Os três porquinhos

Era uma vez, três porquinhos. Vocês conhecem a história. Eles constróem umas casas ruins e se dão mal. Mas vamos do início. Eram três porquinhos, jovens, e cada um escolhe um jeito de construir seu lar.

O primeiro porquinho parece preguiçoso, junta umas palhas e pronto, tem sua casa fresca no meio do mato. Ele deita na rede, dá mergulho no rio, chama curumim pra brincar. Ali do lado faz a horta, de agroecologia, fica amigo dos seringueiros, trabalha bambu, homeopatia. Toma chá e canta, faz curas e entra no profundo da terra. Eis que cai a noite, e vem o lobo rosnar na frente da casa de palha. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" Ele não abre não, que não é bobo. Seriam os grileiros? os garimpeiros, os lenhadores? Essa terra é minha! e dela eu não saio. "Então eu vou soprar e soprar". Ele suga o ar com um ruído horrível, e então sopra, como um tornado. E o tufão dos lobos arrasa tudo que encontra, e a aldeia se desfaz sob o vento da destruição. O porquinho da palha foge atrás do segundo porquinho.

O segundo porquinho já é menos ecológico, derruba umas árvores e monta sua casa com tábuas de madeira, um barracão em cima do morro. Trabalha na fábrica e faz churrasco no fim de semana. Toma cerveja, come carne. Cultua a dança e a música das suas raízes do outro lado do oceano. Joga capoeira. Recebe o primeiro porquinho, porquinho do campo, e eles ouvem funk. Mas o lobo mau aparece, agora dentro de um trator. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar!" E o porquinho funkeiro não abre. Não passarão! "Então eu vou soprar e soprar" Vem aquele ruído horrível dele sugando o ar, e de novo, o vendaval arrasa tudo que encontra, e das casas não sobra parede em pé após a passagem dos lobos. Os dois porquinhos, um índio, o outro negro, nesse nosso mito de criação, fogem atrás do terceiro porquinho.

O terceiro porquinho, os materiais que ele usa, a gente nem sabe de onde vêm. Será que ele constrói aquilo tudo sozinho? Tijolos, telhas, alvenaria, massa, cimento, caramba. Atrás daqueles muros o lobo mau não pode chegar. "Abra essa porta, porquinho, deixe-me entrar". Ninguém responde no interfone. "Então eu vou soprar e soprar" e ele até sopra, e sopra, mas o edifício do porquinho resiste, ele é uma fortaleza muito boa contra o furacão dos lobos selvagens. O porquinho da palha, e o porquinho da madeira, exclamam então: "Que maravilha essa casa, onde o lobo não consegue entrar. Não quero mais morar na aldeia distante, feita dos cabelos do mato, nem na favela perigosa, com puxadinhos e tantos e tantos vizinhos. Chega de índios, chega de quilombos! Quero morar no condomínio gradeado, com câmeras e ar-condicionado, isso sim, isso é a segurança que quero para o meu lar!"

O porquinho do tijolo, todo rechonchudo debaixo de sua cartola, sorri satisfeito. Esses porquinhos vão lhe pagar um aluguel bacana, e para consegui-lo, vão trabalhar no seu novo canteiro de obras, ali onde era a favela do segundo porquinho. Vivam as remoções para interesse arbitrário. Nos campos longínquos, a água, a floresta, e a terra do primeiro porquinho agora servem às fábricas do porquinho do dinheiro. Ele sai de casa, e encontra seu amigo lobo, e os dois saem abraçados e rindo, caminhando para o horizonte, em meio à fumaça e ao rastro de destruição.

Assim que a fábula dos três porquinhos traz implícito tanto o mito brasileiro das três raças, índios, negros e brancos, quanto um marxismo, camponeses, proletariado e capitalistas. Que seria o lobo mau senão a colonização num plano, a acumulação primitiva no outro? Mas, não sendo em si nada disto, sendo fábula sobre porquinhos, é ainda algo mais sutil, e que revela uma tríade imaginária de casas, lobos e vendavais. Qual a moral da história?

Nenhum comentário:

Postar um comentário