Para o peixe, a represa é a nascente: o furo de onde vêm as águas. Os furos - mas se o peixe os salta, encontra um lago, um rio com foz nas pedras. A represa é igual à terra em redor e no fundo, onde a água penetra escondida. Entre duas represas, o peixe vive entre foz e nascente, em um rio largo, empoçado, que desagua em pedras iguais às de onde vem.
Na grande barragem porosa o movimento do rio tenderia a sumir, disperso em mil origens e destinos mínimos; terminaria a corrente, restando apenas a umidade transmitida.
Talvez a barragem prenda certo corpo d'água, que abandona o fluxo para quedar-se ali, imóvel e não simplesmente ralentado. Esta água petrificada poderia então germinar.
O corpo d'água se move por inteiro, de bocado em bocado, ou tem partes ligeiras correndo por sobre camadas de água sólida? Ou ainda, tem partes de água que giram em torno de si mesmas, sem avançar? Talvez a fôrça do rio sirv em grande medida para pôr em movimento estas rodas d'água, torvelinhos, prisões do líquido engalfinhando-se consigo mesmo. A represa faz o rio girar, dar meia-volta desorientado; ela espalha a indecisão nas águas - que é o lago senão uma hesitação na descida? Ou mesmo - no caso extremo - corpos líquidos que ora se recusam a descer.
Eliminada toda sorte de transpiração, a represa não passaria de um enorme saco apertado, onde o rio incha e esguicha.
Mas a represa ralenta as águas, ou as acelera?
Ela corta seu embalo, e se a água jorra veloz, segue ainda à mesma vazão de antes, descontados os aumentos de transpiração. Mas vejamos:
Se é veloz o curso d'água; se o furo jorra de grande altura, e o líquido corre por planícies inclinadas, ganhando em velocidade; se a terra não lhe impõe obstáculos, conduzindo-o por valas lisas da pedra mais polida; se mesmo o vento sobra de jusante, formando ondas ainda mais pressurosas que a própria correnteza que se forma abaixo; se mesmo os peixes e animais não oferecem resistência, mas impulsionam a água em sua descida; então o leito do rio será estreito e afiado; o rio será ele próprio magro e certeiro, ansioso por desembocar; o corpo d'água não guardará mais do que alguns goles por braça de terra vencida, e pouco espaço haverá, submerso, para a vivência dos seres aquáticos. Ao contrário, se as águas correm lentamente por sobre planícies com declives mínimos; se as margens se desfazem com facilidade e atolam o leito curvilíneo; se o vento não faz outra coisa senão criar torvelinhos e desvios de rota; ora se as condições são em tudo opostas às que acabávamos de descrever, então teremos enorme corpo d'água pesando sobre seu leito, alimentado por nascentes mas indeciso quanto ao rumo que tomar; gordo, preguiçoso, esquecido de seu destino final; lar de incontáveis espécimes aquáticas e de todo tipo de flora que prolifera nestes ambientes.
...Ao erguermos a represa, vemos que ela não é um muro impenetrável, mas um desvio, uma obstrução: a imposição de um trajeto mais sinuoso, menos direto. Mas não! Não nos importamos aqui com a forma, com a figura, com o tracejado que o rio deixa em seu passar: se sinuoso, se direto, se longínquo, se pequeno. Tomamos o rio como um percurso d'água envolto por uma imperceptível membrana elástica, que por ora selaremos a toda forma de transpiração; e procuramos encontrar os bolsões, os inchaços, as estrias que deformam, incham ou esvaziam a consistência do corpo rio.

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