Um deus passeando na brisa da tarde

Como naquela velha questão de livros que, na metade ou a dois terços, estão apontando para uma direção fascinante e como obra incompleta ali realmente criavam algo sem par. Contudo, nas suas páginas finais, no seu desfecho, no seu encaminhar para a conclusão, é como que desfeito o feitiço e, revelado o segredo, perde-se aquele mistério e aquele indefinível que vinha sendo construído. Lembro do livro da Olga Tokarczuk, "obre os ossos dos mortos", que fortemente me causou essa impressão. Pelo final pôr em contradição o mistério do livro inteiro. 

Pois bem, neste livro "Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho, romance português recente, fico com a mesma impressão. Ora, a meio do caminho, a ambiguidade da condução pelo personagem principal dos acontecimentos ainda era patente. Apesar de ele recusar a política e criar inimizades por toda parte, ele também tinha seus aliados e tinha trunfos. O preparo da cidade e da muralha, apesar de todo o desgaste pessoal, criava a única defesa diante da ameaça real, de forma que podia-se esperar uma solução do livro mais conflituosa, mais ambígua, mais indecidida até o final e, como eu estava gostando, com grande importância de encontros fortuitos e a arbitrariedade de alguma sucessão de acontecimentos de um dia qualquer acabarem definindo grandes proporções. Pois bem.

Nesse sentido, a ênfase crescente mais para o final do livro na paixão do personagem traz muito para um plano subjetivo, e o naufrágio completo de suas alianças, conforme ele vai passando vergonha e realmente passamos a concordar com o resto do populacho de que ele está, como se diz, faltando com seus deveres. O que era a defesa inclemente da racionalidade e algo brutal, racionalismo burocrático, se perde então como alguém fascinado. 

E mais do que isso, até então no livro apareciam os dramas políticos como massas pulsantes por debaixo de figuras, que mais não faziam um papel oportunista de surfar essas ondas e esbarrar na dureza do trato do personagem principal, Lúcio Quintilo Valério. Como exemplo disso estão o populista Rufo taberneiro e os seus encontros com o duúnviro, que não têm desfecho claro mas vão criando rancor. Ou a presença dos cristãos como um movimento de massa também, dos mouros sem nenhum plano; a falta de lideranças fortes, de projetos, de heróis, que é preenchida por esses processos sociais maiores, com figuras que apenas vão tentando se adaptar às circunstâncias.

O encaminhar-se para o desfecho mais centrado na paixonite e principalmente isolando claramente o personagem principal como um derrotado, como um isolado político, como alguém completamente insustentável no poder, como alguém que não se importa mais de perder o poder, como alguém que desobedece Marco Aurélio, o seu ídolo, o qual lhe recomendou expressamente que partilhasse dos cultos da plebe, isso torna o personagem um arrogante e dado a taras. Algo que não condiz. De uma concepção política e sociológica da história, passamos a algo mais romanceado, uma coisa mais hollywoodiana. É uma pena. 

E a ênfase tamanha no cristianismo apenas me entedia, pois é o que menos interessa na história toda. A parte curiosa do cristianismo é o quanto ele não era o atual, mas de toda forma a relação entre o cristianismo e as religiões pagãs trazia mais substância. 

Sendo assim, eu me considero um tanto decepcionado com o desfecho.

A própria guerra foi uma decepção, pois foi muito fácil. A partir da guerra considero que a história se perdeu, pois perdeu a sua ambiguidade. Não houve nenhum reconhecimento dos esforços do Lúcio Valério por nenhuma parte, e os mouros, se bem que ficarem como uma massa fazendo um ataque bárbaro foi interessante, e depois acampados lá foi interessante, isso não evoluiu. E então acabou a aparição da turba.

Mesmo porque até a guerra o duúnviro ainda propunha coisas; e depois ele passa para uma posição passiva de esperar os acontecimentos. A única coisa que ele faz ativamente é ir gemer na frente da Iunia Cantaber. Até a guerra ele tem informantes - tanto o árabe quanto o poeta - ele tem os seus aliados que depois vão morrendo e ele não substitui, e vai perdendo e deixa acontecer. Realmente ele só teve fôlego até a guerra dos mouros, e depois ele se deixa ficar. Antes ele estimulava a criação de máquinas de guerra e a demolição do Anfiteatro que ele vinha construindo que tinha inscrições com o nome dele. Tem os empreiteiros fazendo o muro e ele ainda tem depois a conscrição dos soldados; e o fato dele se opor à execução do bandoleiro já criou um ruído de isolamento dele e não rende nada, vira só um capricho seu. Então afogado em caprichos próprios fica esse grande esse grande talento de gestão, de previsão, todo o seu poder de enfrentar a politicagem se perde em suas idiossincrasias pessoais, a pessoa se impõe ao cargo após a guerra, cumprido o dever pelo menos. E ele passa a ver como derrota todo o resto em que ele é naufragado naquela paixão, naquele buraco negro. Também se coaduna com o "já fiz o meu papel e salvei a cidade". 

Apesar disso, fica implícito, a gente fica pensando: mas ele salvou a cidade, é graças a ele. O resto, enfim, é politicagem. Mas ele não vê isso, ninguém vê isso na história. Fica muito mais patente a palhaçada que ele faz, e o histerismo, as ações meio desesperadas que ele vai se propondo. Isso apenas mostra um desequilíbrio emocional um pouco incompreensível. 

Será que ele se agarra a essa paixão toda vendo o seu poder entrar num beco sem saída, prevendo a sua queda, ele mais e mais abraça o desespero apocalíptico da fanática? Ele É atraído pelo cristianismo; apesar de defender a cidade com unhas e dentes, ele fica lendo aquelas porcarias. Sua paixão por Iunia é então uma atração pelo suicídio, ele está buscando é o suicídio. Pois ele não consegue mais julgar se ele foi realmente o salvador da cidade. Já que todas as inimizades e a besteirada afogaram isso e ele foi ficando isolado, então, que valor tem ele? E toda a paixão da mulher e a tentativa de tirar ela da rota suicida atrai ele porque ele se enxerga nela. Sendo que ela nem o vê, ela apenas enxerga a batalha entre o bem e o mal; mas será que ele vê ela? Ou apenas enxerga o fim. Seguindo a mesma lógica maníaca com que ele construiu a cidade, a muralha, e que ele já não sabe mais medir se tem valia, se tem valor. Seguindo essa mesma lógica maníaca, ele é levado às últimas consequências dela, de seguir o seu critério misturado com caprichos, até quase a morte.

Num plano bem pessoal, eu devo comentar que frente ao seu zelo magnífico com o trabalho e rigor e perfeccionismo, em oposição à sua incapacidade de subordinar-se às malquerências e à perfídia da politicagem, eu sinto, infelizmente, uma identificação com essa postura, na medida em que, lembrando os meus trabalhos, e a demanda que se impõe de um discurso fácil de economista, uma maneira opaca de falar coisas meio óbvias ou incompreensíveis, repetir bordões e cumprir funções cerimoniais - e eu muitas vezes simplesmente recusei, fiquei criando problemas e redobrando o meu trabalho e triplicando o meu trabalho sem nenhum reconhecimento, criando e recriando muralhas para salvar cidades, sem conseguir o apoio dos patrícios. Espero ser mais flexível e mais atento a essas coisas, conseguir caminhar um pouco na brecha e não nessa polarização total. Mas não posso deixar de me identificar com o personagem e a sua falta de tato, ou melhor, a sua falta de crença de que deveria ceder, seu apego a sua filosofia muito fechada nos seus valores, nos seus altos valores - e no fim muito temeroso de ceder, e que acaba pondo tudo a perder. Por que ele não cede um pouco a plebe como faz Marco Aurélio? Por que eu não falo alguns bordões? ...eu até falo bastante.

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