C é U

Era um amor como nunca se havia visto. Se preparem que vai dar calafrios. O amor devorante dum casal que nunca mais se quer separar. Afinal quem come quem? Mergulhadas nos olhos um da outro, mãos entrelaçadas, os peitos se completavam numa respiração maravilhosa: quando aqui inspira aí expira, e parecem fundir numa carne só. Numa carne só - que gostoso seria. Para além de qualquer desejo de ser o mesmo. A fusão carnal nunca bastava, desejavam mais. Corpos que se completam numa medida que parecia ultrapassar toda lógica. Nada de almas gêmeas, o caso era mais de duas metades de uma alma só, que sozinhas não são senão a falta e o desejo da outra metade...
E com estes pensamentos elhas trocavam saliva com sede, e beijos sugados. Quando de manhã abriam olhos e não queriam outra imagem a não ser a pupila alheia, cair no espelho-espelho do olhar que entra nos olhos. E de carinha colada levantavam cegas ao resto, ir no banheiro, tropeçar, cair e se ralar no grude. Já falamos do respiro ritmado, diafragma colado. Imitar bocejo, num eco feliz, repetido e repetido só pelo gosto de ser bocejo da outro. Chupar dedos da mão, do pé. Enquanto dorme, brincar no corpo alheio. Dar comida na boca, beber água. Se vestir, engraçado, todas desajeitados, entrar na mesma roupa, siamês. Chupar os gostos de baixo. Líquido que o corpo faz, fosse semente, fosse sangue de mês. Se desse leite tomava. E mordida mesmo. Pra deixar marcado, já viram o Kama Sutra? Só fala de mordida, arranhão. Hematoma de amor. Chupão. Mas na nossa história, elhas num pararam.
Sabe-se que a amizade em graus febris pode levar as companheiros a pactos por meio dos quais fazem-se cortes nos dedos um da outro e os cortes são aproximados, ligando o sangue para sempre. Mas o amor de espíritos se traduz num abismo de assimilação e fusão no corpo amado. E o casal divisou um rito que poderia aplacar sua ambição insaciável. Parecia havê-lo visto nalgum texto antigo, hoje ignorado pela fria cultura do amor virtual, sem a fome táctil que hipnotiza.
Pois bem, era então aniversário de seu amor e véspera de uma despedida prolongada, e durante o sexo, quando os corpos ofegam por tornar-se um, num coito terrível enfiaram-se os dedos mínimos um na boca da outro, e no baque do clímax, gozando corrido os dentes fecharam na carne amada para engolir e serem engolidas uma parte de amor no dentro do ser.
A cicatriz e a falta daquela parte compensavam por haver agora por todo o seu sangue e carne um toco exatamente igual do corpo amado preenchendo-lhe o dentro. Aquele gosto brutal... Nossa história poderia parar por aqui, e se somar ao rol das expressões extremadas de amor, na fronteira entre o delírio e a adoração. Mas isto seria ignorar o fato mais pungente nesse caso, que este sim os tomou de um furor faminto, pois ao se reencontrarem, o casal só tinha um pensamento: prosseguir na mútua devoração, no ser devorado e no devorar do corpo amado. E uma vez que o amor prova o gosto do sangue, mas mais ainda, uma vez que o corpo sente-se acuado ante a avidez amante, e só pode responder-lhe na medida em que vê naquela avidez a sua própria, refletida e multiplicada como espelhos travados de fronte um ao outro, onde não há mais predador nem presa mas um contínuo voraz de fomes sanguinolentas, aí não haveria instituição moral que os impedisse de continuar.
Pois quando tocavam os tocos vazios de um no outro sentiam vertigens amorosas que lhes atravessavam por completo. Pois assim que refeitos, se escolhiam os artelhos do pé, ou pequenos nacos da coxa e da perna, subindo pouco a pouco, na gula dos presentes apaixonados, sem saber se queriam dar-se à comida ou provar mesmo a fome, sem perder-se no sangue de presas afiadas cortando corpo e amor de beijos provados. E passavam noites em núpcias procurando a parte que lhes caberia agora. Devorados os dedos, e essa fome implacável, prosseguiam portanto, e aos poucos tornavam-se deficientes, e as atividades físicas se dificultavam. Mas estavam ali, juntas, um para apoiar a outro e caminharem escoradas, siamesando-se tarados. A partir daqui nosso relato perde o testemunho fiel, pois o que sucede beira o desconhecido na experiência humana. Conta-se que seus corpos tornaram-se aos poucos duas metades amalgamadas num único ser, enlevado pela redenção de duas almas coladas, que se autofecundava e paria, amorosa utopia da devoração.

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