Notas do corpo móvel

Precisava aprender a viver encaixotado. No mínimo, a dormir encaixotado e acordar revigorado. Tornar-me um monge em tal harmonia com o corpo que pudesse redescobrir em mim o feto. Volta a um útero quadrado, por vezes torto, desigual, mas eu transcenderia os desajustes adaptando meu formato. Bastariam algumas respirações para abandonar meu eixo e entregar-me ao novo desenho do humano: com encaixes retos, assimétricos, inspirados na elegância das gavetas, das pernas das cadeiras, e na lisura (utopia) das rodas.

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A viagem de trem é um tanto rápida demais. Até certa velocidade sinto-me correndo, passando por paisagens velozes; mas a esta aceleração onde as margens do trilho são pouco mais do que um borrão, sinto-me num canal recortado do espaço, e o vidro da janela se aproxima a vídeo ilusório, a um reflexo de espelho (eu não poderia abri-lo como janela sem receber na cara um turbilhão violento e praguejar, cego e ensurdecido pelo ruído). Como no carro poderoso o automóvel dos sonhos no asfalto liso a cento e quarenta números da autoestrada do futuro que anula a distância e estamos viajando no vazio apenas os insetos de repente explodem no vidro e não adianta pára-brisas ou chuveirinhos que eles precisam ser esfregados com força para fora da transparência nua do maravilhoso mundo da razão instrumental.

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Escolha andar sem a sola grossa do sapato nivelando teus dedos, o arco do peito do pé na trilha de terra e grama sem lisura de asfalto e pedra polida feitos para as rodas que você não tem.

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