A fila tem que ser muito apertada, só as lacunas de quem foi ali e já volta, de resto um aperto e a tensão constante, tantos coágulos inchando sem explicação.
Hoje levei o computador para cortar o cabelo. De princípio, ele recursou, mas o convenci com promessas de fios novos, trocar a pilha do mouse, passar antivírus a noite toda dando ok, respondendo aquelas suas perguntas todas direitinho, pra ele ver que estou prestando atenção.
- Gosto quando a impressora fica se lambendo, chupando a dentadura, perdida em pensamentos...
- Gato é tipo um celular: precisa dar atenção, cuidar, senão ele te sacaneia
- Filho é tipo um celular caro, com muitos aplicativos
- Celular é tipo um carro né? uma geladeira
- Minha avó é tipo a conta de luz, mas você, benzinho, é a tampa da minha água mineral
o avião não voa; nada voa
santo newton brinca com as chaves da gravidade

não há leis, só  máquinas sussurrando
o cérebro de einstein pulsando em formol

não há vento; a grama tem músculos próprios
e a festa chega ao auge
com a entrada do PM (triunfal)
para delírio dos convidas
"estão todos presos"
e eles o erguem numa cadeira
como num bar mitzvah
MERCADOR DOMÉSTICO
DOMESTICA MERCADORIAS
Hoje, a bela música, conhecemo-la de máquinas: um botão e fios para o som sublime. Os instrumentos são nada, são nosso artesanato, frente à perfeição dos auto-falantes; e os músicos, deles diremos: são tão bons, são quase tão perfeitos quanto a máquina!
Quando a vida dos homens na Terra já não tiver semelhança alguma com esta que conhecemos
Quem ensinar o homem a voar, deslocará todos os marcos para longe e a Terra passará a ser chamada: a Leve
Contra a televisão. Contra o cinema. A imagem deve ficar PARADA.

Pela fragmentação. Seremos descontínuos como o tempo digital. Os antigos tinham ponteiros, nós saltamos entre números: é a memória estroboscópica.

Tesouras. Tesouras. Tesouras. Tesouras.

Infidelidade do público. Mas não há picadeiro. E o verbo publicar nasceu da metafísica do autor. Transcendência da arte eterna, isolada, amputada do corpo. Seremos materialistas. Pelo lixo como produto universal.
"eu queria retirar os deuses das coxias"
ainda bem que tem televisão no consultório, no elevador, na fila do banco, na rua! como eu ficaria informado sobre os psicopatas? sobre as exportações de milho? sobre os mais atualizados boatos e disse-me-disses sem nexo? ainda não recebi propaganda suficiente! mais, mais marcas nas roupas! outdoors! panfletos! lambe-lambes! pôsters nos ônibus, cartazes, anúncios a cada esquina - eu como vou saber viver? como poderia descobrir o que é bom para mim sem a ajuda desses especialistas dedicados?
Gostamos do som do carro sobre o macaco: Bravo! Bravo! E, cheios de amor para seus donos suados e sujos de graxa, furamos emocionados um segundo pneu, esperando o bis com lágrimas de agradecimento.
- Que show maravilhoso! Vamos tirar dinheiro dos músicos para que toquem mais vezes.
Para o peixe, a represa é a nascente: o furo de onde vêm as águas. Os furos - mas se o peixe os salta, encontra um lago, um rio com foz nas pedras. A represa é igual à terra em redor e no fundo, onde a água penetra escondida. Entre duas represas, o peixe vive entre foz e nascente, em um rio largo, empoçado, que desagua em pedras iguais às de onde vem.
Na grande barragem porosa o movimento do rio tenderia a sumir, disperso em mil origens e destinos mínimos; terminaria a corrente, restando apenas a umidade transmitida.
Talvez a barragem prenda certo corpo d'água, que abandona o fluxo para quedar-se ali, imóvel e não simplesmente ralentado. Esta água petrificada poderia então germinar.
O corpo d'água se move por inteiro, de bocado em bocado, ou tem partes ligeiras correndo por sobre camadas de água sólida? Ou ainda, tem partes de água que giram em torno de si mesmas, sem avançar? Talvez a fôrça do rio sirv em grande medida para pôr em movimento estas rodas d'água, torvelinhos, prisões do líquido engalfinhando-se consigo mesmo. A represa faz o rio girar, dar meia-volta desorientado; ela espalha a indecisão nas águas - que é o lago senão uma hesitação na descida? Ou mesmo - no caso extremo - corpos líquidos que ora se recusam a descer.
Eliminada toda sorte de transpiração, a represa não passaria de um enorme saco apertado, onde o rio incha e esguicha.
Mas a represa ralenta as águas, ou as acelera?
Ela corta seu embalo, e se a água jorra veloz, segue ainda à mesma vazão de antes, descontados os aumentos de transpiração. Mas vejamos:
Se é veloz o curso d'água; se o furo jorra de grande altura, e o líquido corre por planícies inclinadas, ganhando em velocidade; se a terra não lhe impõe obstáculos, conduzindo-o por valas lisas da pedra mais polida; se mesmo o vento sobra de jusante, formando ondas ainda mais pressurosas que a própria correnteza que se forma abaixo; se mesmo os peixes e animais não oferecem resistência, mas impulsionam a água em sua descida; então o leito do rio será estreito e afiado; o rio será ele próprio magro e certeiro, ansioso por desembocar; o corpo d'água não guardará mais do que alguns goles por braça de terra vencida, e pouco espaço haverá, submerso, para a vivência dos seres aquáticos. Ao contrário, se as águas correm lentamente por sobre planícies com declives mínimos; se as margens se desfazem com facilidade e atolam o leito curvilíneo; se o vento não faz outra coisa senão criar torvelinhos e desvios de rota; ora se as condições são em tudo opostas às que acabávamos de descrever, então teremos enorme corpo d'água pesando sobre seu leito, alimentado por nascentes mas indeciso quanto ao rumo que tomar; gordo, preguiçoso, esquecido de seu destino final; lar de incontáveis espécimes aquáticas e de todo tipo de flora que prolifera nestes ambientes.
...Ao erguermos a represa, vemos que ela não é um muro impenetrável, mas um desvio, uma obstrução: a imposição de um trajeto mais sinuoso, menos direto. Mas não! Não nos importamos aqui com a forma, com a figura, com o tracejado que o rio deixa em seu passar: se sinuoso, se direto, se longínquo, se pequeno. Tomamos o rio como um percurso d'água envolto por uma imperceptível membrana elástica, que por ora selaremos a toda forma de transpiração; e procuramos encontrar os bolsões, os inchaços, as estrias que deformam, incham ou esvaziam a consistência do corpo rio.
utopia sem olhos ou som: há dias abandonado neste breu surdo, conhecer formas, tamanhos, gostos; não imaginar-lhos, reconhecendo no escuro heranças do mundo visível, mas finalmente estar no mundo enquanto razão cega e surda-muda. fim das Luzes e da Música: silêncio das fossas abissais, sem voz, sem sol - mas já basta de discorrer o negativo: queremos os sonhos, os amores tácteis! rir e amar entregue a estímulos de contato, de cheiro e sal.
princípio: primeiro:
a separação das frutas dos livros

as pêras, muito maduras
romperam a casca e lambuzaram tudo
(meus livros, guardados à eternidade)

por isto, retirar as frutas do saco
(limpar bem tudo
fazendo uso da água pura)

o dois: cobrir as frutas
protegê-las, guardá-las
seja das moscas, atraídas pelo perfume
seja dos outros,
dos olhos dos outros,
cobiçosos de semelhante banquete.

templo onde só entram as idéias impossíveis
princípio da sempre-contradição
rigorosa
sonhar a nudez

emitir estes mapas do delírio puro
enraizar a loucura e colher frutas tontas
caospir carossos voadoras
as casas produzem gente
gente produz lixo, saco plástico
o supermercado produz comida
a fábrica produz água
a terra produz árvore
a barriga produz fome
a boca produz banana mastigada
que produz barriga cheia
o vaso sanitário produz cocô -
se tiver uma bunda grudada nele -
grudada numa barriga cheia
a terra produz praga
o quarto produz poeira
a roupa produz sujeira
tudo termina no aterro
no cemitério
no fundo do quintal
no sótão
que incha
que incha que incha
que incha
que incha que incha que incha
rio é tipo um vazamento
na fábrica de água

menelau! reorigem!
pegar a garrafa de água mineral e virar seu conteúdo no chão, sacrilégio, desperdício, viva, viva, a água jorra da fonte, não nasceu nas garrafinhas
lixo é algo que morreu
você queima, afoga, enterra
vela é tipo televisão
"vou ver vela"
programação perigosa de dormir
(problema é o som
cinema-mudo era bom)

vela é um radinho de pilha
lareira a talevisão
fogão um computador
despertador, microondas
lâmpada do sol aceso