Nessas andanças eletrônicas, topei com esse estilo pornográfico, o Femdom, female domination. Fiquei logo interessado, seria uma pornografia anti-machista? A exaltação da feminilidade poderosa em sua dominação sobre o falo? Meu imaginário se acendeu com vulvas vermelhas e oleosas, mas ao fazer a busca, nenhuma novidade. Metade dos vídeos é mulheres com paus de borracha dando pancadas em homem e penetrando seus cus, a dominação feminina através de um proto-falo; nada que viole a lógica do culto do falo onipresente na pornografia.
A outra metade dos vídeos, no entanto, se aproxima daquilo que eu buscava. Face sitting ou alguma palavra chave estranha assim, com a mulher esfregando a vulva contra o rosto alheio, ao seu bel-prazer. Aí sim, a vulva rainha, seus sucos e cheiros invadindo, dominando o homem, me parece a inversão da dominação. E agora revelo porque isso me atrai com uma curiosidade de desconstruir o mito falo. Havia este livro que conheci da boca de uma mexicana tarada que exaltava certos cheiros específicos do suvaco, em detrimento de outros, e ela numa alta noite me contou a seguinte história.
Jodorowsky o poeta chileno do teatro-pánico, dos filmes e quadrinhos como cirurgias simbólicas no inconsciente, era jovem quando uma Reyna D'Assia lhe encontrou e "sua pele, intensamente perfumada, me provocou uma espécie de loucura. Deixei que me tomasse pela mão e me arrastasse até a rua a entrar num táxi." Ela rápido está nua e os dois em coito, mas antes que ele comece seus vai-e-vens ela exclama "Alto!"
- Não te movas. Quero que sejas o eixo de minha paixão.
As suas pernas o envolvem num laço apertado, suas mãos tomando-lhe em domínio de todo o seu corpo, culminando em que "as paredes de sua vagina tremeram cada vez com maior velocidade. Dando vertiginosas contrações, se converteu em uma luva trepidante. Em meio a essa tempestade muscular já não tinha mais como me mover. Dentro em pouco meu sêmen a inundou."
Filha de um grande guru versado nos ocultismos marginais, ela treinara seus músculos a ponto de redescobrir técnicas eróticas há muito tidas como perdidas em nossa ideologia. Após séculos de ascensão patriarcal, história denunciada por Oswald de Andrade e a antropofagia e exaltada pelos psicanalistas idólatras do superego, a mulher é educada desde pequena que o falo é poderoso, ativo, vital, e que elas levam entre as pernas um cesto semelhante a um pântano, sem outra possibilidade de ação que ser preenchido pelo semeador de esperma. Se assume como dado que a vagina é um órgão passivo.
Restam no entanto pistas dessa força venérea oculta. Desde pompoarismo a cenas de filme com lançamento de bolinhas de ping-pong, surgem brechas na simplicidade da dominação fálica. A contração pode bloquear a penetração inteiramente, ou intensificar o gozo. A história daquele livro segue com a maga demonstrando esses sopros e contrações até culminar:
"Por último, sentada como uma rainha, com os joelhos muito separados, após uma longa absorção de ar foi expelindo-o para produzir um ruído musical, entre metálico e orgânico, que me recordou o canto das baleias... Fui atravessado por intensos calafrios: as sereias! o canto das sereias! que atraía os marinheiros para fazê-los naufragar nos mares, era o canto de suas vulvas..."
Creio nessa exaltação da mulher, seus cheiros, ferormônios, perfumes, seus gozos, suas menstruações como vitória sexual contra-machista, desfazedora do falocentrismo; é uma vitória do gozo, da idolatria da mulher (tão perseguida nos evangelhos). Meu corpo é fálico não é venéreo, e aqui sou um homem falando de mulheres ou citando homens falando de mulheres: é que faz falta o anti-machismo masculino amante da vulva, faz falta reinventar este desejo para um mundo de liberdade amorosa. Como dizer isso, sem reificar uma moral heterista, que vê os casais homo como incompletos?
Lembro então o Aristófanes num banquete platônico, e aí vale lembrar que a Grécia via assembleias masculinas elitistas e olimpíadas do corpo apolíneo em amálgama a bacanais de Vênus Artêmis "vinda do Oriente, do Leste, do Nascedouro do sol" em carnaval de poderosos escravos e mulheres como rainhas da colméia e cultos a Diana-Dionísio o vinho os venenos e a batucada feiticeira (vale lembrar que a Grécia não era renascentista, não havia passado um milênio caçando bruxas e era prima do matriarcado egípcio de Cleópatra). Aristófanes fala de humanos anteriores de três tipos, duplos falos, duplas vulvas e um de cada, até que o raio divino os separou - estas metades agora buscam se completar, em memória aos três sexos de outrora.
Lembro também o final de Emanuelle, quadrinho do Crepax: o mandala vitruviano do garoto penetrando o homem penetrando a mulher, em tríade de lótus aberta.

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