Pesquisando revistas acadêmicas para publicar meus artigos. Quero tentar não ser tão crítico, quanto mais criticar tanto o grupo em que eu mesmo quero entrar. Mas... não consigo. Vou falar 2 coisas só.
A primeira é o foco esquisito dos estudos. É um retrabalho infinito, uma superposição desmedida. Parece aquele teorema do eleitor mediano, em que os políticos vão todos se aproximando do centro e fica uma mesmice, porque basta ser levemente prum lado que já capta todo o eleitorado mais extremado, sem incorrer no custo de desagradar o resto... Análises sobre federalismo nos anos 1990, sim, e sobre a renegociação das dívidas de 1998 (meu tema), sim. Mas, é exatamente isso. Não há análises a partir dos 2000, não há análises sobre outros estados. Diacho, não há nenhuma análise divergente: é a mesmice interpretativa. A grande vitória FHC (não haverá algum outro artigo, identificando essa obsessão elogiosa da estabilização, cega a tudo o mais?) em 1998. Vão às vezes num detalhismo cronológico até 1998, e aí dispersa. Vitória. Não se estuda nem 1999, nem nada mais. E aquela tara com a repressão estadual, a tônica (o mais heterodoxo é dizer "ei" e só, bem reativo, acusando exagero mas sem defender propriamente). E ainda, no caso dos bancos, só São Paulo, Rio de Janeiro, e tá bom, já ficou "local" demais.
Penso numa academia racionalizada, planificada, em que os estudos seriam distribuídos de maneira mais sistemática. Bem, você terá que estudar o estado seguinte, bem, você terá que estudar o quinquênio seguinte, bem, você terá que defender o ponto de vista seguinte. E avaliar o pesquisador não tanto pelo conteúdo genial que ele escolheu, a sua mensagem política sagaz, sua percepção das cuestões centrais... mas mais por como ele desempenha seu papel mão-na-massa, de enfrentar o preenchimento das lacunas. Menos artista, mais operário; menos indivíduo, mais artesão.
Bem longe disso, no mundo real, estou relendo isso aqui e rindo que eu mesmo vou exatamente no mesmo tema, no mesmo período, pentelhar o povo no terreno deles. Também eu não quero me perder publicando sobre as manobras escusas do estado de Santa Catarina em 2004, ou Pernambuco em 1997... Não, vamos falar de temas gerais, temas maiores! E me consolo, dizendo que já estou introduzindo bastante ruído.
Segunda coisa, é minha ranzice contra econometria. Que grande perda de tempo, os duzentos artigos provando e desprovando a relação entre dívida, inflação, câmbio, etc. Dessa vez com um modelo mais novo! Dessa vez com o teste de Quilguins-Watkinson dobrado. Penso numa academia racionalizada, em que os dados seriam reunidos, e um debate iria sendo acumulado, listando prós e contras, acumulado, sem dispersão, concentrado, coordenado, confluente... Ah. E não essa "bagunça" (me perdoem, cardeais) de cada revista com o seu resultado, uma sabe que gasto público dá crescimento, a outra sabe que não dá e ponto e fim...
E mais. Cá com meus pensamentos sobre "equações simultâneas" ou qualquer nome para endogeneidade entre as variáveis observadas. Se o gasto gera crescimento, como provar isso, já que mais crescimento traz mais arrecadação que permite mais gasto, e tudo anda meio que junto. Daí vem o econometrista empolgado fazer o quê? De onde ele vai tirar a informação para provar a "causalidade"? Tem informação pra isso? Tem informação sobre o "grosso", sobre o "núcleo" da causalidade, ou só sobre as margens, só sobre estados excepcionais? O que eles podem realmente fazer com seu jogo de vetores e esquimbau? Tirar leite de pedra é, na verdade, impossível. Imagino, ignorante que sou, se esses testes todos não são ficar olhando os ruídos, os atritos da relação causal, as pontas soltas, os pequenos desvios; e deles tentando dizer a relação como um todo. Meu gasto aumentou 10%, o PIB 9%, eles vão ficar fritando nesse 1% de diferença; no outro ano o gasto caiu 3%, o PIB 2%, está provado que o gasto é neutro em relação ao PIB. Sei lá o que fazem... Se prestam a esses testes? Se houver uma defasagem... enfim.
Imagino um passo atrás em relação ao econometrista, e antes que ele comece a desfilar seus modelos lindos de Chicago e United States of America e London School of Economics e Sciences Po e muitos centros do saber renomadíssimo com todas as condecorações aristocráticas meio proletarizadas desse universo acadêmico bizarro de publicações infindas e inúteis, antes de tudo isso, eu diga, simplesmente: você está demitido. Não tem informação, no mundo real, suficiente para qualquer análise puramente estatística. As variáveis estão misturadas. A resposta é teórica, e ponto. E a auditoria dela é histórica e comparada, institucional, e muito complexa; deveria ser feita institucionalmente, coletivamente, produção séria, moderna, e não essa palhaçada artística da inspiração do intelectual X que vocês amam e que fica produzindo essa ciência barata, charlatã, com todos os ares, com nenhuma sistematicidade, com nenhuma racionalidade, com nenhuma utilidade em termos de construir o mundo certo. Seus idiotas.
Enfim, quero nesses próximos 1-2 anos me aventurar na macroeconometria, aprender a fazer esse debate a sério e não com base em fantasmas, mas é isso, sem muita ilusão das respostas que podem sair da máquina. Cara, vocês estão drogaditos com ópio, vocês ficam masturbando a ideia de que a matemática é a panaceia, quando não é, não tem solução fácil! não tem cheatcode porra, a economia é histórica, institucionalizada, e muito difícil de interpretar caralho. E vocês rodando modelinho americano, ah vai se fuder. A historiografia tá que é pura lacuna, as séries de dados ninguém padroniza, e a galera gasta tempo apresentando mais um paper que diz que político é safado. Porra. Vamos trabalhar a sério gente. Matemática, em seu lugar. Eu amo matemática, uma ferramenta linda, mas não consigo chegar a usar, porque todos os que veem nela Deus gozando deixaram/apagaram todo o trabalho que deveria ter sido feito antes de usar a matemática. Enfim. Sou muito chato mesmo.