Teoria da língua concreta

I

No levantamento que fiz das minhas teorias que vim desenvolvendo pela vida, e que queria ver um dia publicadas, ganhando mundo, superando esse amargor de vê-las tão criativas empoeiradas, cobertas de pano no fundo da oficina, pois nesse levantamento não incluí, propriamente, minhas ideias sobre a própria escrita. O caldeirão de intuições fervilhantes da manuelalogia e toda a poesia por que atravessei e barthes e o princípio materialista e a poesia concreta... Onde os estudos de etimologia, de teoria da etimologia, e onde o conhecimento deve ser rebaixado à expressão, sombra, fios que movem o títere da ideia em si, que não podemos tocar? Ainda platônico e kantiano, seguindo a leitura de deleuze daquelas ideias, atratoras além do sensível. Pois bem, neste percurso bem poético de querer fruir a escrita nela mesma e ver do que dela sai: esse gosto da metalinguagem desenfreada, a direção para baixo, para aqui: busca do centro do relógio... Falar sobre a própria escrita, descrevendo os muitos processos de criação: do próprio texto como experimentos que talvez ajudem a explicar o objeto do texto... E finalmente, me ocorre agora, por um lado erguer catedrais, máquinas de argumento bem azeitadas, utilizar o mapa, comunicar, criar teorias "úteis"; mas por outro lado não se reduzir a "fechar" o significante final. Deixar portas abertas, deixar o inventário, o vocabulário, todo o arsenal de visões discordantes em cena: às vezes desejo isto, da ciência: que pare de censurar as versões derrotadas, inadequadas; que passe sua mensagem, mas traga também o cortejo de anexos. Formar então a teoria plato-kantiana da apreensão intuitiva, pré-verbal; do texto multifacetado, da palavra objeto; mas não fechar só nisso, e deixar as muitas interrogações sobre o escrever exploratório, comunicativo, receptivo, as dúvidas sobre o objetivo da escrita. Até para não tornar a tarefa por demais hercúlea, para torná-la viável; para não colocar, no projeto, como alicerce algo que ainda nem existe: fazer o plano da obra apenas a moldura de sua frutificação, madura, para circular (falar também disso!) e não me impor o fechamento de uma teoria inacabada. 


II

Teoria da língua concreta. Não lemos tudo com a mesma intensidade: pulamos impunemente descrições, explicações, palavras que não entendemos; lemos de maneira errática, absorvendo o significado em diferentes modulações de interesse, de atenção. Depressa empilhamos as frases aceitando um sentido transversal: achamos ter captado a ideia geral que inspira aquelas linhas, e assistimos ao desfile de palavras satisfeitos com a boa ou má execução daquela roupagem, do virtuosismo de quem fala conseguir manter viva a mesma ideia por tantas linhas, mantendo o interesse. Quando então uma frase nova parece destoar, não se adequar ao sentido que imaginávamos, somos obrigados a rever, a reler, imaginando outra figura: e como com as indicações do texto vamos atando pistas até formar um retrato falado, um x no meio do mapa, uma jaula de linhas que nos ajuda a capturar a nova ideia. A ideia é, assim, algo fora do texto, e quem lê como que se hipnotiza no desfile de frases nos seus olhos que provoca isso sim o desfile de figuras indizíveis; o texto é então como contornos, pegadas, fragmentos de estátua, cacos de vaso e restos, ruínas incompletas onde é quem lê que monta castelos de ar; escrever é construir com ar.


III

As palavras não são bem o que parecem; a frase não diz bem aquilo que ela diz. São gestos, símbolos, que invocam algo de fora, que conduzem uma dança, ativam um corpo, e não adianta buscar insistentemente, como num interrogatório, o sentido literal das palavras, porque elas existem muito mais como fórmulas, expressões consagradas - cujo sentido de difícil expressão, cujo movimento que indicam - como num passe de mágica elas fazem surgir o significado, tomando atalhos pela repetição de encadeamentos conhecidos. Este ser meio etéreo das palavras, que são, em sua aparência literal, as sombras, o decalque, os contornos do sentido profundo que elas provocam ao serem utilizadas, transparece com muita força nas etimologias, ou, para ser mais exato, nas ressonâncias e parentescos entre as palavras. Que a palavra porta seja apenas o seu significado no dicionário não revela bem por que ela teria uma estrutura com tantos vias em uso. Pois é só mudar as vogais e temos porto ressoando a imagem, e temos parto e temos parte, e há um movimento comum entre essas palavras para além de suas consoantes. Será então que nós nem lemos as vogais, como numa língua aramaica, árabe ou hebraica, e o sentido se transfere por esse esqueleto de consoantes, de quinas e pontas duras onde as palavras furam e perfuram o tecido colorido das vogais, para desenhar o volume do significado? Montando uma estrutura de linhas e retas gramaticais, por sobre a qual se estende a lona do discurso e o público se exalta pelos vultos que entrevê debaixo do lençol? É preciso, de toda forma, afastar-se da concepção triunfalista de toda a linguística, que pretende saber o que se está dizendo, e analiticamente desvendar a ossatura lógica do discurso. Longe dessa precisão, temos de tirar os óculos e assumir uma teoria muito mais desfocada e ignorante, muito mais humilde (e fascinante). Como que pré-científica, mais afim do uso cotidiano e das fórmulas, dos ditados populares, a teoria da língua concreta dá um passo atrás e se assusta com o fato da língua ser, na verdade, ininteligível, ou melhor: de que o funcionamento da língua não pode ele mesmo ser descrito com palavras; como os demais objetos do mundo, a língua também está sob a lona do circo e seu volume guarda tantos mistérios quanto é impossível decifrar.

//

teoria do embalo: o texto (o discurso) são saltos entre substantivos, são fios atando cenas. Juntar o texto como passar cola entre imagens: eis a descrição pungente! eis a outra, noutra direção! mas entre elas, o quê? por causa disso... porém contudo... dessa forma, destarte... Qual a arte da escrita, a chegada ou a saída, o recheio, o que dá liga? Esmiucemos o sanduíche do texto, o escondidinho, esse almoço! Mas além disso, passada a cena, e a outra, também a arte, essa sim, exclamava! a arte finda, o estribilho, estardalhaço, do final.


o texto é uma mentira em sua unidade, a continuidade é um ilusionismo, o rejunte que une placas sem relação: e que podiam estar ao contrário, que tanto faz. E o que é que apreciamos, são os retalhos, ou o embuste? o movimento, ou o repouso? Que gesto, dizer tudo isso, escrevendo fuçando no mesmo buraco; fazendo malabarismo sem sair do lugar. Uma mentira que se cava em si mesma, e o que aprecio, o movimento da pá, no escuro do buraco? A direção, aqui, é para baixo: sem norte, rumo ao centro da bússola.


teoria da parada: onde findar o texto? atando o nó sufocante e aconchegante, como um casaco bem apertado, o texto tecido como armadilha, pescando o conceito em seu recipiente perfeito? Ou ao contrário, desfiando pontas soltas, rasgando o emaranhado para luzir frestas de sol, um texto que deságua indefinido, sem conclusão? E haverá outras, outras opções? Ou ainda, escolher ambas: atar um nó que explode, num aperto que detona mil saídas: o fim que é início, sem deixar de ser final.

Nenhum comentário:

Postar um comentário