No fim o que me atrai talvez seja, para além da filosofia política e as descrições de Utopia... é que o personagem principal é um teórico, que vive se envolvendo em mil peripécias, mas ao mesmo tempo está ali com sua teoria anotada em papeizinhos. Gostei da cena dele com o bebê (é claro) em que ele fica declamando para a filha suas teorias, suas grandes sínteses; talvez eu pudesse fazer isso também. Não tenho uma grande teoria, uma fórmula matemática, a não ser talvez o MP de que fiquei desenhando símbolos lá nas praias Baniwa. Não há tanto um caminho uno, uma árvore; há um solo muito fértil, todo permeado pelo rizoma do pensamento; e ideias que fico reencontrando, e alinhando, e tentando juntar, canalizar; mas toda hora descortino então um novo campo, o canal anterior permite acessar uma nova aceleração, uma nova escala, e o solo está cru ou há uma planta velha no lugar e sigo digerindo, mastigando as raízes e semeando, mastigando a terra e fertilizando. Sinto a atração, sim, de fazer uma imersão, de trazer todo esse processo a um foco de aceleração intensa, solitária; pôr ao limite minha mente nesse mergulho. Imersão que não está no horizonte próximo, eu, imerso em mil atividades; coletando, germinando, distribuindo. Crescendo. Um projeto, então, de grande envergadura, que necessita uma maturidade muito ampla: para falar de política, para falar de ciência, para falar de... tanta coisa. Mas quem sabe, o doutorado irá pedir um momento desses, quem sabe o que consigo tirar daí? Ainda assim, para uma filosofia tão funda, parece ficar fora das demandas cotidianas - e aí me imagino velho, aposentado, livre da vida mundana, pública, finalmente enfrentando os dilemas filosóficos profundos. Consolo falso, esse, que sei eu da velhice, mas certamente não é uma idade complementar.
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