Em primeiro lugar, tenho que me lembrar que são demônios, vermes, geração espontânea de podridão; demônios representados, que se incrustram nas mentes como erros repetidos ad infinitum
Tenho que tentar escrever sobre isso, sem essa escrita se tornar um ritual ininterrompível, um milagre ocorrendo: a criação
De fato, tentar escrever sobre isto invoca o mundo: escrever invoca o mundo, e um mosquito pousa na nossa mão, o celular toca: o mundo convida à dispersão
Mas sei bem do que estou falando (tenho a coragem para enfrentar, não tenho medo)
Início
A viagem é circular. A busca do início aqui se torna uma investigação sobre as “teorias do início” e a descoberta de um animado debate no século XI (no tempo das pestes e da fundação das universidades-ateliês desunificados, quando se faziam guerras longuíssimas (a dispersão de poder que caracterizou o feudalismo) e se inventou a imprensa... coisa que praticamente continuou até napoleão e a ascendência britânica no capitalismo industrializado e imperializado do globo, vivemos o fim dessa era posterior – dizemos que não vivemos um “renascimento”, vivemos uma morte, fim do mundo. Eis nossa teoria do tempo – como falar então da “idade média”? nós que ainda somos fascinados com a roma e a ascenção do cristianismo na Europa – mas enfim, assumamos a “verdade histórica”)
O livro então é um estudo sobre as relações entre teologia, filosofia natural e medicina; ajudando-nos a percorrer esse cenário, tão frequentado nos textos antigos.
1487 “um vapor negro da longura de um homem se levantava detrás da feiticeira” - era o demônio copulando. Isto está no “martelo das feiticeiras”, espécie de best-seller entre inquisidores e aficcionados. Como que essas páginas tão “barrocas” foram aceitas pelos seus contemporâneos? Como que, aqueles que hoje, olhando para trás, vemos como os antecessores dos cientistas – os que tentavam a medicina, e a biologia – se ligavam profundamente a debates metafísicos, lógicos, gramáticos; e a debates teólogicos...; e a debates demonológicos?
A ideia da “incubação demoníaca” na verdade foi gestada (se é que se pode falar assim) alguns séculos antes da inquisição, sem constituir o “ataque frontal à feitiçaria, ao sabá das bruxas e à igreja satânica” que a Inquisição promoveria depois. Era uma hipótese afeita às teorias do surgimento dos vermes, e da má-formação dos filhos: da sorte e do azar com os nascimentos. Não havia, então, a Biologia Teórica separada da Moral Familiar; devemos lembrar que as aristocracias soíam ter filhos degenerados, algo que colocamos na conta dos casamentos interprimos (e certa concessão ao incesto) que hoje são abismos para nossa moral canônica. Não entendemos a Idade Média, seja lá o que esse nome queira dizer. Dizem que toda hora acabamos de sair da Idade Média, que o progresso impera, que vivemos o terceiro tempo à beira do futurismo – onde antes reinara esse lento “amadurecimento” da humanidade, despertada nos confins da Antiguidade. Pilares básicos da concepção que envolve a ideia de Ocidente, a ideia de laicicismo no meio cristão do Poente.
Nossa separação Ciência e Igreja é uma construção histórica, na passagem das gerações de intelectuais em seus meios, escolas, academias, indústrias, sermões, discursos políticos, espaços de poder. Virilio: essa separação é um processo contemporâneo à emergência da Grande Mídia (cheia de poderes teocráticos sobre o que é a verdade), e da emergência da Grande Administração (seja “empresarial” seja “pública” seja o que for, a difusão das máquinas burocráticas como grandes rituais de obediência, a papelada...); contemporâneo à inauguração dessa autoconsciência moderna, ocidental, racionalista e vitoriosa no planeta; contemporâneo de revolução francesa e universalismo ao lado da industrialização de massas; do metro, da arqueologia...
Alguns “problemas” que vemos na Ciência de hoje e suas limitações, têm sua raiz nessas grandes separações antigas entre o Real e o Sagrado. (Latour)
“O problema da geração é, por natureza, um problema pluridisciplinar que concerne tanto os médicos, os filósofos e os teólogos; assim o foi na Idade Média”. Concerne os economistas também, fascinados com os bancos e o ‘dinheiro impresso’; há também a genealogia dos contadores e financistas por toda essa época, e suas usuras estéreis, a proibição do juro...
“A medicina se ocupa da gravidez e do parto, da esterilidade, das doenças reprodutivas e venéreas; ela tenta também explicar o mecanismo físico e fisiológico da concepção e o desenvolvimento embrionário.
Os filósofos “da natureza” (espécie de biólogos da época) se concentram, por sua vez, sobre essas últimas questões (os mecanismos da concepção, o desenvolvimento desde embrião até corpo) e as estudam na geração humana sobretudo no horizonte da zoologia; todos os seres vivos incluem-se na competência da Zoologia, definida por Aristóteles ao chamar de vida a alma.
A teologia, por último, se interessa pela geração em relação com problemas como origem da alma, transmissão do “pecado original”, encarnação ou concepção imaculada (veremos muitas outras).
Ainda que não as estudem pelas mesmas razões, não se concentrem sobre os mesmos aspectos e não chegam sempre às mesmas conclusões, suas discussões têm muitos traços em comum: se dedicam às mesmas questões clássicas, citam as mesmas autoridades, textos e opiniões; e aplicam o método de argumentação e apresentação.”
Devemos lembrar que este debate se dava através do método de ensino e produção e difusão de saber da escolástica, no qual a reencenação do debate é muito repetida (como se os bárbaros se agarrassem aos ínfimos grãos de lógica que se haviam reproduzido naquelas palavras, e os repetissem para que a Razão, acima deles, se visse lentamente estendendo seus braços (abrindo-se em dedos) pelo mundo: o conhecimento (conascimento) como a forma descendo à matéria, racionalizar, enformar o mundo). A questão é que as raízes estão crescendo, raízes ou veias? Estradas da alimentação mineração agricultivo urbanizado; É uma imensa placenta o mundo moderno, a fecundação da mãe-terra pela semente (do mal?): eis o mundo de hoje. Vai haver filiação, é claro. Passaremos do mito idade: a humanidade conceberá a sua concepção, adicionando-se, criança, à sucessão natureza-barbárie, futuro. Da origem longínqua, pela idade média, pela idade adulta agora no novo: passaremos do 3, para o 4. Sim, porque vivemos o império do 3 como inconcebível; o ponto de cruzamento entre os dois traços da cruz. A data zero, o início da contagem dos anos; a autoria; o ato fundante; o livro, o “está escrito”; a palavra profeta; a verdade revelada; o 3 da criação.
(ela me disse: a questão de afastar os demônios é importante, porque muitos se entranham no corpo, e ficam – são as dores. Sobre as “bads” e os medos “de delirar e perder a razão” que me acometem com essas leituras que, sinto, ainda são afins à minha pesquisa em economia – eu, que não vejo separação entre os campos “Arraial! Arraial!” não há cercas: "Vento, deus da paisagem") (na tábua de esmeralda: “o sol é seu pai, a lua é sua mãe; o vento o trouxe em seu ventre; a terra é sua nutriz e receptáculo”)
A evolução dessas categorias “científicas” ou pelo menos “lógicas”, que enraizaram-se no vocabulário daqueles homens durante seus “seminários” (semeamentos) de escolástica (herdada dos árabes e do oriente; sempre partilhada com judeus e todos que iam-e-vinham); a evolução de todo o jogo de palavras e do uso aceito que delas se tinha, utilizadas nos argumentos e debates em torno do “princípio de geração” em seus diversos contextos de discussão – esta evolução apoiava-se na discussão dos “limites” de tais conceitos. Como delimitar analiticamente as bordas, os critérios de diferenciação entre casos, através do estudo de casos limite.
Nesta arquitetura de “existências” (que depois será “empobrecida” na passagem para o mundo dos biólogos&arqueólogos) o milagre é só um caso extremo, mas existente, do acontecimento raro – já de todo modo bastante inexplicável – como o nascimento de fetos mal-formados, os “monstros”. Teoria do monstro. Teoria da grande doença, da grande podridão que nos ameaça. Teoria da morte.
As gravidezes miraculosas de Maria, é claro, mas também de Santa Ana e de Sara; a questão da existência da procriação no Paraíso; ou mesmo a criação de Adão e Eva (que podemos considerar como uma forma de “geração”, assim como toda a Gênesis aparece)
Os anos de 1220 a 1240 são particularmente fundamentais porque veem a tradução (do árabe) das obras zoológicas de Aristóteles; seguem-se nas décadas seguintes os nomes como Tomás de Aquino, e o surgimento de novas escolas de medicina escolástica (na itália)
A “escolástica” engloba a totalidade dos textos teóricos com alto nível de tecnicalidade, escritos para e por especialistas (se distingue das enciclopédias, da literatura didática, das pregações, da historiografia, etc.). Ela reflete suas escolas urbanas, universidades e conventos das ordens monásticas mendicantes; onde os mestres explicam (o verbo é “lêem”) textos de autoridade (é a “lição”) aos quais adicionam comentários escritos enquanto acontece o debate – que também utiliza formas canônicas quodlibet ver a Suma Teológica de Tomás de Aquino – e daí às tradições de comentários, nas quais os “autores” da época, enquanto passavam a limpo novas versões dos “debates de argumentos”, procuravam dissimular sua contribuição (também para evitar a censura).
Não se trata, nesse livro, de analisar a evolução de ideias populares, entranhadas na sociedade; mas sim a evolução destas concepções do seio de uma pequena elite através dos séculos, no topo de onde seria edificado o edifício científico, e onde até hoje repousam as igrejas.
De há muito se conhece a influência da teologia especulativa na história da lógica e das ciências da linguagem; pouco até aqui foi dito sobre suas influências na biologia e medicina, as ciências da vida.
Para Santo Agostinho,... p16
Pois bem, bastando essas notas, o trabalho do livro já parece feito: vemos o parentesco entre as questões, reabrimos a caixa de pandora. Até aqui, tudo bem; espécie de interesse filolófico na origem do pensamento.
Mas o fascinante é que, na teoria dos demônios, estejam tantas
respostas. E estamos tão desacostumados a frequentar essas paragens da metafísica, que bordejar o abismo ameaça o delírio (como falar de Merlin profeta? como falar da origem da doença, é vírus? que é a doença? que é o fim do mundo? como falar do oriente, como sair da razão (e talvez voltar))
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