Notas de viagem

1. Outra diferença com os concretos. Sinto uma atração, uma necessidade mesmo, de admirar tipografias e publicações antigas. Descobrir como eram as letras antigamente, como evoluíram. Treinar desenhá-las. Fico sorrindo muito de ver a palavra "wir" escrita "vvir", literalmente, ou o trema em "zurück", que é uma absorção de um "e" antigo, de fato escrito com um "e" em cima. Uma letra "k" impossível de entender. Treinar ler o alfabeto gótico. Ficar admirando as lindas maiúsculas floreadas, e os arroubos de floreio de certos documentos, com espirais desenhadas que me suspeitam ser testes da caneta, se isso faz sentido... Os bilíngues francês alemão com o alemão em fonte gótica e o francês em fonte românica, daí Jerome de um lado, Hyeronimus do outro (ou seja, Gerônimo). As letras a mão ilegíveis. O poder das assinaturas, ou dos carimbos. Os quadros que mostravam ricos, com sacos de moedas, uma balança para pesá-las, e sacos de papelada... que papelada era essa? As leis dos reis. Editos. Os passaportes, contratos de casamento, leis aduaneiras. Tabelas de conversão de peso e de impostos. Recibos de impostos. Manifestos. Instruções para missa, para a moral cristã. Os primeiros códigos civis publicados. Um par de quadros cômico, onde um mostra meninas pálidas lendo ávidas um romance; e no outro as mesmas meninas entediadas ante a leitura monótona de evangelhos morais. Os sucessos de venda: a reforma de lutero, os romances... O caso do livro de Werther que deu tantos suicídios.

2. Num quadro da revolução francesa, a procissão enterrando o antigo regime traz à frente três musas: uma era a justiça cega, e a terceira, no canto, trazia um estranho triângulo. Outro quadro da justiça a mostrava com uma balança de precisão "de maçom" pela igualdade. Maçons... identificados aqui e ali, confrarias (que me lembram templários, ou ordens católicas), ou mesmo os judeus ortodoxos. Mas estranhos esses maçons, maçonaria que é a palavra usada para alvenaria, pedreiros... Com martelo, espátula de cimento, compasso e régua. Daí à história das guildas poderosas... até se impor o capitalismo de "fábricas" onde o trabalho é robotizado e afluente. Mas as de construção se mantinham bem. E no lado soviético, uma ênfase ao compasso, desde a bandeira, até a reforma agrária. A justiça, é uma lei da medida, com régua e compasso de arquiteto. Maçons, guildas de pedreiros. Mas e os judeus sem poder trabalhar? Relegados a fazer penhor, a financismo... mas isso é só uma elite... grandes fluxos alemães para a norteamérica (a declaração de independência foi publicada em alemão em poucos dias) mas foi a frança que derrubou os ingleses. Há o museu dos gays também, que mostra há em anos uma cidade livre ao amor masculino, capital tolerante.
Esses lampejos de sociedade secreta despontando na história, mas que se misturam umas nas outras, não são realmente provas de conspiração, mas mais que há coisas que não se dão em público. Profissões. Eixos que correm pelos fundos.

3. Retratam sempre a reforma religiosa, ou os fins dos privilégios aristocráticos, como uma coisa de baixo pra cima, com melhoras evidentes. Revoluções boas. A chegada da razão. Os Estados universais fundados, com igualdade perante a lei, e a sagração da propriedade como direito absoluto.

4. Fiquei triste ao ir na Grande Sinagoga de quase dois séculos. Foi uma das maiores da Europa, linda, linda, toda moura de arquitetura. E por dentro tinha arquibancadas longas, para até seis mil pessoas - e lotava, era disputada! A vida judaica enchia salões e teatros... E foi defendida dos nazi, por um policial que muito honraram, que conseguiu convocar bombeiros contra seu incêndio. Até os bombardeios do fim da guerra acabarem com ela. Pois só reconstruíram por fora. Há um pequeno quarto de oração, mas não voltaram à glória antiga. O que querem dizer com isso? Com não levantarem ela de novo? Há sempre dois policiais em frente a ela. E na entrada, portas blindadas, e uma inspeção rígida do detector de metais. Mas que linda a Torah, aberta entre dois rolos de pergaminho, em seu alfabeto quadrado, e curiosas anotações a lápis nos cantos.

5. Um quadro de homenagens a mercúrio, mostrava mercadores europeus e chineses, sua pele clara; oposta a escravos, todos de pele negra. E nas guerras nacionais, os alemães mais odiavam eram as tropas coloniais dos franceses, que faziam bebês negros.

6. Nacionalismo, uma estética recente, de divisões nítidas, convergência de estados, exércitos, legislações e moedas, por cima de comunidades linguísticas, ou tudo mais que iam alinhando para si: contos de grimm, história, imagem de que são uma só família (raça)... Tão insuflado nas guerras, e os cabeças manipulando, surfando, como se fossem eles os mandachuvas; mas era algo do povo sedento dos alinhamentos... Nisso vi um asterix traduzido pro alemão, e percebi que gauleses não são muito distantes dos outros bárbaros. O Carlos V acho unificou toda a franco-germânia...

7. A germânia: eram muitos protetorados independentes, bispos com poder de principado, conselhos municipais, às vezes mesmo paróquias autônomas; o Império era alguns grandes reinados, ducados, e uma miríade infinita de pequenas entidades não comparáveis. Daí a força dessas grandes cidades em alinhar o resto, tragá-los em sua força, rompendo o antigo regime em tudo, padronizando, desde a servidão, as leis do campo, os pesos e medidas, a moeda... E o disparo da revolução mecânica, do vapor, da ciência industrial... Eles tomaram a França e impuseram tributos altíssimso que lhes deixaram ricos (enquanto aqueles chupavam seu mar de colônias) mas no tempo nacionalista, as crianças tinham aula na escola já com mapas, quadros do país, real portanto.

8. E antigamente, que os reis cunhavam seu busto em várias cópias para distribuir aos amigos, reforçando que sim, eles existiam... frágil presença que podiam impôr.

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