O sol me acorda me encosta a cara toda, quente, na minha pele e eu nem preciso abrir os olhos. Mas quando eu abro e lhe vejo todo amarelo, vejo também a lua branca, cada dia num lugar, lhe fazendo companhia. Olho para o céu, para a lua, e vejo nela uma praia, de areia branca. A areia lá brilha com o mesmo sol que na minha pele é quente. Se ela nasce com o sol já posto, no breu, adiantando um pouco a claridade do dia que virá, até na manhã eu vê-la, os dois no céu, ela espelho dele, cada dia mais perto - ela é minguante. Cada dia com o brilho menor, dormindo de manhã sob o dia recém-nascido, que ela anunciou na escuridão. Até atrasar tanto, nascer tão tarde, que nasce com ele, vira lua nova, sem reflexo de sol. Que na verdade está todo o seu espelho voltado a ele, e nada sobra para nós. A lua nova é preta, sumida escura junto do astro-rei, mas ainda é lenta em seu encalço, e no dia seguinte atrasa um cadinho suficiente para despontar, sorrisalegre, a curva branca em seu rosto redondo. Crescente réstia do brilho do dia que se põe, e que ela segue, indo dormir agora já no breu, cada vez maior e mais tarde, guardando a luz do dia que se pôs. Até a cheia, quando nasce no sol se pondo, domina a noite, rainha, e dorme no sol nascendo. À meia-noite, ela no topo do céu, quem a ilumina é o sol do dia posto ou já o sol do amanhã? Que dia é aquele que brilha sobre sua face? É o dia eterno.
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A lua arrasta atrás de si as marés, e quando alinha ao sol, na cheia e na nova, traz a maré maior. Maré dos mares, e também, maré do sangue. Todo mês a mulher fértil menstrua. Nesse céu urbano tão apagado, com luz elétrica muita fumaça e tantos tantos comprimidos, os ciclos físicos se desalinharam. Mas fora daqui o céu impera sobre a noite, e a lua com ele. E a menstruação se alinha à lua, rainha da noite. É naquele grau de brancura que ela sangra, todo mês, e se a lua avança muito sem vir o sangue, ela se aflige do atraso. A lua é o relógio do vermelho.
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Me contaram que as mulheres próximas menstruam juntas. Que o ciclo menstrual se alinha. Então lembrei daquela casa perdida no campo. Tiveram seis filhas mulheres, uma seguida da outra, até o sétimo filho sair homem, quando então o pai fugiu. Seis irmãs mais velhas, menstruando em uníssono com a mãe, ou ao seu ciclo se opondo. Guerra dos ciclos vermelhos, dos humores mudando, das homenagens à lua à fase da lua e ao marco vermelho. Esse caçula via a força do corpo e as manchas ficarem. E a lua, rainha, imperando sobre esse mês de torvelinhos, os mares agitados, as mulheres lhe brigando. Até a lua cheia, de tantos lobos uivando, o dia eterno sem ontem ou amanhã. Quando os limites se turvam. Maré menstrual de humores e sangue em sua casa, converge agora nele, foco da lua branca sem sol. Os olhos se invertem, o sexo dobra. O corpo desmonta em pêlo, acorda a fera, o lobo. A fúria fora, a casa cai, a roupa rasga, lobo, lobo, ele uiva à noite, o homem lobo da lua masculina.
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