Era uma vez três porquinhos. Três suínos rosas, de bunda rechonchuda e rabo de mola, uma tomada no focinho, três irmãozinhos na fina flor da idade, saindo do chiqueiro de dona Porca e querendo cada um montar para si um lar.
O primeiro porquinho desde pequeno assistia muita televisão, comia doritos, fandangos, chiclete, coca-cola, mas isso não tem nada a ver com a história. Foco, isso aqui é um estudo arquitetônico! Esse porquinho era meio mala, caxias, puxa-saco, como que a gente pode sacanear bastante esse porquinho? Ele mui espertamente pegou um crédito na Caixa Econômica, antigo BNH, em novecentas trilhões de parcelas para passar o resto de toda sua porcaria pagando, mas não se abalem! Porque com isso comprou tijolo, madeira de lei, móveis arrojados, pregos, corda de varal, em suma, tudo que porquinho precisa pra se imortalizar. Esse porquinho era arquiteto, fã de arranha-céu e de babel. Fez uma planta magnífica, com fossos e torres com jacarés, observatório astronômico, boate e cinema privê. Agora era só botar a mão na massa... Como? Ora, basta contratar a firma de construção Lupus Lupus S.A. e fazer vista grossa às condições de trabalho, aos porquinhos favelados tomando porrada em barracos de pau.......
O segundo porquinho acordou com uma sede de sangue ferrenha. Esse tinha brincado desde pequeno com arminhas de brinquedo, bodoque, arapuca pra passarinhão, fazia maldade com as suínas e jogava comida fora. Olha aquela mata virgem verdejando ali por todo o país, olha! Ah, o progresso. Madeira de lei pro irmão rico, quanto mais alta a árvore mais bonito o tombo. E ele levantou pirogas e casamatas, castelos verdadeiros, abriu a Mata a Mata Inc. e cortou tudo quanto é folhinha no seu pasto. Gado, destruição, esse é o nosso porquinho do desmatamento. Que família. Passar tacando fogo nas ocas dos porquinhos selvagens, e cantando vitória do lobo mau, quem tem medo, quem tem medo, quem tem medo do lobo mau...
O terceiro é a síntese final, o porquinho que virá. Revoltado com os irmãos e seus imensos totens da devoração feitos de minério arrancado e derrubamento de floresta, ele recusou os símbolos de plástico e foi viver com os restos da civilização material. Foi além das empreiteiras, do asfalto e do crédito consignado. Aprofundou no ôlho do mato. Vestido de cabelos de árvore, um porco de guerrilha. Trilhar o caminho do guerreiro contra a paz de destruição velada. Não é o porco da vitória falsa que ergue torres com trabalho escravo. É o porco que germina deuses do além-máquina, o animismo reencontrado como chave da retirada dos véus. Inda está no embrião, e muito lobo inda reinará em falsos tronos. Mas deixe estar. No passar dos séculos é ele quem desenha pouco a pouco os contornos do lobo, para despertar a cegueira dos seus irmãos.
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