A cozinha é um artesanato. Os alimentos não vêm prontos ao mundo. Não abrimos a boca ao céu e ela se enche de prazer. Mesmo a chuva cai pouquinha, só às vezes, não mata a sêde. A cozinha dá trabalho; é a mão que leva o alimento à boca. Naquele filme dos tempos modernos (Chaplin), o mais alto grau do absurdo é que seja a máquina a lhe pôr comida na boca, deixando-lhe as mãos tomadas pela linha de montagem. Partição do corpo-boca (seu lado interno) e corpo-mãos (sua externalidade). Vivemos esta partição: doar inteiras as mãos a um fazer desconectado dos nossos corpo e compreensão, e receber uma recompensa desconectada de todo esforço manual.
Da Casa Grande à Senzala, herdamos uma cultura de servidão e de pessoas bem-servidas, que mal estendem a mão para aceitar o cálice de vinho, que deitam-se nos divãs para receber as uvas que a criadagem lhes traz. Aquelas mãos a tudo carregam, e estas só ordenam. Mãos, que ligam o corpo em extensões, fossem ferramentas, armas ou finalmente rédeas, o dedo indicador do mando, conduzindo outros corpos.
O trabalho como submissão, represado de um lado do grupo, definindo a divisória: criadagem, e clientela. Corte que se reproduz em diferentes ângulos, através dos grupos e da história. Seja a pele negra a marcação, os sinais de casta, até o lugar da mulher. O sexo como barreira extrema, corporificada.
A mulher, mãe, talvez a segregação do trabalho mais antiga, que se diz calcada em necessidades naturais: há raízes da servidão feminina nos aparelhos reprodutivos. Aparelhos: são uma tecnologia, um fazer. O fazer da prole: dentro do corpo feminino.
Mãos, mães: a artesania primeira vem dos úteros que moldam o corpo novo. Arte de prazeres e dores, dos cuidados da menstruação, do controle concepcional, da gravidez e do parto. Mas há milênios que se impõe uma lei patriarcal. Daí herdarmos um obscurantismo aos cuidados da menstruação e de todo o corpo feminino.
O corpo mulher como passividade vulnerável: Após caçarem rezadeiras, parteiras e curandeiras que articulavam o parto natural, este nos chega através dos séculos como um perigo. E o corpo fêmea como frágil, vulnerável e turbulento, o mês menstrual de dores, o risco do sexo, frente à invejável constância e inviolabilidade do masculino. Herança de uma repressão ao culto dos ciclos e do bando, em prol de uma retidão única e estéril. O masculino vazio, que é a capa de saída de um alma; e o fêmea entrada, duplo baixo do vermelho. Às mulheres imposto o resguardo, confinamento no lar “pela sua fragilidade corporal”, servindo ao controle de sua procriação. Natal: ela dá à luz no celeiro, só com animais e um pai que distingue ser deus fecundando, tamanha a custódia que reclama sobre a sua virgem (ela dá à luz no celeiro, cercada de todos os escravos: e montamos o altar todo ano (coisa que interpretamos, ao encontrarmos presépios dentro das tumbas faraônicas, contendo trezentos e sessenta e cinco estátuas “animadas pelo sacerdote através do toque da boca” dentro das pirâmides, como culto da eternidade dos camponeses escravizados e seus chicoteadores... o egito foi realmente o inferno? dos reis-deuses animais? por quê ergueram pirâmides como eternas medidas da sombra do sol? em vez de só regozijarem o oásis-rio molhando o deserto em cheias e vazantes de fertilidade, delícia da agricultura). Para o pai garantir serem Seus os filhos (repetições de seu meio corpo), trancafiá-la na casa (casamento), na cerca da divisão que marca o início do patrimônio; ela então como matrimônio (os anéis trocados nos dedos) a mãe do casal real, senhora da doméstica família real. Cleópatra: a abelha-rainha sobre um reino de criados, amas, eunucos e soldados que lhe erguem a colméia do lar, mas que não se confundem com seu harém de zangões: patrilinearidade do pólen originário. Aos criados, resta o sexo das flores se fecundando, de que fazem nosso mel (néctar e ambrosia). (a colméia é realmente o inferno?)
A fonte do alimento. De volta à cozinha, centro dos muitos afazeres domésticos, grau mínimo do que se define como doméstico, protegido. Submetida sua maternidade, sua prole, a divisória é com a criadagem (criados, criaturas, crianças) cujas mãos não mandam, são ordenadas. Idolatria do controle das rédeas, da capitania sobre as outras cabeças, do controle capital sobre a massa das mãos submetidas. A hipertrofia da cabeça gera um corpo sem autonomia, parcial.
Como se instala o mando? Pela sua coordenação do trabalho coletivo. Suas mãos detêm o poder de todas elas. E na ação coletiva, conjunta, o poder da mutirão é incalculável. A soma das partes é maior do que o todo: ganhos de escala. E sobre ela se erguem estas inervações, cadeias de coordenação que se instalam sobre áreas imensas de controles de mãos; equilíbrios no concerto de mãos afinados em pontos centrais: o poder da assinatura, da ordem daquela mão, na manutenção deste acordo de mãos; suas centralizações em hierarquias e castas, sinetes imperiais. Mas a ação é da massa.
As mãos canalizam-se, formam cadeias, repetições, condutos; entram num concerto através de ritmos, chaves, abertura e fechamento de portas. Irradiam-se cadeias, concertos de mãos controladoras das chaves, agindo em uníssono; permitindo à mutirão maior se canalizar nesta chave ou naquele interruptor, concertar-se em condutos.
As mãos fazem máquinas, isto é: centralizam seu trabalho em um lugar vulnerável (espaço para proteção) cujo controle guarda uma inércia de seu poder. Acumulação num ponto: a mutirão converge o poder manual. Produto.
As acumulações convergem trabalho manual de vários tempos, conduzindo produtos e mãos entre si. Os irradiamentos por brechas irrompem controles na orquestração das comportas da mutirão. Eclodem ritmos baseados em pequenas contagens, número de chaves passando de mãos para marcar um compasso. Pecinhas contadas canalizam o acordo geral da força das mãos. A criadagem se ordena um concerto de trabalhos manuais trocando entre si as contagens da clientela. massas de escrivãos copiando documentos, conferindo selos, conformando, carimbando e assinando nos ateliês do direito, massas de contabilistas medindo pedrinhas e canalizando-as nos quadros do ábaco nos ateliês do comércio.
A hierarquia dos mandos é regrada pela proporção de chaves que a mão recebe no ciclo da circulação dos favores das mãos. E as artesanias ocultas, erguidos muros no segredo de seus dedos, canalizam a mutirão geral trazendo maior mando para si.
Evitada a autoprodução, no culto dos muros, louva-se a acumulação e a separação da clientela. Se entrassem no ateliê e produzissem, quando que iriam comprar?
Os objetos prontos são comprados: são trocados por essas pecinhas numeradas. Valendo uma chave de acesso a menos-trabalho, uma ordem de clientela: o dinheiro. Direito de menos-trabalho. Troca-se produzir, por dinheiro: trabalho manual em troca de direitos de menos-trabalho.
Utopia de um grau zero do esforço para as consumidoras. E por isso tendência a que todos os beneficiamentos que o alimento necessita chegarem já feitos.
. Herdamos daí uma cultura de apreço à maquinização - que constrói território, centraliza o poder produtivo - que bem se alinha à manutenção do poder classista.
Falam então de meritocracia, enquanto as raízes do sistema monetário fundam uma multiplicação da desigualdade total: quem detém a propriedade só multiplica seu menos-trabalho a graus impossíveis de materialização.
Desprezo às mãos, apagamento frente ao mito do trabalho realizado por máquinas (tendência à exclusão do proletariado) mas nunca houve tanto proletariado manufaturando o mundo.
Divisão segregadora do trabalho.
Fragmentam-se as unidades produtivas, das culturas (saberes sedimentados, experimentados, saberes sociais sem fala nem expressão, só a prática contaminando geração após geração) de artesania conjunta cooperativa.
Recebendo estes objetos fiéis e pré-moldados, só podemos assumir o papel do proprietário, e nunca o do criador; não inventamos o mundo, utilizamo-lo. Transformamo-nos num pequeno proprietário aburguesado (que paga serviçais) que nem sequer tem de inventar os mecanismos de causalidade para a realidade, pois estes já lhe são fornecidos prontos
De novo: mito de origem, de criação: não entendemos a criação.
(eu tinha de achar aquele heidegger da questao da técnica bilingue)
x apropriação e profanação dos produtos padronizados que recebemos.
veganismo como autonomia, ou qualquer restrição que saia do homogêneo.
Daí a perfurar estas cercas, borrar as distinções, sabermos transitar e violar estas heranças segregantes. E para tanto, a raiz das divisões está na boca. Que trabalhos envolve seu alimento, e quem os faz? Que mãos levam a comida ao seu prazer?
Ao buscarmos o fazer do nosso alimento, ao aprendermos a cozinhar, vamos vendo as enormes cadeias de trabalho servido que envolvem.
Restrições à dieta, como veganismo, levam a uma autonomia. E a compreender os pratos que se vê. Pistas da medicina (iátrica) autônoma.
Ao cozinharmos em grupo, fazemos mutirão: reunião de mãos que multiplicam o fazer. Mãos, já são muitas: são duas se ajudando, duas mancheias de dedos-muitos se ajudando.
Das mãos, dos números se apossando do mundo. Duplas, polegar opositor aos outros, dedo mínimo, grupo de dedos, auxiliar e condutora, mão de apoio e do delicado...
Na mutirão da cozinha, dividimos os saberes. A maestria dos alimentos, dos tempeiros e do seu preparo; conduzem-se as mãos, próprias e alheias, nas diferentes tarefas: descascar, cortar, separar, juntar, mexer, amassar, etc. Bastião do trabalho coletivo no lar do grupo.
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