Curtia mais o benjamin franklin, época em que cientista era rock'n'roll. Saía de pipa na tempestade, com uma cordinha metálica pendurada no meio da linha, pra enfrentar a fulminação dos raios. Voilá o fio-terra. Neguinho provava tese de balística disparando canhão no inimigo.
Aí veio o Pasteur provar dentro de uma caixa que a geração espontânea não deveria ser mais discutida: tudo é esterilidade, só há vida se há sementes. A ciência dentro de caixas, com tudo controlado. Porra. Saía tacando inseticida em tudo, aposto.
O metro virou medida aplicada na revolução francesa. Marco do universalismo. Razão universal, homem universal. Sufrágio. Colocaram várias barras de ferro, de ouro, uma medida de água, uma pressão atmosférica, uma ao lado da outra, coincidindo num tamanho só, e definiram que esse era o metro único em que devíamos nos afinar. Com alguns desses truques, qualquer um calcularia o seu, imperfeitamente igual: mas a exatidão da medida única estava controlada neste porão, nestas barras e outros objetos, que, em seu cruzamento, definem a medida material da razão aplicada. Há portanto uma rede dessa medida totalmente centralizada (única) se espalhando no globo, que já havia antes, mais fragmentada, nas outras medidas de tamanho e distância.
O mesmo se dá com o litro, de água ou de gás, e o grama de vários pêsos. E o ouro, de quilates precisos, é uma régua exata para um Direito (um sistema fictício de palavras e sua hierarquia de autorias regrando o mundo) medir o menos-trabalho, o pagamento que a clientela vai dar em uma troca de servidão. Assim como o metro, o litro, o grama, estão em lugares específicos no mundo, definindo redes, o ouro está em grande medida estocado como eixo, lastro pesado de uma rede de papéis carimbados.
Finalmente, há pêndulos, e medidas de estrelas, fixando o que é o segundo, o que é o ano, uma rede do que é o tempo exato e universal.
A crença na racionalização nada mais é do que um erro de categoria.
Não há desencantamento. Nunca estivemos tão ignorantes de como são feitos tudo que nos cerca. O camponês sabe de onde vem sua comida - nós, nem isso. E o dinheiro parece o mais misterioso de tudo. Vivemos no mistério total. Nos vangloriando de telescópios e navegações, a um ponto de que já nem aprendemos a ler o céu, ou a navegar; imaginamos haver gente cuidando de saber de tudo, a mão invisível, o olho celeste; seguimos sem entender nem o pequeno pedacinho que ocupamos na rede.
Local e global são conceitos bem-adaptados às superfícies, ao conhecimento visto do céu, em sua completude terrena; mas inadequados para as redes de compreensão parcial, irradiações de movimentos-reflexo, cadeias de captação de estímulo; o mundo visto de baixo, do próprio mundo, em sua parcialidade fruto dessa origem do olhar: enraizado.
Leis científicas universais só mantêm sua aplicabilidade dentro de redes de medidas das quais não podem sair. Sua comprovação material sempre depende da comensurabilidade e por isso se assemelha muito mais ao acesso a uma malha rodoviária ou à conexão a uma rede de telefonia móvel do que ao desvelamento de onipresentes ideias transcendentais. Esses universais em rede produzem os mesmos efeitos de um universal absoluto, mas sem se basear nas mesmas causas fantásticas. Atingem quase todos os lugares sem que seja necessário ocuparem mais do que estreitas linhas de força.
Nunca saímos do plano local. Estamos sempre interagindo com quatro ou cinco pessoas. O mito das leis científicas universais se baseia num mito de burocracia sem alma e sem agente, junto a um de mercado puro e perfeito. Todo este capitalismo de cabeças inchadas sem mãos é um labirinto de redes um pouco longas que envolvem, de forma incompleta, o mundo, a partir de pontos que se transformam em centros de cálculo de lucro. A organização de uma grande empresa é um æmaranhado de redes, materializadas em faturas e organogramas, em procedimentos locais e acordos particulares, os quais permitem que esta rede seja estendida, que agarre um continente inteiro, ainda que não o cubra. Permitem que ela o retenha, mas não que o contenha.
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