses, proletariado e capitalistas. Que seria o lobo mau senão a colonização num plano, a acumulação primitiva no outro? Mas, não sendo em si nada disto, sendo fábula sobre porquinhos, é ainda algo mais sutil, e que revela uma tríade imaginária de casas, lobos e vendavais. Qual a moral da história?

Feminilidade

Nessas andanças eletrônicas, topei com esse estilo pornográfico, o Femdom, female domination. Fiquei logo interessado, seria uma pornografia anti-machista? A exaltação da feminilidade poderosa em sua dominação sobre o falo? Meu imaginário se acendeu com vulvas vermelhas e oleosas, mas ao fazer a busca, nenhuma novidade. Metade dos vídeos é mulheres com paus de borracha dando pancadas em homem e penetrando seus cus, a dominação feminina através de um proto-falo; nada que viole a lógica do culto do falo onipresente na pornografia.

A outra metade dos vídeos, no entanto, se aproxima daquilo que eu buscava. Face sitting ou alguma palavra chave estranha assim, com a mulher esfregando a vulva contra o rosto alheio, ao seu bel-prazer. Aí sim, a vulva rainha, seus sucos e cheiros invadindo, dominando o homem, me parece a inversão da dominação. E agora revelo porque isso me atrai com uma curiosidade de desconstruir o mito falo. Havia este livro que conheci da boca de uma mexicana tarada que exaltava certos cheiros específicos do suvaco, em detrimento de outros, e ela numa alta noite me contou a seguinte história.

Jodorowsky o poeta chileno do teatro-pánico, dos filmes e quadrinhos como cirurgias simbólicas no inconsciente, era jovem quando uma Reyna D'Assia lhe encontrou e "sua pele, intensamente perfumada, me provocou uma espécie de loucura. Deixei que me tomasse pela mão e me arrastasse até a rua a entrar num táxi." Ela rápido está nua e os dois em coito, mas antes que ele comece seus vai-e-vens ela exclama "Alto!"

- Não te movas. Quero que sejas o eixo de minha paixão.

As suas pernas o envolvem num laço apertado, suas mãos tomando-lhe em domínio de todo o seu corpo, culminando em que "as paredes de sua vagina tremeram cada vez com maior velocidade. Dando vertiginosas contrações, se converteu em uma luva trepidante. Em meio a essa tempestade muscular já não tinha mais como me mover. Dentro em pouco meu sêmen a inundou."

Filha de um grande guru versado nos ocultismos marginais, ela treinara seus músculos a ponto de redescobrir técnicas eróticas há muito tidas como perdidas em nossa ideologia. Após séculos de ascensão patriarcal, história denunciada por Oswald de Andrade e a antropofagia e exaltada pelos psicanalistas idólatras do superego, a mulher é educada desde pequena que o falo é poderoso, ativo, vital, e que elas levam entre as pernas um cesto semelhante a um pântano, sem outra possibilidade de ação que ser preenchido pelo semeador de esperma. Se assume como dado que a vagina é um órgão passivo.

Restam no entanto pistas dessa força venérea oculta. Desde pompoarismo a cenas de filme com lançamento de bolinhas de ping-pong, surgem brechas na simplicidade da dominação fálica. A contração pode bloquear a penetração inteiramente, ou intensificar o gozo. A história daquele livro segue com a maga demonstrando esses sopros e contrações até culminar:

"Por último, sentada como uma rainha, com os joelhos muito separados, após uma longa absorção de ar foi expelindo-o para produzir um ruído musical, entre metálico e orgânico, que me recordou o canto das baleias... Fui atravessado por intensos calafrios: as sereias! o canto das sereias! que atraía os marinheiros para fazê-los naufragar nos mares, era o canto de suas vulvas..."

Creio nessa exaltação da mulher, seus cheiros, ferormônios, perfumes, seus gozos, suas menstruações como vitória sexual contra-machista, desfazedora do falocentrismo; é uma vitória do gozo, da idolatria da mulher (tão perseguida nos evangelhos). Meu corpo é fálico não é venéreo, e aqui sou um homem falando de mulheres ou citando homens falando de mulheres: é que faz falta o anti-machismo masculino amante da vulva, faz falta reinventar este desejo para um mundo de liberdade amorosa. Como dizer isso, sem reificar uma moral heterista, que vê os casais homo como incompletos?

Lembro então o Aristófanes num banquete platônico, e aí vale lembrar que a Grécia via assembleias masculinas elitistas e olimpíadas do corpo apolíneo em amálgama a bacanais de Vênus Artêmis "vinda do Oriente, do Leste, do Nascedouro do sol" em carnaval de poderosos escravos e mulheres como rainhas da colméia e cultos a Diana-Dionísio o vinho os venenos e a batucada feiticeira (vale lembrar que a Grécia não era renascentista, não havia passado um milênio caçando bruxas e era prima do matriarcado egípcio de Cleópatra). Aristófanes fala de humanos anteriores de três tipos, duplos falos, duplas vulvas e um de cada, até que o raio divino os separou - estas metades agora buscam se completar, em memória aos três sexos de outrora.

Lembro também o final de Emanuelle, quadrinho do Crepax: o mandala vitruviano do garoto penetrando o homem penetrando a mulher, em tríade de lótus aberta.