Lua cheia da última carta

Lua cheia, é claro
Não quero ficar listando os afazeres que me atravessam, me vangloriando da minha importância.
Será que puxo a onda para o espiritual? Para o índio malhado de onça que me levou a esse rapé? Para a senhora que salvo quando vou beber, e cuja guia me protege? Sem o fumo, de repente me permiti isso de aplicar o tabaco... com jurema, quando insisti perguntando o que tinha. Foi tão rápido. 
Eu segui o mantra de buscar a beleza, esse foi meu fio condutor ali. Busquei o aplicador bonito, que Johanna achou bonito. Busquei o rapé do índio que eu achara bonito antes.
Que pressão.
É a pressão, novamente, de ter (ou tentar ganhar) um aliado: uma planta de poder, que entra em mim e me toma e me guia para um lado.
Estou tomando pisco como cachaça em bons tragos aqui. É lua cheia.
Os dias estão muito intensos, como sempre. Ah, vou listar. O mínimo é apresentar pesquisa para inaugurar um grupo de estudos no Maranhão. O mais chique é participar da feitura de um programa no Senado, pelos bastidores do PT. Hoje me foi tomando ódio misturado a ressaca ver os bolsonaristas. Amanhã lidero desenhos do nosso jornal que precisa decidir estrutura de conselho editorial...
Penso agora, será um insulto à rapé, ao tabaco e ao rapé, estar aqui me debatendo com essa mundaniedade...
Estou num estado meio estranho: e abrir o aliado abre essa permissão. De transcender. A sede de álcool está grande. Impossível dormir.
Abrir essa caixa de pandora? Eu fico com receio... Tenho que me construir forte, no meio do turbinado tornado em que vivo. Apenas tenho sementes e mudas, mas a planta está plantada no local exato, eu estudei durante muito. Minha bagagem é extensa, eu conheço tantos mapas. E desta vez estou indo com peso na mão, a caneta emite tinta grossa, o desenho é poderoso, agregador, são muitas vozes que se somam... 
Transcender... abrir-se à poesia. Era mais fácil quando mais novo, quando tomava uísque e ouvia Radiohead e isso era tão novo e potente que me largava no teclado aos olhos fechados digitando, digitando... Hoje as raízes são longas, tenho que mover castelos... Sigo numa cruzada, numa cruz que carrego? Num martírio penoso? Não acredito, é perverter o sentido.
É pela terra. É a terra, e eu quero apenas fluir. Tenho fé que sendo humilde e prudente, muito prudente, é possível viver bem. A vida está tão boa. Amo tanto Johanna e esse bichinho que criamos que dá risada como um gostinho que ele é. Terça-feira é São Jorge estão soltando fogos e eu insone escrevo rapezado e descendo pisco. In-dios a Johanna me perguntou sobre o debate indígena e eu pela intimidade com o termo índio... Não vamos sacralizar mais uma coisa, não cair no buraco negro da oposição branco-negro...
Lua cheia, lua cheia do cinco de copas, cuidado com o entusiasmo, e estou aqui abrindo a porta dum aliado, e quando iniciei a série tinha apenas rompido com o aliado antigo, que havia virado nada. Não tinha mais o mistério, havia o burocrático monótono vício. E a gestão do vício. Agora me pergunto sobre a gestão do rapé... Não é o mesmo. Estou virando álcool e em dúvida se imagino que estou catalisado pela porta aberta à possibilidade placebo do agente estranho que me desmancha o real... Ou se resisto e controlo, eu que busco os grandes ventos, 35 anos e os ventos soprando e aprendendo seus mapas e como empinar pipas e construir barcos... E agora os barcos são maiores, mas e daí... A arte é a mesma, seja no meio do tornado seja nas bordas. Continuar humilde sendo um grande servo-senhor da terra, pois sendo a terra-mesma manifesta que se sobrepõe à dualidade. 

Talvez isto o grande presente do princípio materialista: propor o terceiro, propor a síntese por baixo.

PS.
Elogiar então, de novo, o Colaboratório, momento extremo de utopia, dedicação fanfarronada. Minha vida é cheia de sonhos-entregas, eu que sou rico queimo a riqueza num potlatch (que contava à Jo lembrando Bataille e pensar a vida-morte para além do ciclo mercantil que Marx viu ser a fumaça que tudo encobre, tapando o princípio genético). Continuar humilde, meu grande ensinamento eram os manuais do Colab, as placas, aquela filosofia dissipadora do poder, crente na massa "anônima" não ser o monstro. Talvez isto o grande presente daquela filosofia que não publiquei direito: a defesa da massa anônima, dela não ser monstro, dela precisar ser... domesticada? Inserida na Economia do lar? Ou restará caótico nada...

E para seguir a simetria, vamos recolher então meus outros filosofemas? Qual era a tríade nova? Um sobre a mensagem poder, um sobre a política chão, um sobre a escrita mapa, um sobre ... teria que olhar o mapa de novo.
Então vamos voltar à tríade perscrutando. Já estou bêbado, vou precisar comer e tem reunião daqui 8h14. Olalá diria Théo (pausa para saudá-lo, saudadá-lo).  

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